Sob o sol

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imagem: Cassiano Rodka

por Marcella Marx

Eu vejo uma mulher. Ela está vestida com véus que lhe cobrem as pernas e se arrastam pelo chão de terra. A cada passo, a terra vermelha tinge a barra de seus véus, e vai ganhando mais tecido. Se ela fosse o sol, o vermelho da terra me diria que ela também está prestes a sumir no horizonte.
Sobre a cabeça, lhe pesa uma cesta com muito de uma só coisa. Ninguém precisa de muito de uma coisa só. Somente para si, muito de uma coisa pesa demasiado. Mas ainda assim, seu rosto a carrega em silêncio.
Meu olhar pousa sobre seus pés, que transbordam o chinelo e acariciam a terra com suas margens. Uma auréola negra delineia cada uma das unhas, e confere aos seus pés uma maturidade que eu nunca serei capaz de entender.
Seu suor nasce do couro, escorre pela testa, se demora um pouco no encontro com a sobrancelha (onde se junta a mais gotas), e, finalmente, derrama pelos lados e para dentro de seus olhos negros. Ela não reage. Eu sinto por ela o sal do suor ardendo em seus olhos (os olhos produzindo sua defesa). As lágrimas escorrendo pelo canto das bochechas, se misturando com o pó vermelho da terra e expulsando o que ali dentro não cabia mais.
A mulher cruza meu caminho uma vez, apenas. Mas eu a persigo desde então.

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