O olhar de Moebius sobre o ser humano em O Mundo de Edena

por Cassiano Rodka

O quadrinista francês Moebius iniciou sua carreira no mundo das HQs através de histórias de cowboy e tiras cômicas na revista Metal Hurlànt. Mas foi quando o desenhista desenvolveu um traço próprio, complexo e psicodélico, que as atenções voltaram-se à sua obra. Suas histórias passaram a focar em contos de ficção científica com personagens peculiares vivendo em universos fantásticos. Diferentemente da maior parte desse gênero, Moebius não abordava um futuro real e possível, mas sim uma realidade alternativa, como se fosse construído em um sonho.

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Desde as histórias mudas do misterioso “Arzach” até o seu maior clássico, “A Garagem Hermética”, Moebius desenvolveu um universo criativo singular e cheio de camadas. Sua história “The Long Tomorrow” serviu de base para o filme “Blade Runner” e o quadrinista foi chamado para contribuir com o visual de alguns clássicos do cinema sci-fi, como “Alien”, “O Quinto Elemento” e uma primeira versão de “Duna”, que acabou ficando no papel – literalmente, pois se tornou o livro “O Incal”.

Para mim, a grande obra de Moebius surgiu com a criação do universo de Edena. Lançado no Brasil pela editora Nemo em seis tomos, “O Mundo de Edena” segue as aventuras de dois personagens, Stel e Atan, dois mecânicos de naves espaciais que acabam encarando várias questões humanas que haviam deixado para trás diante de uma vida imersa em contato com máquinas e distante de sua própria espiritualidade.

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O primeiro livro do ciclo de Edena, “Na Estrela”, foi criado como um trabalho para a Citroën no início dos anos 80, mas Moebius gostou tanto do resultado que viu toda uma sequência para a história, criando o que ele chamou de “O ciclo de Edena”. O traço usado no primeiro livro é mais simples do que o desenhista costumava usa na épocar, pois ele estava interessado em experimentar com um desenho mais objetivo e menos rebuscado. Ao longo dos livros, podemos perceber que, assim como a história vai ficando mais complexa, também o traço vai ganhando mais expressividade.

Nas páginas do ciclo de Edena, Moebius derrama muito de suas preocupações em relação ao mundo. As histórias abordam temas diferentes como alimentação, sexualidade, gênero, hierarquia social, desobediência civil, espiritualidade, entre outros assuntos que o escritor considerava importante falar a respeito. Portanto, a obra acabou se tornando um verdadeiro tratado de Moebius sobre o ser humano. Mas o quadrinista aborda cada tema de maneira onírica e, muitas vezes, até cômica, nunca sendo um pregador da verdade. Ao contrário, as histórias convidam à reflexão e são bastante abertas a diferentes interpretações.

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Outra coisa muito bacana do ciclo de Edena é que as histórias se conectam a outros livros de Moebius, criando um universo enorme e instigante dento da sua obra. O clássico personagem Major Grubert, de “A Garagem Hermética”, ressurge em Edena, revelando um pouco mais sobre a sua misteriosa figura. Os “narigudos” do conto “To See Naples” também aparecem como uma civilização afastada de sua humanidade, tanto fisicamente quanto espiritualmente, vivendo em uma cidade que chamam de Ninho.

Os seis livros de “O Mundo de Edena” retratam o ser humano voltando a entrar em contato com uma humanidade perdida em meio a uma civilização que desvaloriza a diferença e força todos a uma existência monótona e insatisfatória. É um (ainda) atual reflexo de nosso mundo contado por um dos grandes quadrinistas que já passaram por esse planeta.

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