Carol

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por Pedro Cunha

Durante a minha graduação eu tive excelentes professores. Uma das mais queridas foi a professora Elizabeth Torresini. Além de trabalhar os conteúdos programáticos a professora “Bete”, como carinhosamente a chamávamos, tinha toda uma preocupação com a maneira como esses conteúdos poderiam ser trabalhados em sala de aula nos ensinos Médio e Fundamental. Um assunto que frequentemente era tratado por ela era a utilização de filmes em sala de aula. Os filmes em aula são sempre um recurso sedutor, mas há cuidados a se tomar. Lembrei de minha professora por causa de uma frase que ela repetiu algumas vezes: “Um filme histórico sempre diz muito sobre uma época: sobre a época na qual ele foi feito”. O que ela queria dizer com isso? Que “Spartacus” (Stanley Kubrick, 1960) e “Gladiador” (Gladiator, Ridley Scott, 2000) são filmes sobre Roma, mas as muitas diferenças entre os dois filmes falam muito sobre a Guerra Fria no final dos anos 1950 e sobre o final da “Pax Americana” dos anos 1990.

Por que me lembrei disso? Porque vi “Carol” (Todd Heynes, 2015). “Carol” é um filme que se passa nos anos 1950, mas que diz muito sobre a sociedade na qual vivemos e sobre discussões que são extremamente atuais. O roteiro parte de situações extremamente simples: Carol (Cate Blanchet), uma senhora da alta sociedade, conhece Therese (Rooney Mara) casualmente na loja onde esta é vendedora. Há uma atração nitidamente mútua entre as duas, mesmo que nada tenha sido dito. As luvas esquecidas por Carol são a desculpa para que Therese a procure, e a partir daí as duas iniciam um relacionamento que passa por amizade, cumplicidade, admiração, curiosidade e, finalmente, romance. Carol é uma mulher madura que depois de muito tempo descobriu o que não quer: não quer continuar casada e não quer exercer o papel de esposa. Não tem nenum problema em ser mãe e acha que esse papel não se condiciona ao de esposa, conseguindo separar perfeitamente as duas coisas. Já Therese é uma jovem que não sabe o que quer: ela se interessa por música, gosta de fotografia e tem um turbilhão dentro da própria cabeça, na dúvida se deveria ou não se resignar com as oportunidades que a vida e o namorado lhe apresentam de ter uma vida “normal”. É nos entremeios dessas dúvidas e certezas que essas duas mulheres se conhecem e acabam se envolvendo.

A vida de Carol e Therese poderia ser muito mais simples, mas nos anos 1950 as coisas não eram tão fáceis. Carol encontra-se saindo de um casamento, e isso pode ser qualquer coisa, menos simples. Ainda mais quando há (e há) uma criança envolvida. O (ex)marido de Carol, Harge (Kyle Chandler), não entende a situação, sente-se injustiçado e acha que tem direito ao casamento e à família, que seriam sua propriedade. Da mesma forma o namorado de Therese não entende as dúvidas e angústias dela e sente-se legitimamente injustiçado quando ela tenta largá-lo, já que ele teria conseguido um emprego e pago uma viagem para ela, o que a deixaria em débito com ele e na obrigação de cumprir o protocolo, casando-se com ele e dando a ele a família tradicional que ele gostaria de ter.

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Heynes conta sua história com a delicadeza que ela merece. Não há pressa no ritmo do filme, que toma o tempo necessário para que a trama se desenvolva. O trabalho do diretor tem um casamento extremamente feliz com as escolhas da fotografia do filme. Os tons escolhidos e a luminosidade optaram por reproduzir e homenagear fotógrafos e pintores conhecidos por retratarem a melancolia e a solidão nos Estados Unidos, notadamente Hopper. O andamento e a fotografia juntam-se a uma feliz escolha de trilha sonora e o conjunto é ao mesmo tempo elegante, bonito e triste, assim como a história que Heynes decidiu contar. O segundo ato, em especial, é lindo: é o momento em que o filme lembra outros road movies, tendo como paisagens as estradas, delis e moteis norte-americanos. Impossível não lembrar de “Thelma e Louise” (Thelma & Louise, Ridley Scott, 1991).

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“Carol” recebeu cinco indicações ao Oscar. Foi justamente indicado por Melhor Trilha Sonora e Melhor Figurino, numa reconstituição de época lindíssima e caprichada, do jeito que a Academia gosta. O filme também foi indicado a Melhor Roteiro Adaptado, já que o filme origina-se do livro “O Preço do Sal”, de Patricia Highsmith. Nas indicações de atuação, a produtora fez uma aposta mais segura e lançou as duas protagonistas do filme em categorias diferentes, com sucesso: Cate Blanchet foi indicada a Melhor Atriz e Rooney Mara recebeu a indicação para Melhor Atriz Coadjuvante. As atuações de ambas são sensacionais, mas Mara não é coadjuvante no filme. Por mais que o título do filme seja “Carol”, a personagem principal, sem dúvida, é Therese. Seria mais justo se as indicações estivessem invertidas ou se ambas as atrizes estivessem concorrendo na categoria de Melhor Atriz, mas a produtora optou pelo caminho mais seguro de lançar Blanchet, mais experiente e já ganhadora do Oscar (por “Blue Jasmine”) na categoria Melhor Atriz e Mara, jovem e novata, em Melhor Atriz Coadjuvante, para não dividirem os votos e para permitir inclusive o voto casado nas duas. Em termos de marketing, a estratégia mostrou-se exitosa, já que as duas alcançaram a indicação.

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Falando em indicações, temos de falar também das que não aconteceram. É um tanto incompreensível que um excelente e caprichado filme como “Carol”, com cinco indicações, não tenha logrado êxito nas duas principais categorias, Melhor Filme e Melhor Diretor. Fica menos compreensível ainda quando lembramos que o regulamento da Academia permite indicar até dez filmes para Melhor Filme e que esse ano temos apenas oito. Incompreensível. Mas plenamente explicável.

Carol é um filme sobre mulheres. Protagonizado por mulheres. A Academia e seu público votante é majoritariamente masculina. 76% dos votantes são homens. A idade média dos votantes é superior a 70 anos. O que esperar, portanto, de um colégio eleitoral masculino e veterano? Pois é, nada muito diferente disso. “Carol” foi esnobado por ser um filme que mostra mulheres e, também, por ser um filme que mostra a misoginia. Os personagens masculinos do filme (notadamente o marido de Carol e o namorado de Therese) têm suas relações com suas cônjuges baseadas não em amor ou cumplicidade, mas sim em posse e obrigações. Quando contrariados, reagem de forma violenta. O que importa para eles não é o que elas sentem, mas sim o fato de que devem manter o status quo e a sua situação de poder. Para o marido de Carol isso significa manter o casamento, mesmo que a esposa não tenha o menor interesse em continuar vivendo com ele e isso a torne infeliz. Para o namorado de Therese, isso significa que ela deve casar com ele e ser sua esposa, pouco importando se ela tem alguma dúvida a respeito. Não espanta, por tanto, se o bando de homens velhos da Academia não entendeu e não sentiu a mensagem do filme, apesar de ter reconhecido o seu primor técnico. Ou escolheu nem tentar, enfim.

“Carol”, como “A Garota Dinamarquesa” (The Danish Girl, Tom Hooper, 2015), como “Straight Outta Compton – A História do NWA” (Straight Outta Compton, F. Gary Grey, 2015), como “Creed – Nascido Para Lutar” (Creed, Ryan Coogler, 2015) reascendem a discussão que desde o ano passado tem tomado conta de Hollywood: ou o Oscar torna-se mais representativo, levando os negros e as mulheres bem mais a sério, ou o Oscar vai perder sua importância. E sim, a Academia tem acolhido essas críticas, como podemos perceber pelas recentes mudanças anunciadas no público votante do Oscar. Se as mudanças vão dar resultado ou não, só o tempo vai dizer.

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Voltando à minha querida professora, “Carol” é um filme que vale a pena ser visto porque propõe discussões extremamente atuais, sobre a posição da mulher na sociedade, sua autonomia, sobre machismo e sobre misoginia. Sobre como a sociedade ainda hoje sufoca a mulher em uma infinidade de deveres: deve ser comportada, deve ser família, deve ser esposa, deve ser mãe, deve ser discreta, deve ser submissa, deve ser obediente deve se colocar em segundo, terceiro, quarto, quinto, décimo plano. E é perturbador e triste perceber o quão pouco mudou desde os anos 1950, já que essas questões permanecem atuais.

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