Entrevista: O paraíso particular de Daniel Plentz

por Cassiano Rodka

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Com mais de 45 shows marcados, a banda brasileira Selton está em turnê pela Europa divulgando o seu mais recente disco, “Loreto Paradiso”. Residindo na Itália há quase dez anos, o grupo desenvolveu um som muito próprio a partir das mais diversas experiências musicais e pessoais de cada integrante. Entre uma apresentação e outra, eu troquei uma ideia com o baterista Daniel Plentz sobre ilhas flutuantes, beats eletrônicos e, é claro, macumba!

Em contraponto ao álbum anterior, que refletia muito sobre o sentimento de saudade, o novo disco parece mostrar a banda em paz com a vida nômade: morar na Itália, visitar o Brasil com frequência, fazer turnê pela Europa, etc. É o que vocês sentem atualmente? Houve uma consciência em relação a explorar esse tema nas músicas?

Eu acho que é bem isso. O “Saudade” falava sobre a sensação de não pertencer a lugar nenhum e também sobre a gente se encontrar enquanto banda. Nossa casa não é na Itália, no Brasil ou em qualquer outro lugar. É quando estamos os quatro juntos. A frase “saudade, o meu remédio é cantar” é a síntese do disco anterior. Já o “Loreto Paradiso” é sobre aceitar essa condição como identidade, é um processo de amadurecimento dessa ideia. Até porque o bairro de Loreto, onde a gente mora em Milão, não é um paraíso. Em São Paulo, seria como morar no Santa Cecília, perto do Minhocão. Em Porto Alegre, seria… Com certeza não seria a Padre Chagas… (risos)

Então conta pra gente um pouco sobre como é o bairro de Loreto e o quanto ele foi importante para vocês criarem o seu próprio paraíso e construírem esse disco.

O paraíso de Loreto, para a gente, é um lugar mental, mais do que um lugar físico. Surge da capacidade que temos de transformar o que vemos ao redor em um paraíso. É um ato de se responsabilizar pela própria vida. Não é um lugar perfeito, porém temos uma vida muito boa aqui. Encontramos nosso paraíso nas pequenas coisas, desde a banquinha do paquistanês que vende frutas do outro lado da rua, passando pela padaria aqui embaixo do prédio, até a piada que o porteiro faz quando a gente sai de casa. São essas pequenas coisas do dia a dia que acabam fazendo tu ficares em paz contigo mesmo, que te fazem ter reflexões diferentes sobre a tua vida. Tu não tens mais uma sensação de falta, mas sim de fazer parte de um todo.

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A capa do disco parece reunir elementos da personalidade da banda: uma tropicalidade misturada com um clima urbano, uma ilha em forma de cuia…

Engraçado, acho que não é para ser uma cuia. Pelo menos o Dudu [baixista da banda] nunca me falou que era, foi ele quem fez a capa. É para ser uma ilha flutuante mesmo. Nós quatro nos sentimos assim. Toda ilha parece que está isolada, mas, no fundo, está conectada com a terra, com o todo. Estamos sempre viajando, aparentemente sós, mas vamos criando ramos, que são nossas trajetórias individuais. É como se esses ramos fossem se extendendo e se tornando a nossa casa. Então tem prédio, cachoeira, lua, canudo espacial, que a gente não sabe o que é… É um mistério! (risos) Tem elemento desenhado à mão e coisa vetorial bem tosca, com gradiente…

Notei nesse álbum um pé no funk/soul e até algumas batidas de R ‘n’ B contemporâneo. Foi de fato uma referência? O que mais serviu como nova influência nas faixas de Loreto Paradiso?

Sim, foi um pouco para contrapor com a base “beatlesiana”, que é a raiz da banda. A gente procurou fazer as músicas mais sensuais. Menos cérebro e mais corpo. Para serem sentidas de um outro jeito. Quando a gente toca ao vivo, a gente já vê que as pessoas reagem com o corpo. Nós andávamos escutando muito o último álbum do D’Angelo [“Black Messiah”], que acabou sendo uma puta referência para o disco no sentido de estruturas alternativas, grooves, sobreposição de timbres… Foi super intencional a procura pelo respiro do groove.

O foco no groove fica evidente em especial na faixa “Don’t Play with Macumba”, onde dá para perceber uma forte influência do R ‘n’ B. A impressão que eu tenho é que vocês compuseram ela e depois despiram a música, deixando ela mais crua, basicamente só vozes, baterias e efeitos.

Exatamente. Só bem mais adiante na faixa é que entra uma guitarra, quase na metade da música. Ela começou como uma música lenta do Ramiro [vocalista e guitarrista], que se chamava “Break Your Heart”. A letra acabou influenciada pela história de uma ex-namorada minha que fez uma macumba para conseguir emprego. Ela tinha que enterrar um troço e depois tinha que desenterrar. Depois que ela enterrou, a macumba realmente deu certo. Mas ela esqueceu de desenterrar e tudo começou a dar errado. Isso ficou na minha cabeça e, uma vez, eu e o Ramiro começamos a fazer um repente de brincadeira com a frase “don’t play wth macumba”. Uns três ou quatro anos depois, quando ele estava compondo a “Break Your Heart”, ele lembrou dessa história, traduziu a música para o português e virou aquela mistureba de línguas: “You’re gonna break your heart in two, não tenho medo de vudu”. Ela nasceu apenas como voz e violão, depois adicionamos o beat. E, na época em que estávamos gravando o disco, o Ramiro estava se formando no conservatório de jazz. Ele andava estudando orquestração de vozes e acabou colocando isso na música, então resultou numa faixa com vocais anos 50 em cima de uma batida R ‘n’ B.

Falando especificamente sobre as baterias, há mais elementos eletrônicos nas músicas. Como foi pra ti trabalhar com esses elementos? E como tem sido reproduzir essas músicas ao vivo?

Eu já queria ter trabalhado com elementos eletrônicos há mais tempo, mas ainda não tinha formação para isso. No “Saudade”, eu já havia me aproximado desse mundo. Eu experimentei adicionar uns beats, mas não parece, pois está tudo escondido. Na hora de mixar, o produtor acabou aproximando o som de bateria com os beats eletrônicos, então está bem amalgamado. Nesse novo disco, a gente quis acentuar as nossas escolhas. Ou seja, se é para ter guitarra, é para ter uma puta guitarra com um timbre muito estranho. Se é para ter baixo, vai ser um key bass estourando. Se é para ter eletrônica, tem que ser na tua cara. A gente queria que o disco fosse esteticamente mais áspero, mais nítido. Eu amadureci o meu processo de produção de beats e programação eletrônica. Eu utilizei bastante o Maschine, da Native Instruments, no Loreto Paradiso. Virei noite compondo e aprendendo a usar.

É o que tu tens usado nos shows?

Não, porque o Maschine precisa de um laptop do lado e a gente não quer levar computador pro palco. É anacrônico da nossa parte, mas a gente não quer. Eu uso uma SPD-S, que é praticamente um computador dentro de uma drum machine, mas eu não quero usar laptop! (risos) Quando eu terminei os beats, eu mandei pro produtor e ele deu uma tunada na produção eletrônica. Então eu tive que samplear novamente os sons, exportar cada timbre, uns 10 stems diferentes de picotes que eu pus dentro da drum machine. Para cada música, eu criei um banco com os sons daquela música.

Caramba, que trabalheira!

Foi trabalhoso pra caralho! (risos) A gente não toca com base, com exceção de “Duty Free Romance”, que eu toco pandeiro. Nas outras músicas, eu disparo os samples na bateria eletrônica. Eu não queria uma base longa porque, se a banda sai do tempo, fica muito ruim de corrigir. Desse jeito é bem mais flexível, mas, em compensação, eu tenho que me concentrar para não entrar na hora errada ou dar um vazio…

Já aconteceu?

Já! (risos) É mais trabalhoso, mas o resultado fica bem melhor, mais orgânico.

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No que diferem os shows no Brasil dos realizados na Europa? Os setlists são diferentes?

São. A gente procura tocar mais músicas em português no Brasil e mais em italiano na Itália, e o inglês fica no meio disso tudo. O disco que saiu no Brasil não é igual ao que saiu na Itália, tanto em relação à ordem das músicas quanto às faixas. “Cemitério de Elefante” não tem na versão italiana, “Feliz Ano Velho” foi lançada como “Buoni Propositi” e “Duty Free Romance” é “Settembre”. São pequenas diferenças.

É o caso de “Voglia de Infinito” também, certo? Eu escutei essa música, achei tri boa e pensei “porra, essa não tem no meu disco”. (risos)

Exato, é o novo single na Itália. Gravamos o clipe dela em Paraty, no Rio. A gente gosta bastante dela, tem uma vibe boa. Ela nem ia entrar no disco. Essa música surgiu porque a gente ganhou um concurso da Converse chamado Rubber Tracks. A gente ganhou a gravação de uma música em um estúdio com produção do Hector Castillo, um cara que já trabalhou com Björk, Philip Glass, David Bowie. Foi muito legal trabalhar com ele. Isso aconteceu uns dois meses depois de terminadas as gravações do disco e ela acabou entrando de gaiato.

Pô, que legal! E como são as reações dos diversos públicos nos shows?

Eu acho que, no Brasil, as pessoas estão mais abertas a sentirem as músicas de forma corpórea. A cultura musical brasileira, de maneira geral, tem isso de escutar a música com o corpo, o que eu acho maravilhoso! Do centro da Itália para baixo, eu acho que isso também rola. Elas estão prestando atenção com os ouvidos, mas sentindo a música também. No norte da Itália, as pessoas são mais frias, elas assistem o show inteiro apenas te olhando e escutando. E não quer dizer que não estejam gostando, elas simplesmente reagem de outra maneira.

Sim. É comum esse pensamento de que as pessoas têm que estar dançando em um show para estarem se divertindo, mas às vezes elas estão prestando atenção e simplesmente curtindo de outra maneira.

Exato, é engraçado. São maneiras diferentes de curtir a música. E tem coisas curiosas. Por exemplo, a gente percebeu que, quanto mais as pessoas dançam, menos elas compram merchandising. (risos)

Ficam cansadas e querem ir embora para a casa! (risos)

Talvez! (risos) Quando termina o show e as pessoas estão sérias, vende tudo: camiseta, CD… Muito maluco! Então não dá para definir pelas reações se as pessoas estão curtindo mais ou menos. São maneiras diferentes de viver o show. É uma questão de prestar atenção com o corpo ou com a cabeça.

Focando na letra de “Junto Separado”, dá para se perceber uma intenção política que parece servir como uma trilha perfeita para o momento atual aqui no Brasil. Me soa como um chamado à união das pessoas versus uma crescente divisão baseada em ideias divergentes. Foi criada com isso em mente?

Na verdade, não foi. O que é uma pena, eu até gostaria que tivesse sido. Eu tenho acompanhado a situação política no Brasil, pois é um assunto que me interessa. Tem coisas da política daqui [da Itália] que são bem complicadas também. Mas ela foi escrita em 2006, há dez anos. Ela partiu de um momento em que eu estava separado da minha ex-namorada. Ela estava em Barcelona e eu, em Milão. Partiu de uma saudade romântica, mas se desenvolveu em um senso de comunidade. Uma ideia meio budista, de não matar um mosquito sequer, pois, de alguma forma, estamos todos conectados e isso seria matar um pouco de si mesmo. É esse senso de coletividade, de pensar nas coisas com menos foco no individual. Existe um isolamento cada vez maior das pessoas, uma dificuldade de compreender e aceitar o outro. Por que estamos tão separados se estamos no mesmo planeta? Buscando o bem coletivo, todo mundo vai viver melhor. E a última coisa que eu adicionei na letra foi uma questão mais pessoal minha, de uma época da minha vida em que eu me via sempre correndo, ligado à tecnologia, à falsa sensação de pertencer. É algo bem contemporâneo, acho que muita gente se vê nessa situação. Então ela parte de uma saudade romântica, evolui para uma reflexão sobre coletividade e termina em uma questão de tempos modernos.

Bom, nós começamos conversando sobre o último disco, então vamos terminar falando dos primeiros projetos. Sempre achei curioso que o primeiro disco que vocês gravaram, “Banana à Milanesa”, era composto por covers, algo que não é muito comum no início da carreira de uma banda. O que levou vocês a optarem por isso?

O primeiro disco era um projeto da gravadora, então era mais o que eles queriam da banda. A gente até queria que o disco se chamasse “Barlumen Records Apresenta Selton em Banana à Milanesa” para deixar bem claro que era um projeto mais deles do que nosso. Honestamente, a gente não considera ele o nosso primeiro álbum. A gente considera o “Saudade”, que é o primeiro que tem a nossa identidade musical. O “Banana à Milanesa” foi um exercício incrível, a gente aprendeu bastante. Mas nós já estávamos gravando a demo do “Selton” [segundo disco] e estávamos mais preocupados com aquele projeto. A gente estava recém chegando em Milão, então tivemos que traduzir as músicas do italiano para o português sem nem saber falar a língua direito ainda. Foi surreal! Então aquele disco é mais a cara do produtor. Claro que tem a personalidade musical de cada um de nós, mas não foi exatamente pensado como banda. Mas eu particularmente gosto dele. E tem coisas muito legais, tipo a música “Eu Vi Um Rei”, que foi escrita pelo Dario Fo, um músico italiano que ganhou o prêmio Nobel de Literatura [em1997]. Ele fez a letra e o Enzo Jannacci compôs a música.

Eu sempre achei que essa música tinha um lance teatral, ela me soa como se fosse a cena de uma peça.

Pois é, ela faz parte de um movimento de contracultura que rolou aqui em Milão nos anos 60 que eles chamam de cabaré e que realmente tinha uma ligação com o teatro. Em italiano, o título dela é “Ho Visto Un Re” e quem canta é uma dupla chamada Cochi & Renato, que são dois comediantes que trabalhavam com música. Então é quase um stand up comedy musical. Quando eles se apresentavam, eles cantavam e encenavam. Tinha uma mistura forte desses dois mundos.

Quero saber mais sobre o disco que vocês gravaram com o nome de Nelson. (risos) O que foi isso?

(risos) Cara, a Nelson é a demo que a gente vendia no Parc Güell quando a gente tocava lá. Ela foi gravada num estúdio de um ucraniano por 300 euros. São 10 músicas dos Beatles que a gente costumava tocar na rua. A gente lançou esse projeto novamente anos depois em um documentário chamado “We Are Not Selton, We Are Nelson!”. A gente se vestiu com outras roupas e fez um lançamento como se fosse outra banda, mas só porque a gente gosta de fazer essas coisas malucas. (risos)

Outro projeto que eu tenho curiosidade em saber como aconteceu é a apresentação na íntegra do clássico “Pet Sounds” do Beach Boys.

Nós fizemos dois shows a convite de uma produtora de Roma tocando o disco inteiro. Passamos dois meses ensaiando só as vozes. Eram seis pessoas cantando: nós quatro da banda e mais dois cantores. A gente formou uma equipe em Milão que ficou responsável por fazer os vocais, além de guitarra, baixo e bateria, e adicionamos ainda um percussionista clássico. Em Roma, tinha uma outra equipe focada só na instrumentação. Eram dois teclados, um vibrafone, uma viola, dois violinos e dois metais. Tem arranjos no “Pet Sounds” de nove vozes, foi uma mão de fazer! Mas ficou muito bacana!

Tá, me diz que vocês gravaram isso!

Cara, a gente não gravou nada disso! Mas tem no YouTube! (risos)

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