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Do final do ano

por Brunna Stock

Já diria a Simone: “Então é Natal e o que você fez?”. Sim, sou dessas que fica reflexiva com o final do ano. É doido isso porque, na real, esse “final de ano” é arbitrário: final pra quem? Estamos aqui, de boas, seguindo o calendário cristão e fingindo que ele é válido para todxs – sendo que nem pra nós mesmxs ele é válido, pois o final do ano é de cada um no seu aniversário. Mais louca ainda é essa necessidade do ser humano de ter um controle: precisamos saber quando as coisas começam e terminam – no caso, o ano – para que todo mundo siga a mesma batida, pra que todxs comemorem as mesmas coisas (por nós criadas) e todxs gastem em presentes como manda a tradição (também por nós criada). Lindo.

* Ok, voltando da minha breve viagem reflexiva problematizadora*

Não lembro o exato momento em que percebi que cada família tinha uma comemoração de final de ano particular, mas não faz muito tempo. Vou contar pra você a minha, que é centrada no Natal e na figura da minha avó, dona Colorinda (sim, esse é nome dela; true story). A vó Colô se dedica em manter a tradição do Natal como uma festa de união, trocas e celebração. Talvez pela decepção de sua mãe ao encontrar o padre bêbado num bar, a religião deixou de ser o mote e acabou se tornando um pretexto para uma reunião que se define em bagunça, choradeira e comilança e que hoje reúne católicos, espíritas, umbandistas, ateus, judeus e indefinidos.

Pra não receber o selo 100% religion free, há sempre uma reflexão, a maioria das vezes realizada pelo meu pai, seguida de uma oração e por um coro de “noite feliz” – isso eu nunca entendi o porquê. Todo ano se discute se primeiro comemos ou se fazemos o amigo secreto e, todo ano, decidimos trocar presentes antes de comer. Aí começa a choradeira na sequencia de declarações, abraços, lembranças e afeto. Logo após, vem o momento de caos generalizado, em que todos os subversivos que querem dar presentes fora do amigo secreto se encontram. Enfim, é chegado o momento de ataque ao peru de Natal feito pela vó (e com minha assistência, apesar de ser vegetariana) e a depressão após inúmeras sobremesas e Bowle (tipo um clericot) do tio. Como eu disse, bagunça, choradeira e comilança – que eu não trocaria por nada.

Esse breve relato é para compreender o que é o meu final do ano. Na minha história, o réveillon é uma festa que pode ser com a família, com os amigos ou até sozinho em lugar a determinar. O Natal não. Já tentamos fazer o Natal fora de Porto Alegre e foi estranho – não falamos muito sobre isso. Mas, mais que isso, ele é a festa que tem como objetivo unir a maior quantidade possível de pessoas (incluindo agregadxs, família dxs agregadxs, amigxs da família dxs agregadxs, amigxs, desgarradxs, entre outrxs), sendo comemorado na data que convém a maioria – e não me lembro de ter comemorado algum no dia 24 – e com transmissão ao vivo para os viajantes. Esse sentimento de encontro e de celebração define o meu final de ano e faz eu nem me importar com a montoeira de trabalho e estudos que ainda tenho que realizar.

Evitei, mas não vou deixar de ser piegas: gostaria que todo mundo tivesse um dia assim. Não digo com a família (que é um conceito bem relativo), com a bagunça, com os presentes, com a oração; isso cada grupo define como acha melhor. Mas, sim, um dia em que pudesse encontrar uma galera que você passou menos tempo do que gostaria durante o ano, trocasse umas energias boas e sentisse que tá tudo bem. Vamos combinar que, no nível que foi 2016, um dia com esse sentimento de *não tem ruim pra nós* deveria ser programa de saúde pública.

Um comentário sobre “Do final do ano

  1. Bruna, você descreveu fielmente a minha noite de Natal em família!
    Nada muda na tradição….
    O máximo que consegui foi introduzir uma singela mousse de aipo para acompanhar o bom e abnegado 🦃

    Curtido por 1 pessoa

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