Os Quadrinhos no Cinema (Parte 1)

por Pedro Cunha

Em meados da década de 1990 as duas grandes editoras de heróis do mercado de quadrinhos norte-americano, a Marvel e a DC, estavam quebradas. Decisões editoriais ruins e negócios péssimos fizeram com que ambas as gigantes estivessem muito perto de fechar. A Marvel, de fato, chegou a encarar um processo de recuperação judicial, o que não ocorreu com a DC porque a editora foi comprada pelo grupo Time-Warner. A salvação da Marvel se deu através da venda de bonequinhos (ou action figures, como chamam hoje em dia) e da capitalização de alguns dos seus principais ativos. Ou seja: a Marvel VENDEU aquilo que ela possuía que ainda tinha algum valor. No caso, as principais vendas da Marvel foram os direitos cinematográficos sobre os seus mais lucrativos personagens naquele momento. O Homem-Aranha foi cedido à Sony enquanto os X-Men e o Quarteto Fantástico foram vendidos para a Fox.

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Em 2005, pela Fox, o Capitão América era o Tocha Humana 

O sucesso dessas franquias de cinema, assim como o bem sucedido retorno do Batman às telonas pelas mãos de Christopher Nolan em 2005 fez com que a “Casa das Ideias”, como a Marvel é conhecida nos EUA, começasse a pensar numa estratégia de longo prazo para o cinema. O problema? Não poder contar com seus principais personagens, vendidos na década anterior para Fox e Sony. O que a Marvel fez? Desenvolveu uma estratégia de longo prazo que modificou inclusive aquele que era, então, o principal produto dela, os quadrinhos: tornou outros personagens os seus principais. Quando Brian Michael Bendis assumiu os roteiros dos Vingadores em 2005 a equipe, sempre chamada de “os heróis mais poderosos da Terra”, estava longe de ter na vida prática da editora a importância que deveriam ter. Bendis recebeu carta branca, desfez a equipe e a construiu novamente. Na sua primeira história pelos Vingadores matou três integrantes e fez a equipe debandar. Para, é claro, em seguida, reorganizar a equipe. O Homem de Ferro, um personagem de segundo (ou até terceiro) escalão da editora, era alçado ao primeiro plano, assim como o Capitão América recebia uma roupagem muito mais moderna e interessante tanto pelas mãos de Ed Brubaker, na sua revista mensal, quanto por Mark Millar, na versão do universo Ultimate, o universo alternativo da Marvel que foi a base para a criação do Universo Cinematográfico Marvel.

O sucesso de “Homem de Ferro” (Jon Favreau, 2008) norteou tudo dali para frente. O filme foi o primeiro de uma aventura ambiciosa: a Marvel teria o seu próprio estúdio para produzir os filmes sobre os seus próprios heróis. Tudo que veio depois só foi possível em função do grande sucesso do filme e em especial do renascimento de Robert Downey Jr, que parece ter nascido para ser o Homem de Ferro.

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Robert Downey Jr faz nascer o Unverso Cinematográfico Marvel (UCM) em “Homem de Ferro” 

Dali para a frente a Marvel passou a costurar filmes. Os filmes solo do Thor, do Hulk, do Capitão América e do Homem de Ferro reafirmavam o carisma dos personagens e preparavam terrenos para os grandes encontros, como o esperadíssimo “Os Vingadores” (The Avengers, Joss Whedon, 2012) e o nem tão elogiado “Os Vingadores 2: A Era de Ultron” (Avengers: Age of Ultron, Joss Whedon, 2015). O sucesso do universo cinematográfico coeso da Marvel foi tão grande que permitiu à Casa das Ideias algumas pequenas ousadias, como um filme solo do Homem Formiga (Ant Man, Peyton Reed, 2015) e um excelente longa dos Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, James Gunn, 2014).

A receita do sucesso da Marvel é simples: todos os filmes são leves, com uma pitada de humor (que sim, em alguns filmes é exagerada). Os heróis devem ser jovens e carismáticos (e por isso mesmo os que usam máscaras passam a maior parte dos filmes sem elas). Os coadjuvantes e vilões podem ser atores consagrados, como Jeff Bridges, Robert Redford, Michael Douglas, Samuel L. Jackson, Anthony Hopkins ou Sigourney Weaver, que ajudam a dar aos filmes alguma consistência. E, finalmente: os filmes devem ser feitos para quem nunca ouviu falar dos personagens, ao mesmo tempo em que devem respeitar e homenagear quem acompanha quadrinhos há décadas.

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Guardiões da Galáxia, uma das coisas bacanas que os Estúdios Marvel nos trouxeram 

Esse último elemento, é claro, é o mais complicado. Fazendo justiça, antes da Marvel quem entendeu isso foi Bryan Singer quando organizou a franquia dos X-Men no cinema, mas a Marvel absorveu a ideia e conseguiu ser generosa tanto em introduzir novos fãs quanto em seduzir os antigos. A ideia é fazer filmes com histórias auto-contidas, que não tragam a necessidade de ler 60 anos de quadrinhos. Ao mesmo tempo as características dos personagens são fieis às suas contrapartes dos quadrinhos, fazendo com que o fã antigo dê aquele sorrisinho no canto da boca quando vê determinados nomes, trejeitos, expressões ou gestos que ele esperava ver. A Marvel, enfim, entrega o que se espera dela. Quando você vai ao cinema ver um filme da Marvel já sabe o que vai encontrar, para o bem e para o mal.

Essa rápida análise sobre o sucesso do UCM nos permite entender um pouco do sucesso dele. Thor, Homem de Ferro e Capitão América tornaram-se personagens da cultura pop. O Gavião Arqueiro e a Viúva Negra são reconhecidos e se alguém disser “Eu sou Groot” na rua há uma chance muito grande de que outras pessoas entendam.

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Os Vingadores elevaram os parâmetros de quanto dinheiro se poderia ganhar com um blockbuster 

Entender o sucesso da Marvel nos ajuda a entender o que está pintando com o grande fracasso da DC. A DC teria todas as condições de repetir o sucesso da Marvel, já que tem um panorama muito mais amplo. Além de contar com toda a infraestrutura da Warner, que é um estúdio cinematográfico, a DC ainda pode utilizar todas as propriedades intelectuais. E convenhamos, as propriedades intelectuais da DC tem um peso até maior que as da Marvel. Estamos falando de Superman, Batman e Mulher Maravilha.

Então, por que não funciona?

O Universo Cinematográfico DC nasce depois do estrondoso sucesso da trilogia do Batman de Christopher Nolan. Os filmes de Nolan ressuscitaram o Cavaleiro das Trevas depois dos filmes kitsch de Joel Schummacher nos anos 1990. Um tom mais sombrio e sóbrio, beirando o realismo, foi a opção do diretor para retratar o universo do Cruzado Encapuzado. Um elenco cuidadosamente escalado misturou alguns cascudos tarimbados (Michael Caine, Gary Oldman, Morgan Freeman, Lian Neesom…) com talentosos novos atores (Christian Bale, Tom Hardy, Heath Ledger), com um resultado bastante consistente. Os filmes de Nolan conseguiram aquela feliz combinação de serem blockbusters de público e renda ao mesmo tempo em que colecionaram críticas bastante positivas (em especial o segundo, de 2008, nem tanto o terceiro, de 2012). Com a explosão do UCM a DC viu-se obrigada a responder (e a explorar o mesmo filão). Nolan foi escalado como produtor executivo do nascente Universo Cinematográfico DC, com a direção dos primeiros filmes sendo entregue a Zack Snyder, que havia obtido sucesso com adaptações de quadrinhos mais adultos da DC como “300 de Esparta” (300, 2006) e principalmente “Watchmen: o Filme” (Watchmen, 2009). Snyder estreou como diretor e produtor UCDC em “Homem de Aço” (Man of Steel, 2014). Snyder é um diretor da escola Robert Rodriguez/Tarantino de ultraviolência gráfica e é conhecido pelo seu uso quase caricato da câmera lenta ou acelerada. Snyder fez em “Homem de Aço” um filme de Snyder, mas é muito criticado por não ter feito propriamente um filme do Superman. O filme se sustenta bem nos dois primeiros atos, mas a pancadaria generalizada do ato final culminando com a morte do General Zod não causaram estragos apenas em Metrópolis: os fãs do Superman também se sentiram agredidos, já que uma das regras do personagem é que, apesar do seu enorme poder, o Superman não mata. Um dos elementos mais importantes da definição do personagem é esse: seu elevado código moral que diz que ele é um caipira do interior do Kansas criado por um casal de fazendeiros e não um alien ultrapoderoso que poderia conquistar a Terra com um espirro. Fazer o Superman matar não é como mudar os detalhes das botas ou o tom de azul do uniforme, algo que os fãs aceitariam tranquilamente. É redefinir o próprio personagem. O que os fãs alegam é que não é só a morte de Zod: são as milhares de mortes que ocorreram naquele momento em Metrópolis e que o Superman que nós conhecemos simplesmente teria dado um jeito de impedir. O Superman do filme parecia simplesmente não ligar.

Quando foi anunciado que o segundo filme do UCDC seria “Batman v Superman: A Origem da Justiça” (Batman v Superman: The Dawm of Justice, Zack Snyder, 2015), depois do frisson causado pelo anúncio do encontro das duas lendas em um único filme, veio a preocupação. A Marvel, antes de juntar seus heróis, teceu uma rede de vários filmes, firmando terreno para cada um deles. A DC juntaria um reboot do Batman (que vinha de uma série elogiadíssima) com um Superman não completamente afirmado. Durante a produção cada notícia era saudada com vaias ou aplausos pelos fãs: Jesse Eisenberg como Lex Luthor foi elogiado. Gal Gadot como Mulher Maravilha foi criticada. Bem Affleck como Batman foi trucidado. A cada trailer ou teaser revelado o barulho era grande.

O filme estreou no final de março. E o que eu achei dele? Você fica sabendo no próximo texto.

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A “Trindade” da DC, junta no cinema. 

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