Do moletom

por Brunna Stock

Faz uns dias li uma reportagem de um cara da comunicação relatando uma experiência no trabalho. Esse cara trabalha em uma agência de publicidade e tem uma colega que, supostamente, não é tão eficiente quanto ele, pois ela demora mais para fechar os contratos com os clientes. Porém, ao trocarem as assinaturas dos e-mails e ele passar a responder como se fosse ela, ele viveu um inferno de questionamentos (que antes não eram feitos) sobre as suas decisões para as campanhas. Ou seja, a moça não demorava mais para fechar os contratos por ser ruim no seu trabalho, mas porque ela era consideravelmente mais questionada e tinha que dar mais explicações do que o cara sobre cada coisa que ela fazia. O cara ficou chocado e revoltado com aquilo e a colega disse que isso era normal e já tinha acontecido várias vezes. E eu, leitora, não entendia como o cara não via isso acontecer com a sua colega.

Aí eu fui trabalhar de moletom semana passada. Mais especificamente, fui com uma calça jeans rasgada, um tênis tipo botinha super bacana, um moletom do David Bowie e uma touca (e eu sou professora numa universidade federal ~ui~). Nesse dia, eu tinha aula com uma turma que já foi minha semestre passado e ouvi várias coisas sobre o look: que eu parecia um “rapazinho”, ou que eu tenho uma capacidade grande de mudar de estilo, ou, ainda, que essa roupa tinha muito a ver com a minha personalidade – nem eu consigo dizer isso, não sei como os alunos conseguem. Enfim, segui minha aula normalmente. Exercícios feitos, materiais manipulados, alunos com várias dúvidas: nada de novo no fronte. Mais um dia de trabalho, mesmo eu estando de moletom.

Aí um colega – ressalto: um colega homem – passou pela minha sala, comentou que eu estava *estilosa* e eu brinquei que hoje tinha “chutado o balde e vindo de moletom”. Ele não entendeu o que eu queria dizer e falou que usava moletom o tempo inteiro. Naquele momento eu entendi o cara da agência. Eu tive que explicar pro meu colega que um homem usar tênis no trabalho é algo normal; já uma mulher, não – mulher usa sapatilha, bota, sandália. Um homem usar camiseta de banda é normal; uma mulher, não. Camisa, algo com um corte mais ~feminino~ ou um vestido, a moça não tem? Tive que verbalizar que ele vir de moletom não é nada de mais, mas uma mulher não usar jaqueta, blazer ou casaquinho é.

Aqui se mesclam os (pré)conceitos do que é ser mulher e do que é ser mulher e professora universitária. Eu sou confundida com aluna o tempo todo. Eu recebo olhares desconfiados sobre a roupa o tempo todo. Colegas já vieram abaixar a minha saia porque acharam curta demais e um batom vermelho ainda causa muitos comentários do tipo “hoje tá pela maldade” em um ambiente universitário em pleno 2017. Socorro!

Quando eu comecei a dar aula, talvez pela insegurança do início da profissão ou por ser uma novinha de 18 anos, sentia a necessidade de provar algo. Precisava mostrar pra todxs que eu era a professora e que eu sabia (pelo menos em parte) o que eu estava fazendo. Mas, hoje, eu não tenho mais saco: hoje eu vou com a minha camiseta do Star Wars, uso meus batons intensos, vou de tênis, bota, sapatilha ou o que eu quiser. Estou bem com isso, vlw flw? Mas a questão não é essa. A questão é até quando as mulheres ainda terão que provar alguma coisa, seja numa agência, seja numa sala de aula pelo simples fato de serem mulheres?

É revoltante nas reuniões de departamento ainda se ver (e muito!) bropriating e mansplaining, ainda mais em contextos como o meu em que se tem quase 40 pessoas na reunião, sendo quatro homens no máximo. Por que ninguém questiona a seriedade do meu colega que vem de moletom? Por que ninguém questiona a seriedade do meu colega at all, independente do que ele veste, enquanto as mulheres têm que provar que são sérias e competentes mesmo estando de terninho? Por que ninguém questiona o conhecimento de Matemática dos meus colegas homens? Porque eles, simplesmente, são homens.

É, galera… é institucionalizado. É geral. É todo dia. E é por isso que a luta é constante e a revolução é necessária, que seja começando por um moletom.

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