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Dos contratos

por Brunna Stock

Ao discutir ensino e aprendizagem com xs alunxs da graduação, sempre aparece a teoria do contrato didático. A concepção de contrato didático trazida por Brousseau é relativamente simples: existe um acordo estabelecido entre professorx e alunx que é composto por várias cláusulas construídas no fazer diário e na trajetória da turma (ou do aluno, enfim). Interessante é que nem sempre essas cláusulas necessitam estar explícitas. Exemplo óbvio: não se pode tacar fogo na sala de aula; exemplo não tão óbvio: todo problema de matemática terá no enunciado as informações necessárias para ser resolvido.

Ninguém precisa te dizer que você não pode dar uma de Nero, isso está subentendido nas regras de convívio social e foi construído social e historicamente na interação com outras pessoas que passaram por esse ambiente chamado escola. Sobre o problema de matemática, a problematização (sim, sempre – eu sou um saco, sei disso) consiste em justamente tentar romper essa cláusula e questionar se isso é realmente necessário, provocando que se utilize diversas formas de problemas (com uma solução, com várias soluções, sem solução) para serem discutidos com os estudantes.

“Mas Brunna, ele é um contrato didático por que se refere à sala de aula?” Não exatamente. Ele é mais do que ~sobre a sala de aula~, ele é sobre uma relação específica desse ambiente. Há tantos outros contratos quanto relações possíveis (ou mais ainda, se pensarmos que, em grupo, se cria uma nova dinâmica e, assim, um novo acordo). Logo, esse tal de contrato didático tem uma relação direta com esse incansável ser chamado “professor” e com esse eternamente insatisfeito ser chamado “aluno”.

Esta semana me peguei refletindo sobre os tantos outros contratos existentes nas relações sociais que não a professorx – alunx. Por exemplo, o contrato existente entre “namoradxs”. Pra começar, isso sempre foi confuso pra mim: o que define ser “amigx”, “ficante”, “rolo”, “namoradx” ou “noivx”? Já ouvi que:

Amigx cê não beija – fale por você, meu bem.

Ficante você não quer ficar para o resto da vida – você quis ficar para o resto da vida com todas as pessoas com quem namorou? Gzuz!

Rolo é coisa indefinida que você usa pra quando não consegue colocar a situação em uma definição melhor – tá, essa faz sentido.

E por aí vai… O fato é que todas essas relações se estabelecem a partir de uma palavra imbuída de um significado em um contexto social e, consequentemente, de um contrato – só que a gente não fala muito dele não. Pior ainda é que se assume que esse acordo é igual para todas as relações. Quando uma pessoa te pede em namoro, dificilmente tu vai olhar pra ela e perguntar “mas o que isso significa?”: em geral, ou você está de acordo ou não está em função do que VOCÊ acredita que é um namoro e todas suas implicações, e não no que você e a outra pessoa pensam que deveria ser um namoro. Maluco isso, né? Mas mais louco ainda é você definir e julgar a relação dx outrx, pois você faz isso baseado no que você, que nem está nessa relação, acredita que deveria ser essa relação. Mas, como vimos pela repercussão do vídeo da Jout Jout sobre o fim do relacionamento dela, gente pra apontar dedinhos pra relação dos outros é o que não falta.

Gente, tive uma ideia agora: imagina que louco se a gente não assumisse como a relação dos outros deveria ser? Será que dá? Acho que dá, hein? Eu digo prxs alunxs que devemos questionar as cláusulas desse contrato didático, discuti-las e reconstruí-las com a turma. Acho que tá faltando a gente desconstruir as cláusulas desses outros contratos interpessoais: não com um fim burocrático (não precisa reconhecer em cartório não, tá?), mas para sermos autores desse acordo. Os tempos mudam, as pessoas mudam e esse contrato nunca vai ficar lá, pronto, estático: novos acordos serão necessários e novas relações estão se configurando. Ainda bem, né?

2 comentários sobre “Dos contratos

  1. É isso Brunna.. disse o que é fundamental! O modo como cada um e cada uma vive o seu contrato só diz respeito a quem o vive. Então se queres liberdade para viver o seu, respeite o modo dos outros viverem!

    Curtido por 1 pessoa

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