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Da romantização da parede da sala

por Brunna Stock

“Agora a casa é minha e eu vou decorar como eu quiser” – Esta era a ideia pungente naquela decisão de pintar a parede da sala de laranja. Eu tinha certeza que eu e meu companheiro iríamos nos divertir horrores, que esse momento ficaria na memória como uma lembrança linda e feliz, que ele traria o sentimento de cumplicidade que vemos nestas cenas em filmes.

Foi um saco. Pra começar, decidir o tom de laranja foi um parto (e olha que só eu opinei nisso). A fatídica parede deve ter uns seis metros de comprimento e precisou ser pintada três – TRÊS – vezes, porque eu consegui escolher uma fucking tinta translúcida. Além disso, tive uma ideia genial de testar a cor fazendo desenhos engraçadinhos que só sairiam com uma quarta demão de tinta (e por isso, atrás da minha porta, dependendo da incidência de luz, você ainda pode ver uma caveira, um pi e um coração). Eu só conseguia pensar: o que aconteceu de errado que isso não foi tão legal quanto eu imaginava?

O que aconteceu, baby, se chama vida real. Os filmes nos fazem acreditar que pintar a parede da sua casa nova será lindo, que você e seu(sua) companheiro(a) irão rir e passar por esse momento com calma e alegria; que vocês vão brincar pintando o nariz um(a) do(a) outro(a) e começarão uma guerra na tinta que terminará com um sexo bem sujo e maravilhoso. A realidade (pelo menos a minha) é que essa tarefa não termina nunca, você se arrepende trezentas vezes de ter começado e deseja ter dinheiro para pagar alguém pra fazer isso. Cara, por que os filmes nos fazem acreditar nisso?

Porque eles romantizam toda e qualquer situação em que você está com ~o amor da sua vida~. Cria-se uma ideia de que todos os dias serão lindos com aquela pessoa, que tudo que vocês farão juntos será incrível e terá mais graça do que se você estivesse sozinho, que você verá um mundo de cores onde tudo, antes, era cinza e triste. Não quer compartilhar tudo com essa pessoa? Ah não, tem algo errado. Então ela não é ~o amor da sua vida~.

Na verdade, a ideia em si de ~o amor da sua vida~ já me incomoda pacas. Pra começar, por que “o”? Quem disse que esse amor tem que ser único? Segundo, o que é o amor (baby don’t hurt me… no more)? Como saber se aquilo que você sente pela pessoa é paixão, amor, tesão, desejo, projeção Freudiana ou sei lá o quê? Terceiro, por que “da sua vida”? Tem que ser pra vida inteira? Ai, que saco! Eu não sou a mesma pessoa a vida inteira, como posso esperar que alguém ame as diversas versões minhas que estão por vir? Nem eu sei se vou amar todas elas! Aí a Disney nos ensina que temos que encontrar essa pessoa – pior, temos que esperar ela chegar em seu cavalo branco para nos livrar da bruxa má. Taca-lhe mais romantização que ainda tá pouco.

Essa romantização só complica as coisas. Criamos expectativas em pessoas esperando que elas também criem em nós essas mesmas expectativas, confluindo na reprodução de um momento e de uma relação estipulada por alguém que nem, ao menos, nos conhece. Menos projeção, mais realidade. Olha só: se pintar a parede com seu amor foi legal, ótimo! Mas não tem nada de errado se foi chato. O seu relacionamento não é pior que os outros se vocês não trazem café na cama aos domingos; o seu pedido de casamento não é menos válido se ele não foi feito com uma banda e uma flor para cada dia em que vocês estão juntxs. Você não é uma pessoa ruim se não faz tudo com seu amor – inclusive, acho essa individualidade extremamente saudável.

“Nossa, cê odeia romance mesmo”. Nã nã nã. Eu adoro um romance – ô se goxto! Mas o meu romance, de um jeito só meu com a outra pessoa. Sem diretor, sem produtor, sem arte finalista, sem música de fundo (essa só na minha cabeça). Nesse romance, eu e a pessoa rimos juntas, nos divertimos, amamos muito. Mas a gente também se enche o saco uma da outra, se desentende, se entende de novo, se modifica. A diferença é que essa relação não tá num script, ela se constrói – e nisso está o belo, o frio na barriga e a delícia de se sentir em uma cena de um filme só nosso.

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