Café Society

por Pedro Cunha

cafesociety01

Café Society (Cafe Society, Woody Allen, 2016)

Todo mundo sabe que todo ano vai ter o “filme novo” do Woody Allen. E ninguém erra essa previsão. O realizador nova-iorquino é extremamente metódico em seu trabalho e pouco se importa com a repercussão dos seus filmes, começando a trabalhar no filme seguinte assim que termina o atual. Segundo o próprio, em entrevistas citadas no livro “Conversas com Woody Allen”, fazer isso é uma forma de livrar-se das expectativas e frustrações que costumam vir junto com o acompanhamento do desempenho do filme. Começar a trabalhar impede Allen de ler as críticas ou acompanhar o caixa do filme que acaba de entrar em cartaz. Nas palavras do próprio diretor, no momento em que ele finaliza um longa ele perde completamente o interesse no mesmo.

cafesociety02

Todo esse método e indiferença ajudam a explicar os motivos para, de quando em quando, termos um trabalho mais preguiçoso do diretor. Allen já tem 81 anos e continua extremamente profícuo. Na última década conseguiu mais acertos (“Tudo Pode Dar Certo”, “Meia-Noite em Paris”, “Blue Jasmine”) do que erros (“Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos”, “Para Roma Com Amor”) e mesmo quando erra ainda consegue, pelo menos, nos brindar com um domínio absurdo da técnica cinematográfica que talvez só a segurança de já ter dirigido mais de QUARENTA longa-metragens possa dar a alguém.

“Café Society” (2016) encaixa-se mais, infelizmente, no grupo dos erros do que dos acertos. O roteiro, em especial, já nos cinco primeiros minutos dá a impressão de que a história vai trazer todos os clichês de romances (e traz). Por mais que a história seja ponteada de piadas interessantes, a impressão é de que já as vimos, já que a temática de várias delas já foi (profundamente) explorada pelo roteirista e diretor. Estão lá as piadas com a mãe, com a religião, com a própria existência em si e tudo mais. Allen já fez roteiros com reviravoltas, mas em “Café Society” elas são todas previsíveis. Há toda uma trama envolvendo o irmão do protagonismo e a máfia que cria uma expectativa durante todo o filme de quando se tornará importante na narrativa, sem que isso acabe ocorrendo. Pablo Vilaça, diz em sua crítica, e eu concordo, que a impressão que fica é que Allen só colocou essa subtrama para lidar novamente com a temática da máfia dos anos 30, que ele tanto gosta.

Allen não costuma ter problemas de casting, uma vez que seu prestígio faz com que os grandes nomes de Hollywood adorem trabalhar com ele. É uma troca: ele empresta para eles o prestígio de estar em um filme “de arte” enquanto eles retribuem com sobrenomes que ajudam a chamar público no cartaz. Para esse longa o diretor escolheu um par de jovens atores que já chamaram a atenção do público. Jesse Eisenberg já havia trabalhado com ele em “Para Roma, Com Amor” e mais ou menos repete o papel: é o jovem meio inocente/inexperiente que se aventura numa cidade grande diferente da sua (Los Angeles, no caso). Allen fez de Eisenberg o seu personagem, colocando nele diversas características que já conhecemos dos próprios personagens de Allen em outros filmes. O diretor conseguiu dar uma segurada nos maneirismos e na ligeireza de Eisenberg, o que faz com o que o menino tenha uma atuação bacana, por mais que não consiga convencer muito quando assume o papel de maître dos mafiosos. Kristen Stewart continua a sua saga de tentar se livrar da marca “Crepúsculo” fazendo filmes mais artísticos, e trabalhar com Allen com certeza pode ajuda-la nesse sentido. Ganhou de presente do diretor uma personagem que tem profundidade, inteligência e cultura (características que o roteiro mostra até de forma repetida), além de ser sempre mostrada como muito bela, com ajuda de foco e iluminação. Mais uma vez a menina mostra que tem talento, apesar do roteiro não ajuda-los. Não dá para torcer pelo casal. A química meio que não está lá. E também não dá para torcer por causa do terceiro vértice do triângulo, o tio do personagem de Eissemberg, vivido por Steve Carell. O comediante está tão bem e tão convincente no papel (que também tem muitos dos trejeitos dos personagens de Allen) que acaba atraindo a nossa simpatia e nos pegamos torcendo por ele.

cafesociety03e04
Stewart e os dilemas de sua personagem: Eisenberg ou Carell? 

Se o roteiro é preguiçoso, a parte técnica do filme é um desbunde. Santo Loquasto, velho parceiro de Allen, assina o design de produção e a reconstituição de época é impecável e muito linda. Seu trabalho em conjunto com a fotografia de outro veterano, Vittorio Storaro (“O Último Tango em Paris”, “Apocalipse Now!”, “O Feitiço de Áquila”, “O Último Imperador”…) ajudam a criar um clima perfeito na reconstrução dos anos 30. Os jogos de luzes que marcam a diferença entre a primeira parte do filme (que se passa em Los Angeles) e a segunda (que se passa em Nova Iorque) marcam bem a diferença entre as duas cidades e principalmente as impressões do jovem que vê em Los Angeles a cidade do glamour, da agitação e do cinema enquanto tem em Nova Iorque uma velha conhecida. Os planos de Nova Iorque, aliás, mostram que por mais que viagem, Allen se sente mais a vontade em Manhattan do que em qualquer outro lugar do universo. Ele consegue nos deleitar com planos belíssimos que expõem uma Nova Iorque que foge dos clichês óbvios sem deixar de ser, notadamente, Nova Iorque.

cafesociety05
Storaro desenha Kristen Stewart com a luz, realçando a sua beleza e construindo a mesma atmosfera que envolvia as divas da antiga Hollywood 

“Café Society” não vai ser lembrado como uma das maiores ou mais importantes obras de Woody Allen. Pelo contrário, vai estar geralmente de fora das retrospectivas e mostras sobre a obra do cineasta, provavelmente. O que não faz com que deixe de ser, no fim das contas, um filme divertido, com boas atuações e uma construção estética absurdamente linda. Mostra também um diretor maduro com pleno domínio da arte cinematográfica. Um domínio tão grande, talvez, que faz com que por vezes pareça preguiçoso ou desleixado.

Um comentário sobre “Café Society

  1. Pedro! Concordo contigo que não seja dos melhores dele, mas foi justamente por ter ele repetido a fórmula de vários outros é que gostei, me senti confortável, totalmente imersa na “Woodieallenland”, hehe!!
    Teu texto tá ótimo, como sempre! Baita análise!
    Bjs

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s