Clássicos X-Men: “Crepúsculo dos Mutantes” e “A Sombra de Sauron”

                Nos últimos anos muita gente tem entrado no universo dos quadrinhos. O sucesso das versões do cinema e das séries fez mais gente querer conhecer o Deadpool, o Demolidor, o Groot, a Arlequina ou o Flash. Nessa hora, é normal ficar um pouco perdido e há aquela pergunta: por onde começar? São cinquenta anos de quadrinhos da Marvel e setenta anos de DC! São tantas possibilidades que muita gente desiste antes de começar, sentindo-se intimidado.

                A editora Salvat, há uns três anos, tem feito um trabalho muito bacana para quem está entrando nesse universo. Eles lançaram a coleção “Graphic Novels Históricas”, uma coleção grande em que alguns dos principais clássicos dos 50 anos da Marvel foram publicados em excelente qualidade e por um preço honesto. Desde clássicos mais antigos, como “A Última Caçada de Kraven” (Homem-Aranha de J. M. DeMatteis), “A Queda de Murdock” (Demolidor de Frank Miller) e “O Último Viking” (Thor de Walt Simonson) até algumas publicações bem recentes, como vários títulos do Capitão América de Ed Brubaker (“O Soldado Invernal”, “Tempo Esgotado”), os X-Men de Joss Whedon (“Superdotados”, “Perigoso”) e os Vingadores de Brian Michael Bendis (“A Queda”, “Motim”, “Guerra Civil”, “Dinastia M”).

                O sucesso da coleção fez com que a Salvat, além de reimprimir os primeiros lançamentos, criasse continuações da série, com o subtítulo de “Clássicos”. Essa expansão tem muito material publicado no Brasil pela primeira vez, além de muita coisa publicada pela primeira vez em um formato decente, sem os cortes e redimensionamentos que a Abril fazia para as histórias caberem em suas revistas. Tem muito material do próprio Stan Lee (“Origens – Década de 1960”) e parcerias dele com John Romita (“Homem-Aranha Nunca Mais!”) e Jack Kirby (“Os Inumanos” e “A Vinda de Galactus”). Há muita coisa boa na coleção e, se você está começando do zero, não é uma ideia ruim cogitar comprá-la toda.

                Hoje eu vou falar especificamente de dois encadernados dessa expansão, os volumes XV e XVI. Essas edições são estreladas pelos X-Men, num momento bem singular da história dos heróis mutantes. Os X-Men surgiram em 1963, criados por Stan “The Man” Lee e Jack “King” Kirby. A ideia era uma revista com protagonistas jovens e que pudesse, mesmo que por meio de uma metáfora, discutir as questões sobre preconceito que chacoalhavam os Estados Unidos naquela década. A revista dos mutantes nunca foi um grande sucesso de vendas e equilibrou-se até 1970, quando foi cancelada. Em 1975 a série sofreu um reboot nas mãos de Len Wein (um roteiristas extremamente subestimado pela sua contribuição aos quadrinhos) e Dave Cockrum, que introduziram nos X-Men personagens como Colossus, Noturno, Tempestade e Wolverine, que seriam desenvolvidos na longa passagem de Chris Claremonth e John Byrne, os grandes responsáveis pelo sucesso que os X-Men são hoje, no final dos anos 70 e início dos anos 80 através de sagas como a da Fênix Negra e “Dias de Um Futuro Esquecido”.

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Neal Adams deu sequência ao trabalho de Jim Steranko num estilo novo de diagramação de quadrinhos.

                Por mais que a fase Claremonth/Byrne seja incensada como a origem do sucesso da turma do Professor Xavier, o material publicado pela Salvat não fala desse período. Bem pelo contrário: “Crepúsculo dos Mutantes” (volume XV) e “A Sombra de Sauron” (volume XVI) trazem as últimas histórias dos X-Men antes do cancelamento em 1970. Ao contrário do que se possa pensar, os títulos são excelentes.

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O “novo estilo” deu mais dinamismo e movimento aos quadrinhos, aproximando-os do cinema

                No final dos anos 60, o retorno que as editoras recebiam sobre suas revistas era muito menos instantâneo do que hoje. Não havia a fluidez e o imediatismo que só a internet e as redes sociais proporcionam e portanto as decisões eram muito mais lentas. O roteirista Don Heck conduzia as histórias dos mutantes já fazia algum tempo e as tramas estavam repetitivas, dando voltas em torno de Magneto e da sua Irmandade de Mutantes. As vendas baixas levaram Stan Lee, então Editor-Chefe da Marvel, a decidir pelo cancelamento da revista. Claro que na época isso não era algo simples: cancelar uma revista implicava em colocar outra no seu lugar e isso envolvia um processo bastante demorado. O volume XV da série da Salvat começa na edição 50 de “X-Men”, quando o veterano Arnold Drake assumiu o roteiro e o novato Jim Steranko tornou-se responsável pelos desenhos. Steranko deu uma renovada bacana no layout das revistas e é um dos responsáveis pela transição do estilo mais clássico de desenhistas como Kirby e Ditko até o traço mais cinematográfico (que pauta os quadrinhos ainda hoje) de Byrne, Miller e Pérez. Na metade do volume temos uma grata surpresa: já que a revista iria ser cancelada, o sempre esperto Stan Lee deu os lugares de roteirista e desenhista para dois jovens e deu carta branca para eles. Estamos falando do roteirista Roy Thomas e do desenhista Neal Adams.

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A diagramação revolucionária de Neal Adams

     Thomas e Adams foram, juntos, responsáveis pelas edições de 54 a 66 da revista “X-Men”, que então foi cancelada. Sabendo que poderiam fazer o que quisessem, Roy Thomas criou novos X-Men (Polaris, Destrutor, Banshee, Solaris), inseriu elementos importantes na história dos Sentinelas, criou inimigos como o Monolito Vivo e Sauron e trouxe de volta o Professor Xavier, que estava morto fazia algum tempo. Já Neal Adams continuou o trabalho de Jim Steranko e fez com que o título dos X-Men se tornasse bastante inovador, tanto na diagramação quanto nos traços dos próprios personagens. Adams modificou alguns dos uniformes dos X-Men, como o do Anjo, criando alguns designs que seguem sendo usados até hoje.

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O antigo uniforme amarelo (e azul, e vermelho, e preto) do Anjo e a repaginada feita por Adams

     Apesar da visível melhora na qualidade das histórias, a repercussão das mudanças chegou tarde demais e a revista foi cancelada no número 66, que fecha o volume XVI. É interessante perceber, no entanto, que a fase Thomas/Adams (e Drake/Steranko, também) foi base e inspiração para a grande fase de Chris Claremonth e John Byrne, segundo eles próprios. Além de ser importante para os X-Men, os dois volumes retratam um momento bastante singular da indústria dos quadrinhos, com a velha guarda da Marvel (Lee, Ditko, Kirby) passando o bastão para os jovens que revolucionaram o Universo da Casa das Ideias. Neal Adams, depois dos X-Men e em parceria com Dennis O’Neil, foi o responsável pela revitalização do Batman e pela fantástica série do Arqueiro Verde com o Lanterna Verde. Roy Thomas foi roteirista dos Vingadores durante muito tempo (inclusive sendo o responsável por clássicos como “A Guerra Kree-Skrull”), foi o responsável pela adaptação de “Conan” para os quadrinhos e pela criação de personagens como o Motoqueiro Fantasma. Em 1972 sucedeu o próprio Stan Lee como editor-chefe da Marvel, cargo que ocupou até 1974. Nos anos 80 trabalhou na DC em títulos como Mulher Maravilha, Sociedade da Justiça e Comando Invencível. Desde meados dos anos 90, Thomas dedica-se a quadrinhos de caridade e a títulos alternativos.

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Destrutor (Havok) foi um dos personagens criados por Thomas. O visual minimalista preto e branco de Adams foi pouquíssimo alterado até hoje.

     Para quem gosta dos X-Men e quer conhecer um pouco da rica mitologia dos quadrinhos dos mutantes, esses dois volumes são um prato cheio e oferecem uma alternativa aos clássicos que são sempre citados, como “Dias de Um Futuro Esquecido” ou a “Saga da Fênix Negra”.

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