Demolidor: de Stan Lee a Frank Miller (parte 1)

Em 2015 a Netflix iniciou uma parceria com a Marvel, com o compromisso de produzir séries utilizando os personagens da editora. Diferente da concorrente DC Comics, que pertence à Warner Brothers, a Marvel não tem um conglomerado de mídia inteiro por trás e portanto algumas de suas mídias são passadas adiante. Foi o caso das séries de TV. O personagem escolhido para inaugurar essas séries foi o Demolidor, o advogado cego de Hell´s Kitchen. Fazia sentido. O Demolidor vinha de um horrendo filme de 2005, estrelado por Ben Affleck e era um personagem “queimado” em função disso. Se desse errado, o que poderia acontecer? Pois não deu. Deu certo, e MUITO certo. A série do Demolidor vai muito bem, obrigado, para a sua terceira temporada. O sucesso de Murdock, Foggy, Karen Page, Elektra e cia pavimentou caminho para que viessem Jessica Jones, Luke Cage, O Punho de Ferro e todo um universo Marvel/Netflix de heróis urbanos (que mantem ALGUM grau de ligação com o Universo Cinematográfico Marvel, inclusive. Uma das tramas da primeira temporada de Demolidor é a reconstrução de boa parte de Nova Iorque destruída no primeiro filme dos Vingadores).

A ideia, hoje, é falar um pouco mais sobre o personagem de quadrinhos Demolidor e colocar algumas sugestões de leitura para quem se interessou, a partir da série ou não, por conhecer mais sobre o “Homem Sem Medo”, como ele também é chamado.

  1. A Origem

Stan “The Man” Lee é o maior criador de personagens da história dos quadrinhos. Num período incrível de dois anos, entre 1961 e 1963, Lee criou o Quarteto Fantástico, o Hulk, o Thor, o Homem Aranha, os X-Men, o Doutor Estranho e o Homem de Ferro. A sacada de Stan Lee foi humanizar seus personagens, tornando-os mais próximos de seus leitores. O Quarteto é uma família, com todas as questões que envolvem as famílias tradicionais (além dos problemas do Coisa e da personalidade do Tocha Humana, com os quais os adolescentes se identificavam). Os X-Men eram uma metáfora para falar das questões raciais e do preconceito nos EUA. O Hulk era um herói que era um monstro irracional. Thor tinha que alternar sua presença com a figura frágil de Donald Blake. O Homem de Ferro tinha o problema no coração e o alcoolismo. A maior criação de Lee, o Homem-Aranha, era o próprio adolescente da época. Inseguro, morador do subúrbio, azarado com as garotas e com problemas para pagar o aluguel.  Stan Lee, naquele biênio, mudou os quadrinhos para sempre. Todo criador de quadrinhos, dali para frente, pensaria suas obras de maneira diferente.

Em 1964 Lee queria criar algo ainda mais diferente, o que era um desafio e tanto. Em parceria com o desenhista Bill Everett criaram o Demolidor (em inglês, Daredevil. Veja de quantas traduções infames escapamos, não?). Já na capa do primeiro número havia a pergunta: “Você adivinha o por quê de o Demolidor ser diferente?”. A grande diferença, dessa vez, era a deficiência física: o Demolidor era cego. Quando garoto Matt Murdock envolveu-se num acidente e acabou exposto a um isótopo radioativo que lhe tirou a visão. O mesmo acidente, no entanto, amplificou seus outros sentidos e lhe dotou de um sentido de localização equivalente a um radar.

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Capa de Daredevil #1, de Stan Lee e Bill Everet

O Demolidor teve um sucesso relativamente discreto nos seus primeiros anos. Nunca foi um dos destaques da editora, mas também nunca teve sua revista ameaçada de cancelamento. As histórias da fase escrita por Lee são muito simples. Funcionavam na época, mas hoje não tem mais do que o valor histórico. Beiram ao infantil e colocam o Demolidor enfrentando o mesmo tipo de ameaças genéricas de supervilões que enfrentavam os outros heróis da Marvel. A vida de Matt Murdock como advogado dava aos roteiristas a oportunidade de contar histórias um pouco diferentes. O próprio Lee gosta de dizer que a história do Demolidor da qual ele mais se orgulha é uma na qual Murdock assume a defesa de um veterano do Vietnã cego que estava sendo falsamente incriminado. Além de Lee outros roteiristas importantes escreveram o Demolidor nos anos 60 e 70, como Gerry Conway, Marv Wolfman e Jim Shooter.

  1. Frank Miller e a Reinvenção do Demolidor

O Demolidor, como nós o conhecemos, começa a ser criado no final dos anos 1970. Em 1979 Roger McKenzie era o roteirista do título quando um jovem promissor de 22 anos assumiu como desenhista. O menino se chamava Frank Miller. Miller desenhava as histórias de McKenzie mas frequentemente se queixava da qualidade dos roteiros do veterano, o que levou o editor da Marvel Denny O´Neil a tomar a arrojada decisão de demitir McKenzie e entregar os roteiros também para aquele jovem impertinente. Frank Miller reinventou o personagem, modificando inclusive questões que eram fechadas na cronologia do personagem. A relação de Murdock com o pai tornou-se muito mais tumultuada e antigos personagens como o repórter Bem Urich ou o Mercenário foram quase que reintroduzidos, de certa forma ignorando todo o bakcground que já tinham com o Demolidor.

Miller foi, aos poucos, abandonando o cânone tradicional dos heróis e tornou o demolidor um herói urban. Ele estabeleceu as gangues de rua, o tráfico de drogas e os bandidos mais “pé-no-chão” como os inimigos naturais do Demolidor. Um antigo inimigo do Homem-Aranha, Wilson “Rei do Crime” Fisk, foi completamente repaginado e se tornou o arqui-inimigo do Demolidor, a mão que coordenava todo o crime organizado pelas ruas de Nova Iorque.

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As acrobacias do Demolidor enfrentando o Doutor Octopus no traço de Frank Miller

Conforme Miller ficava mais a vontade escrevendo e desenhando o Demolidor, as histórias foram ficando ainda melhores. O estilo de desenho de Miller, as vezes quase cinematográfico e retratando os movimentos em detalhes, ajudava a realçar o Demolidor como um acrobata e também como um exímio artista marcial. Miller tem uma longa paixão por filosofias orientais e artes marciais, o que o fez transformar o demolidor de um brigador de rua em um ninja quase completo.

Durante toda essa época Miller ficou cada vez mais envolvido escrevendo os roteiros e desenhando as histórias que começou a perder prazos. A Marvel então contratou o desenhista Klaus Janson para ajudá-lo. Miller passou a desenhar cada vez menos, fazendo quase que apenas um rascunho que era desenhado e colorido por Janson, artista competente cujo traço casa muito bem com as ideias de Frank. A parceria entre os dois foi longa e frutífera. Janson num primeiro momento era apenas arte-finalista, mas hoje é creditado juntamente com Miller como o artista responsável por aqueles números.

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O Demolidor enfrenta o aliado/inimigo recorrente, o Justiceiro

O herói passou a ter também todo uma ligação com o oriente. Miller criou Stick, o sensei que treinou o Demolidor e que ajudou-o a lidar com a cacofonia dos sentidos ampliados. O clã de ninjas assassinos japoneses Tentáculo, inimigo antigo de Stick, também foi criado e introduzido por Miller nas histórias do Demolidor. O próprio Demolidor, nessa abordagem de Miller, tornou-se praticamente um ninja.

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O Demolidor enfrenta Elektra

De todas as criações de Miller na sua passagem pelo título, nenhuma foi mais marcante do que Elektra, a ninja grega, antiga namorada de escola de Matt Murdock que volta à cena em função de problemas envolvendo Stick e o Tentáculo. Elektra era uma personagem ambivalente, não uma heroína. Suas ações, ora assassina egoísta, ora altruísta, acabavam exercendo nos leitores o mesmo poder de atração e sedução que exerciam em Murdock.

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Assim como criou Elektra, Miller não teve dó nem piedade de matá-la. A trama costurou a aproximação de Elektra com o próprio Demolidor e com o Rei do Crime, que queria contratá-la como assassina. Elektra acabaou morrendo nas mãos do Mercenário, reimaginado quase como um “anti-Demolidor”, numa das cenas de morte mais chocantes da história dos quadrinhos. As batalhas envolvendo o Demolidor, o Mercenário e Elektra, com a arte de Miller, tornavam-se quase um ballet. Quadrinhos no seu melhor.

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Mercenário, até então vilão de segunda linha, e a dramática morte da ninja grega

Pouco tempo depois disso Miller deixou o título para fazer história revitalizando o Batman pela DC Comics (mas isso é outra história). O surpreendente foi Miller ter topado o desafio e voltado, doze anos depois, a escrever o Demolidor. O arco “A Queda de Murdock” (Born Again, numa tradução meio inexplicável) talvez seja o melhor de Miller escrevendo o Demolidor. Uma antiga namorada de Matt, Karen Page, tornou-se uma viciada em drogas que vende a identidade secreta do herói por uma dose. A informação foi sendo repassada e revendida até chegar ao Rei do Crime, que elabora um sofisticado ataque que visa não só acabar com o Demolidor, mas destruir todos os aspectos da sua vida. A arte magistral de David Mazzucchelli torna o arco ainda mais impressionante. A partcipação dos Vingadores (Thor, Homem de Ferro e Capitão América) em “Armaggedon”, talvez a melhor história do arco, mostrados como semi-deuses enquanto o Demolidor seria “apenas” humano, embeleza ainda mais o quadro todo.

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A seguir: Brian Michael Bendis, Ed Brubaker, Mark Waid e o Demolidor contemporâneo.

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