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David Bowie no Cinema

por Pedro Cunha

Resta muito pouco a ser dito sobre David Bowie. E ainda assim há muito a dizer sobre ele. O britânico falecido semana passada com certeza revolucionou a música e se tornou, durante quatro décadas, uma referência vanguardista em termos de moda e estilo. Como não poderia deixar de ser, Bowie também se interessou pela sétima arte, e ela por ele. Claro que eu não vou falar das trilhas sonoras com a participação dele. O IMDb tem 456 créditos dele em trilhas sonoras, para vocês terem uma ideia. A atemporalidade do artista fica clara quando vemos que um dos primeiros trabalhos de Bowie utilizados no cinema foi a canção “Fame”, no filme “Teenage Pajama Party (Jim Buckley) em 1977. Mais de 400 créditos depois, em 2014 Bowie está presente no ótimo “Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo” (Foxcatcher, Bennet Miller), com a canção… Fame. Só em 2015 ele tem 21 créditos como trilha sonora entre trabalhos de TV e cinema.

Créditos finais de “Dogville”, de Lars von Trier

Bowie como ator não foi convencional, como não o foi em nada que fez na vida. Dentre as dezenas de oportunidades que teve (e apenas imaginemos quantos convites ele não recebeu…) escolheu pouca para atuar. Todas diferentes entre si, e todas em papeis bem longe do convencional. Bowie foi Andy Wharol. Foi Nikola Tesla. Foi Pôncio Pilatos. Foi o Rei-Duende. Foi o seu próprio Ziggy Stardust. E em todos eles, foi muito Bowie. Vamos homenagear o eterno camaleão com uma pequena seleção de algumas de suas participações cinematográficas mais interessantes.

O Homem que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth, Nicolas Roeg, 1976)

O primeiro papel de Bowie no cinema não poderia ser outro, visto que a exploração espacial e a possibilidade de vida alienígena estavam bastante presentes com ele na profícua década de 1970. Apesar do filme ser dirigido por Nicolas Roeg é muito difícil não pensar que Bowie foi a força criadora por trás do longa, uma vez que percebemos suas reflexões e argumentações por toda a obra.

Thomas Jerome Newton (Bowie) é um alienígena humanoide que veio a Terra para tentar salvar o seu planeta, que está sofrendo com a falta de água. Para conseguir construir a nave que o levará de volta ao seu planeta ele funda uma companhia de tecnologia para arrecadar dinheiro através de patentes. No decorrer de sua jornada Thomas depara-se com o que a humanidade tem de melhor e de pior, o que nos leva a questionar como alguém não humano pode ser, muitas vezes, o mais humano dentre todos.

Enfim, “O Homem Que Caiu Na Terra” é uma ficção científica típica dos anos 70, onde o fascínio pela exploração espacial e a paranoia da Guerra Fria se misturavam nas telas dos cinemas.

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O alien de Bowie

A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, Martin Scorsese, 1988)

O sempre pretensioso (e nem sempre isso é ruim) Martin Scorsese viva um dos seus auges criativos (um pouco antes, em 1980, havia feito um retorno triunfal com “Touro Indomável” (Raging Bull) e logo depois, em 1990, faria o excelente “Os Bons Companheiros” (The Goofellas) conta a sua versão da “história mais famosa do mundo”. Willen Dafoe é Jesus Cristo e Harvey Keitel vive Judas Iscariotes. Bowie encarnou Pôncio Pilatos, o responsável pela prisão de Jesus. A cena onde os dois dialogam coloca Pilatos na posição de um burocrata que enxerga naquele carpinteiro uma ameaça ao poder de Roma, que ele representa, mas que ao mesmo tempo não tem certeza se consegue não acreditar nas palavras tão sinceras daquele homem tão simples. Há boatos que antes de Bowie aceitar Sting teria recusado o papel de Pilatos. Sabe-se lá porque Scorsese queria um músico como o político, enfim.

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Pôncio Pilatos de Bowie

Basquiat – Traços de Uma Vida (Basquiat, Julian Schnabel, 1996)

No início dos anos 1980 um morador de rua em Nova Iorque decide que vai tornar-se famoso a partir de sua arte. Assim começa a meteórica ascensão de Jean-Michel Basquiat, apresentada no filme de Julian Schnabel. A busca pela fama a todo custo, no final, sempre cobra seu preço. E se vamos falar sobre fama e celebridades, ninguém melhor do que Andy Warhol, o homem que preconizou a era das subcelebridades meteóricas, para fazer a reflexão. Bowie vive Warhol num papel que impressionou pela semelhança física que ele conseguiu atingir.

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Andy Warhol de Bowie

O Grande Truque (The Prestige, Chris Nolan, 2006)

Depois de todo o retorno de “Batman Begins” (2005), Christofer Nolan volta àquele que se tornaria um de seus principais temas: a obsessão. Um mágico (Hugh Jackman) passa a vida correndo atrás do grande truque de outro ilusionista, vivido por Christian Bale. A antiga amizade entre eles tornou-se, com o tempo, uma profunda rivalidade. Bowie vive um personagem real, o cientista Nikola Tesla. Tesla desenvolveu pesquisas com eletricidade no século XIX, mas sua obra só teve a reconhecida importância recentemente, em virtude de seu caráter visionário.

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Nikola Tesla de Bowie

Labirinto: A Magia do Tempo (Labyrinth, Jim Henson, 1986)

“Labirinto” não poderia ficar de fora, não é? Sim, eu sou uma criança dos anos 80. “Labirinto” é uma produção de George Lucas e Jim Henson, com Bowie se juntando a eles no chamado “time criativo”. O Rei dos Duendes (Bowie) sequestra um bebê e a irmã dele (Jennifer Connelly) tem treze horas para atravessar um labirinto e salvá-lo. O filme usa os animatronics geniais de Henson (que é o pai dos Muppets) e tem uma riqueza visual marcante dos anos 80. As influências vão do País das Maravilhas de Alice até a arte geométrica de M.C. Escher.

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O Rei Duende de Bowie

No Brasil “Labirinto” ficou ainda mais famoso por ter sido escancaradamente plagiado em “Super Xuxa Contra o Baixo Astral” (Anna Penido e David Sonnenschein, 1988). Para conferir as semelhanças entre os longas (e também outros filmes de fantasia da época como “A Lenda” e “A História Sem Fim”) dê uma olhada aqui.

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