“Intocáveis”, “O Palhaço” e as injustiças da vida

por Pedro Cunha

Saíram as primeiras indicações para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Essa categoria é tão diferente, mas tão diferente de todas as outras, que faz pouco sentido a Academia mantê-la como mantém. Mas enfim, mantém. O prêmio, que é recebido pelo diretor do filme, não é dele, mas sim do país como um todo. Cada país indica um filme para representá-lo e a Academia vai reduzindo a lista de indicados até chegar nos cinco que concorrerão na cerimônia. Nesse período a luta das distribuidoras é para que seus filmes entrem em cartaz nos EUA e fiquem o maior tempo possível, já que é necessário que eles sejam vistos pelos velhinhos da Academia para que possam ser votados.

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“O Quatrilho” é um filme sobre swing na Serra Gaúcha no final do século XIX, mas ainda assim perdeu para A Excêntrica Família de Antônia… 

Nunca ganhamos essa estatueta. O Brasil chegou na cerimônia algumas vezes: a primeira foi em 1963, com “O Pagador de Promessas”, de Anselmo Duarte, que perdeu o prêmio para o francês “Sempre aos Domingos” (Les Dimanches de Ville d’Avray, Serge Bourguignon). Depois de um longo e tenebroso inverno, os filmes do chamado “Renascimento” do Cinema Nacional chegaram por três vezes nos anos 90, provando que havia vida após a Embrafilme: em 1996, “O Quatrilho”, de Fábio Barreto, perdeu para o representante dos Países Baixos “A Excêntrica Família de Antônia” (Antonia, Marleen Gorris). Em 1998, “O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto, perdeu para o também holandês “Caráter” (Karakter, Mike van Diem). A família Barreto não deve gostar muito mesmo da Holanda…

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Não parece, mas é. O cartaz americano de “O Que É Isso, Companheiro?” Não fala em Brasil, nem em Pedro Cardoso, o protagonista do filme. Lá o foco é outro… e nem assim ganharam dos malditos holandeses. 

A melhor chance brasileira no Oscar de Filme Estrangeiro talvez tenha sido em 1999, quando o maravilhoso “Central do Brasil” de Walter Salles foi indicado. O filme tinha uma série de elementos que são do agrado da maioria do público votante: mostra o interior do país, mostra as questões sociais, tinha criança… e teve também Fernanda Montenegro numa atuação tão maravilhosa que rendeu a ela a indicação para o prêmio de Melhor Atriz, mesmo que sua atuação tenha sido em português. Furar essa barreira na Academia é muito difícil. Infelizmente em 1999 houve o furacão “A Vida É Bela” (La Vita É Bella, Roberto Benigni). O filme recebeu nada menos que SEIS indicações para o Oscar, incluindo Melhor Filme (!!), e Benigni, meio sem entender nada, saiu da premiação com o Oscar de Melhor Ator também. A derrota do lindo filme de Salles ficou clara quando anunciaram que a estatueta seria entregue por Sophia Loren, um carinho da Academia ao cinema italiano, do qual ela tanto gosta. Ah, e Fernanda Montenegro? Pois é. Numa categoria onde ela concorreu com Meryl Streep e Cate Blanchet, a vencedora foi… Gwyneth Paltron. É, eu sei.

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Fernando Meirelles apresenta um road movie no qual Fernanda Montenegro sensibilizou o mundo. Mas Gwyneth Paltrow e Roberto Benigni riram melhor, no final. 

Depois de 1999, onde o Brasil emplacou sua quarta indicação (a terceira em quatro anos, o que aponta que os anos 90 foram bons para o cinema nacional), um longo e tenebroso inverno. Nunca mais chegamos “na final”. Ironias à parte, o melhor filme brasileiro da atual safra e também o mais reconhecido lá fora, “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles, não foi indicado a Melhor Filme Estrangeiro. Aliás, sequer foi selecionado: o indicado brasileiro para 2003 foi o (bom, porém nem tanto) “Carandiru”, de Hector Babenco. “Cidade de Deus” deu a volta por cima voltando à premiação em 2004, indicado em quatro categorias, inclusive Melhor Diretor para Meirelles. O filme teve boa recepção no circuito comercial dos EUA e conseguiu com isso uma série de indicações técnicas, nas quais foi atropelado por “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei” (The Lord of The Rings – The Return of The King, Peter Jackson). Uma das questões que poderia ser levantadas é essa: os critérios da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, que é o órgão responsável por fazer a indicação. Em 2010 a escolha claramente política de “Lula – O Filho do Brasil”, de Fábio Barreto, causou um certo mal estar. A escolha por vezes é bastante arbitrária.

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“Cidade de Deus” nem concorreu pela indicação. “Lula, O Filho do Brasil”, sim. Pois é. 

Mas tudo isso para dizer que estou feliz e triste. Feliz porque o filme brasileiro indicado para 2013 foi “O Palhaço”, de Selton Mello. O filme é ótimo, sensível, bonito e engraçado na medida certa. A indicação, além de prêmio para o jovem diretor Selton Mello, é também uma justa homenagem a Paulo José, esse monumento do cinema nacional. Mas estou triste. Triste porque depois da semana passada, minha impressão é que 1999 vai se repetir, quando um maravilhoso filme brasileiro foi atropelado por um filme europeu. Triste porque assisti “Intocáveis” (Les Intouchables, Olivier Nakache e Eric Toledano, 2012) e o filme francês indicado para o Oscar só não ganha a estatueta em março de 2013 se os maias acertarem e o mundo terminar em dezembro de 2012.

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Selton Mello fez um filme bem legal. Mas infelizmente sinto que não será dessa vez… 

“Intocáveis” conta a história real de dois personagens interessantíssimos por si só. Um deles é o milionário Philippe, que após um acidente de parapente tornou-se tetraplégico e necessita de cuidados especialíssimos, fato que é amainado pelo dinheiro que ele possui, que permite que ele tenha tudo do melhor e do melhor ainda. O outro, mais interessante ainda, é Driss, um imigrante africano ex-presidiário que sobrevive às custas do seguro desemprego e que não tem perspectiva nenhuma da vida. O filme trabalha então com os contrastes: a Paris da Champs Elysées, dos marchands de arte e da música clássica encontra-se com a Paris de depois das Portas, dos banlieues, dos argelinos e senegaleses, da marginalidade, dos trabalhos subalternos e da não esperança. Um filme que tem como protagonistas um tetraplégico e um ex-presidiário é um pode de amargura e mágoa e é triste pra caramba, certo? Não. Mas não mesmo. Essa impressão se desfaz na primeira cena do filme, tenham certeza. E as duas grandes atuações, tanto de François Cluzet, que faz Philippe, como de Omar Sy como Driss, ajudam a levar o filme. O roteiro do filme tem sua própria velocidade e apresenta muito bem os personagens, usando o tempo necessário para isso. As coadjuvantes que cercam os dois protagonistas também fazem um trabalho bacana fazem com que o filme fique (ainda mais) humano. Aliás, humanidade é o que sobra em “Intocáveis”, que por vezes é politicamente incorreto e faz, em determinados momentos, a crítica a essa quase ditadura do comportamento dos dias de hoje.

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Não foi ver “Intocáveis” ainda? Está esperando o quê? É tudo que dizem e um tantinho mais… 

Sim, eu saí triste do cinema porque pensei que “O Palhaço”, por melhor que seja, vai perder. Mas, por outro lado, eu saí também encantado. “Intocáveis” é um filme que nos faz sentir coisas boas e rir de coisas simples. Poderia valer só por isso. Mas ainda por cima o filme é excelente.

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