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Demolidor: do Diabo da Guarda a Mark Waid (parte 2)

por Pedro Cunha

Continuando a série sobre o Demolidor, agora vamos dos anos 90 até os dias de hoje, passando pelas inspiradas histórias de Brian Michael  Bendis e Ed Brubaker…

 

1. O Diabo da Guarda e o Demolidor pós-Miller.

No final dos anos 1990 o sucesso do selo Vertigo, da DC, destinado a um público mais adulto, fez com que a Marvel criasse o “Marvel Knights”, um selo para publicar histórias para um público mais adulto onde temas como sexo e violência pudessem aparecer com uma liberdade maior. O roteirista Kevin Smith e o desenhista Joe Quesada fizeram, em 1998, sob o selo Knights, o arco “Diabo da Guarda” (Guardian Devil), que explorava a fé católica do personagem e terminava de maneira dramática, com a morte de Karen Page pelas mãos do Mercenário, sendo a segunda namorada do herói a ter o mesmo destino.

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O Demolidor de Joe Quesada

Os anos 90 em geral não foram generosos com o Demônio Ousado. Tirando fora “Diabo da Guarda” e uma ou outra minissérie com “Demolidor: Amarelo”, de Jeph Loeb e Tim Sale, o personagem (como quase toda Marvel, nessa época) passou por maus bocados, reinvenções ruins, repetições pálidas e mudanças pavorosas de uniforme, usando inclusive uma armadura cinza e vermelha com joelheiras.

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Demolidor dos anos 90: ombreiras e joelheiras. Milagre não ter uma pochete.
  1. Bendis, sempre ele. E Brubaker.

Em 2001 Brian Michael Bendis, que estreara na Marvel no ano anterior escrevendo o universo Ultimate, foi convidado pelo editor Joe Quesada para assumir o título do Demolidor, que vinha mal das pernas. Bendis permaneceu no título entre 2001 e 2005, revitalizando o herói e respeitando o cânone criado por Miller. O Rei do Crime está lá, mas já no primeiro arco ele é assassinado por uma rebelião de seus capangas, abrindo um cenário novo no complicado teatro das gangues e facções de Nova Iorque. Também estão lá Foggy Nelson, Ben Urich, Viúva Negra e até Mary Tiphoyd. Como novidades temos Milla Donovan, o novo par romântico de Matt que é cega, assim, como ele (Bendis sempre gosta de colocar representatividade nos quadrinhos) e uma trama que lida, desde o início, com a identidade secreta do Demolidor tornada pública e as consequências disso na vida do herói e também na do advogado Matt Murdock. Milla é uma personagem bastante interessante e também é interessante ver como o fantasma de Karen Page assombra a relação dela com Matt (e qualquer relação, acho, que Matt viesse a ter).

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Matt Murdock, conheça Milla Donovan

Dando um passo além da revelação da identidade, Matt resolve tornar-se ele mesmo o Rei do Crime de Hell´s Kitchen, já que necessariamente alguém cumpriria esse papel. Por que um super-herói é sempre reativo e não faz as regras serem cumpridas rigidamente é uma pergunta que de vez em quando nos fazemos e que Bendis, pelo Demolidor, tenta responder nesse arco. As intervenções de Peter Parker, Luke Cage, Reed Richards e Stephen Strange, tentando chamar o Demolidor à razão, tornam a trama mais humana e mostram o tipo de interação entre os heróis que tornou Bendis um dos escritores mais interessantes dos dias de hoje.

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Alex Maleev é, para muitos (inclusive para mim), o desenhista definitivo do Demolidor

No arco “Decálogo”, Bendis narra as histórias através dos encontros de um grupo de ajuda que foi formado em Hell’s Kitchen para discutir a atuação do Demolidor. A discussão sobre o impacto do herói na vida das pessoas por esses pontos de vista diferentes faz com que o leitor se sinta parte da história, já que aquele ponto de vista, de observador, é o dele próprio. Após esse e outros arcos intimistas, Bendis fecha seu ciclo trazendo de volta o Rei do Crime como principal inimigo do Demolidor, mais perigoso do que nunca. E, é claro, não poderia faltar o confronto com o Mercenário.

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As capas de Demolidor: Decálogo

O trabalho de Bendis, durante esses anos todos, foi maravilhoso, é claro. Mas podemos dizer que boa parte do sucesso dele deve-se ao artista búlgaro Alex Maleev, que ilustrou as histórias. Seu traço, diferente do usual, casou com o estilo noir que Bendis deu ao seu Demolidor. As cenas de luta desenhadas por Maleev rendem páginas que poderiam ser emolduradas, sem que o desenhista deixe de conseguir dar a sutileza necessária para nuances de rosto em momentos diferentes das histórias. A sintonia entre escritor e desenhista é tão grande que temos algo raro nos quadrinhos mainstream: uma edição inteira muda, sem uma palavra sequer, onde só a arte de Maleev nos conduz (brilhantemente) pelo roteiro de Bendis.

Brian Michael Bendis foi sucedido pelo craque Ed Brubaker, que em sua parceria de longa data com Michael Lark estava acostumado a escrever histórias urbanas. Brubaker ficou no título entre 2005 e 2009 (e ganhou mais dois Eisner, fazendo com que o Demolidor ganhasse QUATRO prêmios em menos de dez anos). Brubaker mantém o estilo noir e amarra com cuidado as pontas deixadas soltas por Bendis. O roteiro dele, aliás, utiliza as mesmas estruturas narrativas do autor anterior, ao ponto que só percebemos que trata-se de coisa diferente em função da arte muito mais clara e definida de Lark em relação a Maleev (o que, para mim, é uma pena. Eu gosto muito de Maleev desenhando o Demolidor).

  1. Mark Waid e a virada necessária.

Mark Waid assumiu o título do Demolidor depois de Bendis e Brubaker. Se algo era difícil para um escritor, pensem em assumir um título que nos dez anos anteriores havia ganhado quatro prêmios Eisner (o Oscar dos quadrinhos), dois com Bendis e mais dois com Brubaker.  Waid matou a charada: sua abordagem do Demolidor foi completamente diferente. Se Bendis abraçou e aprofundou todo o cânone definido por Miller, podemos dizer que Waid foi no sentido oposto. Murdock e o Demolidor foram dissecados mentalmente e espiritualmente por Bendis e Maleev, então Waid resolveu escrever um bom gibi de herói. Num clima mais para cima e carregado nas cores (que muitas vezes ajudavam a experimentar a experiência sensorial do herói) Waid, volta a explorar o Demolidor super-herói. Ele enfrenta super-vilões e tem uma vida pessoal muito mais leve do que nos anos anteriores.

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O Demolidor de Waid tem outro tom

Apesar de completamente diferente das abordagens de Miller, Bendis e Brubaker, a pegada de Waid também funciona. Usando inimigos como Garra Sônica e o Mancha, o autor faz uma bonita homenagem aos quadrinhos mais clássicos de super-heróis e até mesmo à passagem de Stan Lee e Bill Everet pelo título. Adivinhem? Waid (como Bendis e Brubaker) levou um Eisner pela série, também.

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A arte do Demolidor de Waid é primorosa na exploração do radar
  1. Biblioteca Básica

Se você pretende começar a ler o Demolidor, está com sorte. A Panini, editora responsável pela Marvel (e pela DC) no Brasil tem MUITO material disponível. Foi lançado recentemente o volume 3 do Demolidor de Frank Miller e Klaus Janson, que congrega a passagem completa dos autores pelo título. Cada um dos 3 volumes custa cerca de R$90, mas é possível encontra-los frequentemente em sites das grandes livrarias por cerca de R$40. Eles estão publicados em capa dura, nas cores preta e vermelha, bem bacana. O arco “A Queda de Murdock”, de Miller e Mazzucchelli, foi publicado recentemente pela Salvat na coleção oficial de Graphic Novels da Marvel. Ainda é encontrada em algumas livrarias, por cerca de R$30. A fase de Bendis está sendo publicada em encadernados caprichados pela Panini na coleção Marvel Deluxe. O primeiro volume é “Demolidor: Revelado” e o segundo é “Demolidor: O Rei da Cozinha do Inferno”. Todos esses volumes valem muito a pena. Boa leitura, pessoal!

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