Eu ainda uso iPod

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para a minha amiga Anni, que ama minhas crônicas desde 2003.

Eu ainda uso iPod. Tanto no carro, quanto na sala de espera de médicos e quando estou sozinha lendo ou escrevendo em cafés, como agora. No momento, estou ouvindo o meu disco preferido do Bowie, “The man who sold the world”. Eu gosto daquele barulhinho que o iPod faz quando a gente vai procurar as músicas. Todo mundo tem as músicas no celular, no computador, ou no YouTube, ou usa o Spotify. Eu prefiro meu iPod turbinado com as minhas bandas de rock clássico preferidas, “customizado” pelo meu filho.

Eu também ainda uso despertador. É digital, mas é um despertador. Não uso o celular pra isso. Eu gosto daquele barulho insano que te dá um susto às 5h30 da matina, e de ajustar o horário de acordar à moda antiga, segurando o botão do alarme com um dedo, e escolhendo os números e o “am” e “pm”, que eu costumava errar, mas agora não erro mais, já que isto seria uma vergonha para alguém que ensina inglês há quase quinze anos.

Eu igualmente ainda leio livros, “de papel”, mesmo. Amo aquele cheiro de livro novo, e curto muito também o de livros antigos, que me faz espirrar e lembrar que alguém já imaginou aquela história antes de mim. Eu escolho meus livros pelo título e pela primeira frase. Se a primeira frase não me cativar, pode esquecer. Só lamento, pois leio muito menos que antigamente, pois, confesso, tenho vício ridículo em redes sociais. O Facebook hoje em dia me irrita, mas continuo lá, porque aparentemente o ser humano sempre se atrai pelas loucuras que saem da cabeça dos indivíduos ao seu redor. As pessoas compartilham coisas estranhas, e eu acabo morrendo de rir. Outro dia, uma criatura que conheço compartilhou que estava em um lugar muuuito bizarro: estou rindo até agora…! O que leva alguém a dizer a todo momento para todo mundo o que está fazendo, e qual a sua localização, por mais íntima que seja a situação? Maaas, justo em razão do humor gratuito oferecido pela rede, e por algumas coisas interessantes que poucos amigos ainda compartilham sobre música, cinema, livros e cultura em geral, eu ainda me mantenho lá, satisfazendo meus mais íntimos desejos de “voyer” cibernética. Enquanto não inventarem uns adesivos que ajudem teimosos como eu a parar de usar redes sociais, nos mesmos moldes daqueles para fumantes, acho que sigo usando o Facebook e o Instagram. Mas eu gosto do Instagram: lá, pelo menos, ninguém se preocupa em fingir que é sempre ultra mega feliz, autoconfiante, lindo e bem resolvido; ou que é especialista em ciência política, economia, relações internacionais, ecologia ou psicologia.

Eu também ainda amo escrever crônicas, e fazia um tempão que não as escrevia. Estava numa fase poemas. Esta semana eu fui tomar um café com uma das minhas amigas mais queridas e antigas em Sampa. Ela sempre foi uma leitora fiel, e amava minhas crônicas. E então ela começou a me contar várias histórias legais, como sempre. Teve uma, porém, que era triste: uma amiga dela foi bloqueada no Facebook por um primo, em razão de divergências políticas. “Por um primo?”, eu perguntei. Sim, era o primo. Eu nem achei inacreditável, nada disso. Está todo mundo meio louco ultimamente. Mas terminar um relacionamento via rede social com um parente querido só porque ele tem ideias diferentes das suas é um pouco patológico. Não vou aqui dizer o óbvio (mas já estou dizendo), “ah, as redes sociais propiciaram a todos nós fazer terapia em grupo; vomitar ali todas as nossas vontades, frustrações etc etc etc”. Eu só quero contar a vocês, leitores queridos, o que sobre esse fato disse minha amiga, que, aliás, tem convicções políticas diferentes das minhas. Ela falou, com aquele jeitinho doce, meigo e calmo que lhe é peculiar, “Clarice, eu nunca deixaria de gostar de você ou de ninguém que amo em razão deste tipo de coisa, e sabe por quê? Porque conheço a sua essência. Tanto faz se você escolhe tal ou tal partido. Tanto faz se você acredita em Deus ou não. Tanto faz se você torce para X ou Y. Tanto faz se você gosta de homens ou mulheres. Não é importa se você é feminista, marxista, agnóstica, heterossexual, gosta de filmes estrangeiros, poetas da geração beat e rock clássico. Se você acredita em tudo aquilo, é porque tem sentido dentro de suas crenças e convicções. Se faz você feliz, é parte de você”. Bravo, guria!

Vocês se deram conta disso, leitores? Perceberam que estamos, muitas vezes, neste momento delicadíssimo do país (e também do mundo), esquecendo dos motivos pelos quais começamos a gostar dos que nos cercam? Parece que só o que importa agora é a briga acirrada, as supostas “convicções” políticas, religiosas, ideológicas, sexuais? Onde está o interesse pela essência? Pela capacidade do seu amigo ou familiar de ser agradável, interessante, amoroso, simpático, inteligente, argumentativo, engraçado, animado, prestativo, companheiro? Lembro que ao final das últimas eleições, postei no FB uma espécie de poeminha (que não sei onde guardei, infelizmente…), que falava da saudades que eu tinha da inocência do Facebook. Do “Facebook criança”, cheio de músicas, fotos de viagens, vídeos leves e engraçados, bons poemas e textos, sugestões de filmes e tal. O Facebook foi se tornando um adolescente meio rebelde e teimoso, virou um adulto amargurado, recalcado e vingativo; e tenho agora a nítida sensação que está se tornando aos poucos um ancião meio senil, que fala o que lhe vem à mente, sem muito pensar, por vezes mesmo sem ter consciência alguma do que diz: brigando, gritando, xingando quem lhe aparecer na frente, desrespeitando a esquerda, o centro e a direita, perdido entre inúmeras informações sem sentido que lhe jogam na frente diariamente, sem mais saber em quem confiar ou em quem acreditar. Porém, a diferença entre o indivíduo velhinho senil e o Facebook, formado teoricamente por seres conscientes e mentalmente saudáveis, é que o velhinho senil de fato já perdeu a noção do que faz, e não quer ferir ninguém que ama de propósito. Já nós, os “seres pensantes”, sabemos exatamente o que estamos fazendo quando muitas vezes lá jogamos nossas frustrações, pois estamos (ao menos é o que se espera…) em pleno domínio de nossas faculdades mentais! Por que, então? O que está acontecendo conosco?

Ainda não tenho a resposta, infelizmente. Talvez nunca tenha. Talvez nunca tenhamos. Só sei que é extremamente difícil educar crianças e adolescentes em nossos dias, em meio a este clima de intolerância e ódio. Bom, nos meus momentos mais difíceis de reflexão, a partir de agora lembrarei sempre da fala da minha querida amiga: tentativa constante de resgate da essência é a chave para esta crise de valores da humanidade. Não só das essências das pessoas a quem amo e admiro, mas também da minha própria: usando ipod, despertador, e lendo livros “de papel”. E sendo muito feliz com isso tudo.

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