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Gene Wilder (1933 – 2016)

por Pedro Cunha

O cinema ficou mais sério essa semana. Num ano que tem sido particularmente severo com os fãs da sétima arte, ficamos sem Gene Wilder no último dia 29. Gene Wilder nasceu em 1933 em Milwaukee. Depois de alguns trabalhos para a televisão, Wilder estourou aos 34 anos, em “Primavera Para Hitler” (The Producers, Mel Brooks, 1967), uma comédia musical escrachada que ridicularizava o nazismo em uma época em que falar sobre o assunto era muito mais polêmico do que hoje. Wilder faz um produtor que tem a ideia genial de ganhar dinheiro fazendo uma peça fracassar. O assunto escolhido não poderia ser melhor: um musical sobre Hitler. Wilder foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel, e a partir dai tornou-se um dos bons atores de comédia de Hollywood. Sem jeito de galã, seus olhos claros e cabelos encaracolados marcaram os risos de uma geração. O humor de Wilder não era a comédia escrachada, mas um humor humano que nos fazia rir com ele.  E até por isso o ator talentoso que ele era, apesar de sempre ser referenciado pela comédia, também encantou e comoveu em outros momentos. Gene Wilder será sempre lembrado como um dos grandes da comédia, mas era muito mais que isso. Aqueles olhos azuis, no meio dos momentos mais engraçados, ainda assim nos comoviam porque passavam humanidade e um bocado de tristeza também.

Minha homenagem fica na forma de indicações. Cinco indicações para você conhecer, relembrar ou celebrar Gene Wilder:

1) O Jovem Frankenstein (Young Frankenstein, Mel Brooks, 1974)

Depois de “Os Produtores” Wilder desenvolveu uma longa e feliz parceria com o diretor de comédias Mel Brooks. Nesse filme, hoje um clássico cult, Brooks e Wilder revisitam a tradição do cinema de monstros de Hollywood em mais uma versão do clássico inspirado na obra de Mary Shelley. Todos os clichês do gênero estão lá: o ajudante corcunda, o castelo, a dama em apuros, a noite de tempestade… mas tudo retratado com o clássico humor nonsense de Brooks. Wilder vive uma versão histriônica e hilária do famoso médico obcecado por levar vida a um amontoado de partes de cadáveres.

2) O Pequeno Príncipe (The Little Prince, Stanley Donen, 1974)

Se é necessário comprovar a versatilidade de Wilder, eu recomendo a versão mais clássica do livro de Saint-Exupéry, o filme de Donen de 1974. Os olhos tristes de Wilder estão lá, como um dos personagens mais significativos da trama, a raposa. É ele que pronuncia a clássica frase preferida das mises: “Tu te tornas eternamente responsável por aqueles que cativas”. O filme é interessante pela opção de que os animais sejam representados por pessoas, diferentemente do que seria feito hoje, provavelmente. Acho difícil uma animação ou CGI que conseguisse a mesma expressividade no olhar que Gene Wilder passa para nós.

3) A Fantástica Fábrica de Chocolates (Willy Wonka & The Chocolate Factory, Mel Stuart, 1971)

Esqueça Johnny Depp. Esqueça o videoclipe autorreferente de Tim Burton. Esse filme é the real deal. Uma fábula moderna cheia de tristeza e centrada em um personagem, o Willy Wonka de Gene Wilder. Os trejeitos, a leveza ao se mexer e, mais uma vez, a tristeza no olhar criaram o personagem que Deep depois copiou (sem o mesmo brilho, eu diria). Em “A Fantástica Fábrica de Chocolates” ainda temos a oportunidade de ver Wilder cantando, já que o filme é um musical.

4) A Dama de Vermelho (The Woman in Red, Gene Wilder, 1984)

Nos anos 80, crianças, nós não tínhamos TV a cabo ou Netflix. Não tínhamos a opção de assistir filmes legendados e tínhamos uma oferta de filmes muito, muito menor do que a que existe hoje. “A Dama de Vermelho” foi um filme da Tela Quente, a sessão nobre de cinema da Globo nas noites de segunda-feira, depois da novela. Era o espaço destinado aos melhores dos melhores. “A Dama de Vermelho” foi daqueles filmes que passaram muitas vezes na Tela Quente e depois na Sessão da Tarde. Talvez por isso eu tenha ainda, a memória afetiva sobre esse filme de ele ser muito mais importante do que de fato ele é (se bem que alguma importância, na época, ele deve ter tido, já que “A Garota de Rosa-Shocking” foi um título claramente chupado de “A Dama de Vermelho”, para um filme adolescente que se chamava “Pretty in Pink” (Howard Deutch, 1986), enfim).

Wilder além de estrelar também dirigiu “A Dama de Vermelho”, onde ele interpreta um cara comum que fica completamente transtornado ao ver, por acaso, uma linda mulher se divertindo numa saída de ar do metrô, numa cena que lembra Marylin Monroe (E cá entre nós: era a Kelly “Weird Science” LeBrock, uma das maiores musas da década de 80… quem não ficaria?). A partir dai os caminhos dos dois começam a se cruzar, o que acaba deixando o personagem de Wilder transtornado, já que ele era casado. “A Dama de Vermelho” levou o Oscar de “Melhor Canção Original” com “I Just Called To Say I Love You”, de Stevie Wonder.
(Viajar por cenas desse filme é também lembrar como os anos 80 foram crueis com os cabelos femininos. Quando é que alguém achou que PERMANENTE era uma boa ideia, meus deuses???)

5) Cegos, Surdos e Loucos (See No Evil, Hear No Evil, Arthur Hiller, 1989)

Para mim é o filme mais marcante de Wilder. Lembram o que conversamos sobre a TV nos anos 80? Pois então, o SBT repetia os filmes AINDA MAIS do que a Globo, e esse era um deles. Dave, o personagem de Wilder, é cego. Wally (vivido por Richard Pryor) é surdo. Ambos são as únicas testemunhas de um assassinato, tendo o cego escutado e o surdo visto o que aconteceu. A polícia os despreza enquanto testemunhas, mas os assassinos não estão dispostos a correr riscos e decidem acabar com eles. A única saída para os dois é trabalhar juntos para solucionar o caso e prender os seus perseguidores, o que gera uma série de situações hilárias.

É interessante saber que Wilder recusou esse roteiro duas vezes e estava disposto a fazê-lo uma terceira, em função de um tratamento que ele considerava ofensivo aos cegos e aos surdos. Acabou aceitando um acordo no qual ele e Richard Pryor mexeram em todo o roteiro, sendo inclusive creditados por isso. Para uma geração de crianças/adolescentes do início dos anos 90, Dave, o surdo, acabaria sendo o personagem mais marcante de Gene Wilder. Vida longa a ele, eternizado na celuloide e em algumas de nossas memórias queridas!

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