Angel Dust – 25 anos de um disco de contos

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por Cassiano Rodka

Vou começar sendo bem direto ao ponto: Angel Dust é o melhor disco do mundo.

Eu lembro perfeitamente bem da primeira vez em que escutei o álbum. Era inverno em Porto Alegre e eu fui até a extinta loja Melody Laser pois haviam me avisado que o aguardado novo disco do Faith No More estava na mão. Eu e meu amigo Gustavo B.G. pegamos o CD e fomos até uma cabine onde se podia escutar os discos antes de comprá-los. Nós não estávamos preparados para o que sairia daquelas caixinhas. As risadas maníacas em “Land of Sunshine”, o piano country de “RV”, as cheerleaders cantando o refrão de “Be Aggressive”, a dance japonesa de “A Small Victory”, uma música de consultório de dentista fechando o disco… Eu nunca tinha escutado nada parecido com aquilo tudo. Minha impressão era de que tinham reunido todas as sonoridades possíveis em um mesmo pacote. Era como chegar em uma confeitaria e pedir um bolo com todos os sabores. Eu senti minha cabeça expandir, meu cérebro pulsar, o sangue correr mais rápido nas veias e aquele som tomar conta de mim para sempre.

Foi amor à primeira ouvida.

Angel Dust é o resultado de uma banda no topo da sua criatividade, experimentando com diversos gêneros, ritmos e arranjos, sem limites impostos. As músicas são densas, cheias de camadas de teclados, guitarras, baixos, vocais e muitos samples. Há tantas ideias acontecendo em cada canção que é possível descobrir melodias e sons mesmo depois de trocentas audições. O Faith No More estava deixando claro que não queria apenas fazer funk metal, a banda estava disposta a se aventurar nos mais diversos universos musicais. Não havia regra. A bem da verdade, essa foi a época em que a banda mais nadou contra a correnteza. Se a regra da vez era fazer clipes simples e sujos, a banda decidia filmar um vídeo super produzido e pop (“A Small Victory”). Se o rock era dominado por letras machistas, o Faith No More escrevia uma letra gay (“Be Aggressive”). Se o mundo queria uma cover do Black Sabbath, eles gravavam uma versão do Commodores (“Easy”). Essa postura questionadora da banda sempre me fascinou e, em Angel Dust, ela chegava ao ápice.

Todos os músicos da banda estão afiados em Angel Dust, mas é inegável que o grande salto criativo no disco fica por conta do vocalista Mike Patton. O cantor decidiu ir além das suas possibilidades de letrista e compositor, tratando cada canção como se fosse um conto. Em cada faixa, ele interpreta um personagem e canta como se fosse ele. O resultado é extremamente eficiente, fazendo com que cada música tenha uma voz completamente particular.

Angel Dust é um disco de contos.

“Land of Sunshine” dá início ao disco com o pé na porta, como sempre foi de costume na discografia da banda. Pesada, com teclados climáticos e baixo funkeado, a faixa dá o tom caótico do álbum. A letra de Patton é uma mistura de perguntas tiradas de um questionário de cientologia, frases encontradas em biscoitos da sorte chineses e referências a telemarketing e auto-ajuda. Patton ri (literalmente) do desespero das pessoas ao depositarem sua fé em qualquer coisa que as faça acreditar que são felizes.

“Caffeine” é uma das prediletas da banda e dos fãs, com suas guitarras pesadas, baixo hipnótico e clima paranoico. A letra foi escrita durante um experimento que Patton fez consigo mesmo, ficando alguns dias seguidos sem dormir, à base de café e televisão. Aqui o cantor parece apontar para pessoas falsas, que seguram uma pose e um discurso para agradar o mundo.

“Midlife Crisis”, o primeiro single, fala sobre a criação de falsas emoções. Patton revelou que a música se baseou um pouco na cantora Madonna em uma época em que ela parecia estar desesperada por atenção. O destaque aqui vai para o baixo de uma nota só tocado por Bill Gould. Durante todos os versos, o baixista toca repetidamente um Mi, marcando o tempo insistentemente como uma dor de cabeça pulsante. Segundo Gould, quando ele mostrou o baixo para o produtor do disco, Matt Wallace, ele achou que o baixista estava de sacanagem. Não estava. Bill sempre foi genial de maneira minimalista.

“RV” é uma balada country conduzida pelo piano de Roddy Bottum, com guitarras havaianas e um baixo tocado em ritmo preguiçoso. Cenário sonoro perfeito para o personagem white trash de Mike Patton. Um cara que vive com sua família em um trailer, bebendo cerveja e assistindo TV. O personagem não espera nada de sua vida e sabe que vai deixar o mesmo vazio de herança para os seus filhos. Levei pelo menos uma década para entender que o personagem acaba se suicidando enforcado com um cinto – se duvidarem, me chamem num chat que eu explico.

“Smaller and Smaller” é a única faixa do disco que nunca foi tocada ao vivo. Segundo o baixista, o ritmo arrastado e os muitos samples tornaram ela não muito apropriada para um show. A letra parece ser uma reflexão sobre as relações de poder entre conquistadores de terras e os nativos indígenas, tendo inclusive samples de cantos de índios norte-americanos.

“Everything’s Ruined” é um rock como só o Faith No More consegue fazer. A estrutura não é comum, tendo várias partes diferentes e nenhum refrão. Cada instrumento brilha nessa faixa, dos teclados crescentes de Roddy Bottum à bateria africana de Mike Bordin. Eu nunca vi o Patton falando sobre essa letra, mas para mim é sobre a exploração de crianças e adolescentes pelos seus pais, sacrificando a infância dos pequenos para encher os bolsos de dinheiro.

“Malpractice” é uma faixa de rock industrial, pesada e cinematográfica, com samples de orquestra e alarmes disparando. O personagem da música é uma mulher viciada em fazer cirurgias porque adora sentir as mãos do médico dentro dela. Yep!

“Kindergarten” é, talvez, a que mais se aproxima dos discos anteriores da banda, mesclando vocais de rap com um refrão melodioso em cima de um instrumental funk rock. Na letra, Patton fala sobre pessoas que sentem-se eternamente adolescentes por serem tratadas como tal. Creio que ele esteja falando especificamente de rock stars e se incluindo nessa lista.

“Be Aggressive” inicia com um órgão de igreja para depois ser conduzida por uma guitarra a la Jimi Hendrix e uma letra peculiar… Escrita por Roddy Bottum, que saiu do armário na época, ela fala sobre sexo oral entre homens. O intuito do tecladista era provocar o universo machista do rock, e o vocalista Mike Patton topou o desafio de cantá-la. Além disso, Patton trouxe a ideia de incluir um refrão entoado por cheerleaders, o que deu uma outra vida à canção. Um clássico absoluto!

“A Small Victory” é um rock dançante com toques orientais e samples típicos de música eletrônica, algo totalmente uncool para uma banda roqueira fazer na época. O riff, que sempre me pareceu criado em alguma escala oriental, é uma simples sequência de notas na escala mais básica do rock, a pentatônica. Eu apostaria que é uma criação do baixista Bill Gould. A letra é sobre a obsessão das pessoas em ganharem mesmo nas coisas mais superficiais, incluindo vitórias esportivas. Patton conta que seu pai era treinador de basquete, portanto ele cresceu com essa cobrança nas costas de ser sempre um vencedor.

“Crack Hitler” é Donna Summer numa bad trip. Uma disco com teclados de filme de aventura e vocais cantados num megafone. Nela, Mike Patton assume o papel de um traficante de drogas – supostamente uma figura da vida real – que se iguala a Hitler e vê a sua vida como a de um super-herói.

“Jizzlobber” é um pesadelo em forma de música. Riffs pesados, vocais berrados e teclado de filme de terror. O personagem está na cadeia, condenado a anos de reclusão, distante de tudo o que mais lhe apraz. A faixa termina com Patton cantando em desespero: “Eu sou o resultado do que eu fiz. Desculpe-me!”. Enquanto os vocais vão baixando, um imponente órgão de igreja surge com um coro dramático. Redenção?…

E eis que o acordeon de “Midnight Cowboy” surge como um anjo. Depois de você ter sido tragado, pisoteado, cuspido e ter seu suco de laranja cagado, a última canção fecha o disco em clima tranquilo de fim de filme, com os créditos subindo enquanto você está lá sentado na cadeira, ainda abalado pelo que acabou de vivenciar, sentindo que a sua vida nunca mais será a mesma.

E não será.

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