Os melhores de 2016

por Cassiano Rodka

O ano de 2016 ficou marcado pelas muitas perdas dentro do mundo da música. David Bowie, Prince, George Michael, entre outros nomes conhecidos, fecharam as cortinas e entristeceram muita gente. Mas não sem antes deixarem um legado duradouro. Dentro dessa ótica do músico que produz um material instigante e permanente, podemos dizer que o ano também teve bons ganhos através de discos lançados por artistas que ainda acreditam que a música pode ser algo mais tocante e profundo do que uma seleção de hits momentâneos e descartáveis.

Selton – Loreto Paradiso
Se eu tivesse que citar apenas um álbum de 2016, certamente seria “Loreto Paradiso”. O mais recente disco da Selton encontra a banda brasileira em seu melhor momento, misturando toda a bagagem musical que eles acumularam ao longo dos anos vivendo nas cidades de Porto Alegre, Barcelona e Milão. As letras passam sem cerimônia pelo inglês, português e italiano, assim como os instrumentais costuram influências de rock, folk, eletrônica, R ‘n’ B, samba e tropicalismo. Uma bela trilha sonora para um utópico mundo globalizado, empático e sem fronteiras.

David Bowie – Blackstar
Muito além de ser um belo disco, “Blackstar” é a grande despedida do camaleão do rock. Recheado de canções estranhas e letras sombrias, David Bowie escreveu seu epitáfio em forma de melodia e promoveu um fechamento incrível para a sua extensa e diversa discografia. Longe de ceder a tendências, o músico dá o seu adeus com uma sonoridade nu jazz/downtempo em um climinha manso e etéreo. Um fechar de cortinas espetacular!

Nevermen – Nevermen
O trio de vocalistas Mike Patton, Doseone e Tunde Adebimpe resolveu unir suas diferentes experiências para ver o que sairia dessa colisão. Do caldeirão de ideias dos três músicos surgiram as canções do disco de estreia da banda: uma gororoba saborosa com pitadas de hip hop, eletrônica, doo-wop, rock e pop. A sonoridade do Nevermen curiosamente fica na corda bamba entre o experimental e o radiofônico, rendendo uma audição ao mesmo tempo surpreendente e assobiável.

Violent Femmes – We Can Do Anything
Depois de mais de uma década sem tocar juntos, o vocalista e guitarrista Gordon Gano e o baixista Brian Ritchie deixaram as tretas de lado e compuseram um novo disco cheio de canções roqueiras acústicas. Apesar de não terem se arriscado muito fora da sonoridade que se espera da banda, o álbum acabou resultando em uma boa seleção de músicas graças ao clima descontraído das sessões de gravação – feitas todas ao vivo no estúdio. Em uma época tomada por canções artificiais e sem alma, é um alívio!

Radiohead – A Moon Shaped Pool
Delicado e melancólico, o novo disco do grupo é mais uma peça no enorme quebra-cabeças do Radiohead. Mais interessada em confundir do que explicar, a banda mais uma vez apresenta músicas inspiradas, com construções difíceis de serem compreendidas logo nas primeiras ouvidas. A grande sacada de “A Moon Shaped Pool” é a participação da London Contemporary Orchestra, que acrescenta um novo ingrediente à sonoridade sempre inusitada do Radiohead, dando um clima mais cinematográfico e dramático às melodias.

The Heavy – Hurt & The Merciless
Menos pesado e menos diverso que os álbuns anteriores, “Hurt & The Merciless” encontra o Heavy em um momento mais funk e soul do que nunca. O disco soa mais ao vivo do que os anteriores, contando com menos samples e mais instrumentos reais. Eu demorei um pouco para me render a esse disco, eu confesso, mas as composições do quarteto continuam de primeira qualidade e, apesar de não ser o melhor trabalho dos caras, é certamente um discaço!

Kamasi Washington – The Epic
O disco de estreia do saxofonista Kamasi Washington deixa claro que o jazzista não está para brincadeira. O norte-americano reuniu 14 músicos, uma orquestra de 9 integrantes e um coro de 14 vozes (que inclui a cantora brasileira Thalma de Freitas) para dar vida a um jazz psicodélico e grandioso. As composições originais unem o melhor do jazz clássico com diversos outros gêneros contemporâneos. É difícil não ver Kamasi Washington como o novo Miles Davis.

The Claypool Lennon Delirium – Monolith of Phobos
A junção do vocalista/baixista do Primus com o filho de John Lennon com Yoko Ono não poderia dar em outra coisa: uma viagem psicodélica com sabores de Pink Floyd, Beatles, Mutantes e Ween. As músicas mesclam as boas ideias melódicas de Sean Lennon com a sagacidade de Les Claypool nos arranjos inusitados e o resultado final é uma bela seleção de deliciosas esquisitices. Ao vivo a dupla tem mandado muito bem também, com excelentes músicos de apoio caprichando nas apresentações.

Daan – Nada
Usando um anagrama de seu próprio nome, o músico belga nomeou seu mais recente disco de “Nada”. O título faz referência ao pano de fundo das novas gravações, realizadas nas silenciosas paisagens da Catalunha,  Focando no seu lado mais acústico, Daan apresenta um conjunto de canções melancólicas em arranjos simples. As composições foram criadas sob a condição de não serem muito alteradas, tanto em instrumental quanto nas letras, resultando em um disco natural, sem ser over pensado. Ainda que predominantemente acústico, o lado mais dançante do músico também dá as caras em faixas como a mântrica “Wheel” e a almodovaresca “Bala Perdida”, cantada em espanhol.

Ween – God Ween Satan: Live
Eu não poderia deixar de fechar a lista com esse belo vinil do Ween, que serviu de trilha para a minha última semana de 2016. Gravado ao vivo em 2001, o álbum é um registro do show que a banda fez tocando na íntegra o seu disco de estreia, “God Ween Satan”. Incluindo algumas músicas raramente (ou até nunca antes) tocadas ao vivo, o LP é uma delícia para os fãs da loucura do Ween. Não tem vídeo dessa apresentação, então vai aqui uma performance em outro show de um dos clássicos do disco, “Fat Lenny”.

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