Quem vimos em 2015

por Pedro Cunha

Em geral eu faço uma lista de melhores filmes no final do ano. Mas 2015 foi um ano diferente. Quando comecei a organizar minha lista saltou aos olhos que 2015 não foi um ano normal na cultura pop. Resolvi, então, fazer uma lista diferente. Não vou enunciar os filmes de 2015, mas sim os grandes personagens do ano, sem ordem específica. Vamos lá?

 

Ana Muylaert e Regina Casé

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Ana Muylaert e Regina Case, merecedoras dos prêmios que receberam

Num momento em que o Brasil discute cada vez mais as contradições de suas relações sociais Ana Muylaert, diretora, roteirista e produtora nos apresenta “Que Horas Ela Volta?”, o melhor filme brasileiro do ano e um longa sensível e humano sobre um país em transformação, que com poucos personagens consegue nos mostrar diferentes facetas de nós mesmos. Os conflitos entre a empregada e a patroa, entre a filha da empregada e a empregada, entre a filha da empregada e a patroa conseguem traçar um painel dinâmico das novas (e das antigas) relações sociais no Brasil do século XXI.  “Que Horas Ela Volta?” foi filme brasileiro indicado para concorrer ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, mas infelizmente acabou ficando no meio do caminho da complicada corrida por essa estatueta. Se você ainda não viu o filme, não perca. A Val de Regina Casé ao nascer tornou-se uma das personagens mais marcantes do cinema brasileiro. Regina Casé, aliás, apresenta o “Esquenta”, programa dominical voltado para as classes populares e de certa forma ridicularizado por uma pretensa ~elite cultural~ que não vê nada além dos quadros musicais de funk e pagode no programa. O “Esquenta”, das vezes que assisti, foi um programa militante e combativo. Vi um quadro sobre possibilidades de penteados e cortes de cabelos para moças negras. No mesmo programa vi um coletivo de mulheres que se organizava na periferia para protegerem-se e denunciarem violência doméstica. Bem ao contrário do costumeiro comentário de “alienação” que costuma ser vinculado ao programa. A apresentadora e atriz recebeu diversas premiações pelo papel, todas elas merecidas. A polêmica protagonizada por Casé no final de 2015 expõe, mais uma vez, as contradições nossas e do nosso Brasil.

 

Katniss Everdeen

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Jennifer Lawrence é Katniss Everdeen, “O Tordo”, em “Jogos Vorazes – A Esperança Parte II: O Final”

2015 marcou o final da saga “Jogos Vorazes”, que levou legiões de adolescentes aos cinemas nos últimos anos e portanto merece, com justiça, que sua personagem principal figure na lista. O último filme da série, “Jogos Vorazes – A Esperança Parte II: O Final” (The Hunger Games: Mockinjay part 2” (eu adoro esse título em português, enfim) é na verdade a segunda metade do filme anterior e apesar de trazer muito mais tramas políticas do que a ação desenfreada que marcou os dois filmes da série ainda assim sustenta bem o ritmo e termina de maneira bacana a série. “Jogos Vorazes” ajudou a tornar Jennifer Lawrence uma das estrelas mais rentáveis de Hollywood e se a série pode lá não ser muito original, pelo menos serviu para derrubar vários paradigmas: estamos falando de uma série de ação para adultos jovens estrelada por uma mulher. Cujo vilão, no final das contas, também é uma mulher (a manipuladora Presidente Coin, vivida pela sempre talentosa Julianne Moore). E ao contrário das previsões mais céticas a série arrebentou o box office e arrecadou muito dinheiro, mostrando para o mundo que sim, séries jovens de ação podem ser estreladas por mulheres sem que isso afete o seu potencial financeiro. “Jogos Vorazes – A Esperança Parte II: O Final” também nos brinda com o último trabalho do talentoso e saudoso Philip Seymour Hoffman, mesmo que parte de sua participação tenha sido feita via computação gráfica.

 

Shonda Rhimes

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Shonda Rhimes, o rosto por trás de Grey´s Anatomy e How to Get Away With Murder

Se há algo que está crescendo na indústria do entretenimento são as séries. Antes um desprestigiado produto de segunda classe, hoje elas são onde está muito do melhor produzido em termos de arte cinematográfica, e não há exagero nessa frase. Séries como “House of Cards”, “Breaking Bad”, “True Detective” ou “Game of Thrones” atraem estrelas de primeira grandeza para seus elencos e arrancam elogios da crítica em produções de luxo com repercussão mundial.

Nesse universo das séries, poucas pessoas são tão respeitadas hoje como Shonda Rhimes. Ela é uma das produtoras mais poderosas dos EUA e responsável por “Grey’s Anatomy”, um dos maiores ibopes das televisões dos EUA, desde 2005. Shonda hoje também responde por outras séries, sempre bem sucedidas, como “Scandal” e a elogiadíssima “How To Get Away With Murder”. Shonda hoje é a “Rainha Midas” da televisão norte-americana. HTGAWM, como os fãs chamam, é uma série que conquistou os primeiros lugares do ibope tendo a “ousadia” de colocar como protagonista uma mulher negra, a professora Annalise Keating. A oscarizada Viola Davis vive a personagem que rompe paradigmas: ela não só é protagonista, mas também é uma mulher negra vivendo uma renomada professora de uma prestigiada universidade, e não um daqueles papeis de serviçais nos quais estamos tão acostumados a ver os atores negros representarem. O sucesso de How To Get Away With Murder colocou Shonda Rhimes naquele seleto grupo de produtores cujos projetos são garantia de lucratividade, não importa o quanto custem.

 

Jessica Jones

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Krysten Ritter é Jessica Jones, detetive particular.

A heroína criada por Brian Michael Bendis na despretensiosa série “Alias”, do (infelizmente) extinto selo Marvel Max, onde a editora publicava quadrinhos mais adultos, ganhou as telas numa das tantas séries produzidas pelo serviço de streaming Netflix. “Jessica Jones”, apesar de se passar no mesmo universo cinematográfico da editora (e há citações ao Hulk, ao Homem de Ferro e ao Capitão América, por exemplo), explora um contexto completamente diferente. O dia a dia de Hell’s Kitchen, um bairro de Nova Iorque atormentado por problemas mais comuns. A série de Jones conversa mais com a outra (também elogiada) série do Netflix que passa-se no mesmo universo, “Demolidor”, com quem inclusive “divide” um personagem. Jessica Jones é a protagonista vivida por Krysten Ritter e é uma mulher independente que bebe, fala palavrão e faz sexo casual. O seriado nos brinda com uma seleção, aliás, de mulheres fortes e independentes, ainda que bastante diferente umas das outras. Além de Jessica, sua irmã adotiva Trish Walker (Rachel Taylor) ou a inescrupulosa advogada Jeri Hogarth (Carrie-Ann Moss, a Trinity de Matrix) nos mostram aquela palavrinha mágica que tanto apareceu na mídia em 2015: diversidade. O vilão da série, Killgrave (o sempre excelente David Tennant), rouba a cena e se torna aquele “vilão que amamos odiar” de 2015. Jessica Jones tem uma protagonista sensacional. Um elenco de apoio ótimo. Um vilão maravilhoso. E como se tudo isso não bastasse, a trama é fantástica. Como alguém já escreveu, “não é uma série sobre heróis: é uma série sobre abuso”. Se você ainda não viu Jessica Jones corre lá no Netflix e comece. Mas vai ser difícil de parar antes do último episódio…

 

Imperator Furiosa

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Não mexe com a moça…

Trinta anos. Foi o tempo que George Miller levou para trazer o quarto filme da saga Mad Max depois de “Mad Max: Além da Cúpula do Trovão” (Mad Max Beyond Thunderdome, 1985). O projeto de “Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road, 2015) estava pronto a mais de quinze anos, mas Miller teve que passar por porcos falantes e pinguins sapateadores antes de voltar ao outback australiano e reviver as lendas do futuro pós-apocalíptico que fascinou a todos nós nos anos 80.

Quando ficou claro que a produção ia de fato ocorrer, todos ficamos ansiosos para ver se Tom Hardy ia conseguir vestir as botas (e o casaco sem manga) de Mel Gibson. Se ele seria o mesmo Max ou um personagem diferente. Se o filme seria um reboot ou uma continuação da franquia. Todas essas perguntas se mostraram desinteressantes depois da estreia do filme, porque fomos atropelados por Imperator Furiosa. A personagem de Charlize Theron rouba o filme com propriedade. Ela atira melhor que Max. Ela dirige melhor que Max. Ela briga melhor que Max. Aliás, ela faz todas essas coisas melhor do que qualquer outro personagem do filme. E faz tudo isso, literalmente, com um braço só. O melhor de tudo, é que ela faz isso num fantástico e vibrante filme de ação, que consta em quase todas as listas de melhores filmes do ano que foram publicadas. “Mad Max: Estrada da Fúria” criou bordões instantâneos, levou multidões vibrantes às salas escuras e criou uma das personagens mais badasses da história do cinema.

 

Rey

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Esse é o rosto da nova geração de Star Wars 

Há muito que se dizer sobre “Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força” (Star Wars – Episode VII: The Force Awakens, JJ Abrams, 2015) e eu direi (logo!!). Mas esse texto não é sobre isso, é sobre a fantástica personagem de Daisy Ridley. Ridley é uma atriz britânica iniciante cuja primeira aparição na TV data de 2013. Não tem nenhum trabalho significativo creditado a ela antes de Star Wars, o que faz com que ela não seja diferente do que eram Mark Hamill ou Harrison Ford antes do Episódio IV. Ainda assim sua personagem Rey passa com maestria pelo filme. Rey é a ponte de embarque para algo importantíssimo no mundo de Star Wars: novos fãs. É através dela que rola aquela identificação necessária para embarcar naquela jornada toda, de quem não entende direito o que está acontecendo e cresce durante o filme. Rey é independente. Rey se vira, no seu planeta. Ela não precisa de ninguém. Ela sabe pilotar uma nave. Ela não precisa que o Finn a salve (de fato, ela o salva mais de uma vez). A emblemática cena da corrida de mãos dadas ajuda a definir a personalidade da menina para nós, ressaltando que ela é a heroína, e não a “donzela em apuros”. Quando eu era criança, nós brincávamos de Guerra nas Estrelas. Eu gostava de ser Han Solo. Meu primo era Luke Skywalker. Nós nos identificávamos com esses personagens. As crianças hoje saem do cinema querendo ser a Rey. E isso é muito, mas muito positivo.
(Sim, eu escolhi apenas mulheres para ilustrar esse texto. Eu poderia dizer que eu fiz isso porque 2015 foi um ano no qual muito se discutiu sobre feminismo e representatividade feminina. Eu poderia dizer que essa é uma escolha política, também. Eu poderia simplesmente dizer que não há nada de mais nessa escolha e que realmente foram as personagens mais importantes do ano, independente de qualquer coisa. E sim, todas essas respostas estão corretas.)

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