Legião Urbana celebra 30 anos em São Paulo

por Cassiano Rodka

Praia de Rondinha, idos de 1986.

Três crianças brincam num balanço de dois lugares. Duas meninas entoam empolgadamente a letra de “Eduardo e Mônica”. Elas sabem cantar a música de cor e isso fascina a terceira criança, um menino. Ele admira a capacidade das irmãs de guardar cada detalhe daquela história sobre os encontros e desencontros de um casal ímpar. Ele pensa consigo que um dia ele também vai conseguir narrar cada capítulo dessa história. Esse gurizinho era eu.

Legião Urbana foi uma das primeiras bands de rock que eu escutei e curti. Foi trilha da minha infância e da minha adolescência. As canções, até hoje, me transportam àquela época leve e tranquila ao lado das minhas irmãs. A gente ouvia as músicas, cantava junto e ficava feliz cada vez que o pai trazia um novo K7 ou vinil da banda. O pai, aliás, foi quem nos apresentou aos punks de Brasília. O cara sabe das coisas!

legiaodoisk7
imagem: Cassiano Rodka

Quando minha irmã, a Clarice Casado aqui do P2, me convidou para assistir o show de comemoração dos 30 anos do primeiro disco do Legião em São Paulo, foi meio impossível resistir o convite. A outra mana, Camila, topou em seguida a ideia e, assim, o trio do balanço de dois lugares estava junto novamente.

A experiência foi mágica e nostálgica. Apesar de não ter Renato Russo nos vocais, a sua presença se fez perceptível nas letras e no carinho que as pessoas têm pelas suas canções.

O show foi dividido em duas partes. Na primeira, a banda toca o seu disco de estreia de cabo a rabo. Assim, o show inicia com o pontapé da clássica “Será”. No vocal, o ator e cantor André Frateschi. Sem nunca tentar emular a voz e os trejeitos de Renato Russo, Frateschi é uma escolha acertada e segura muito bem todas as canções. Além dele, os remanescentes da banda também se revezam no microfone.

Legiao 03.jpg

Apesar de conter alguns clássicos do repertório da banda, como “Ainda É Cedo” e “Geração Coca-Cola”, o álbum tem várias canções menos conhecidas do grande público, o que deixava parte da plateia meio em suspensão durante alguns momentos. O disco “Legião Urbana” é um disco cru, de canções punk com pitadas de U2 e Smiths. Em “O Reggae”, Dado faz uma citação de “The Guns of Brixton” do The Clash, uma das grandes influências do grupo. Fica claro que a primeira parte do show é para os mais fãs e a segunda é para todos. A bela “Por Enquanto” fecha o set cantada com vontade pela plateia. “Estamos indo de volta pra casa”. Na verdade, ainda não. Um áudio de Renato Russo falando sobre o Legião Urbana faz a costura entre o primeiro e o segundo ato do concerto.

A segunda parte do espetáculo traz a banda interpretando alguns de seus grandes sucessos ao lado de algumas participações especiais. A primeira delas é o produtor Liminha, que toca guitarra em “Tempo Perdido”. Dois cantores independentes, escolhidos por Dado e Bonfá através de um concurso, ganham a oportunidade de subir ao palco para cantar uma música que eles mesmos escolheram. Fabiano Vênkoff interpreta “Conexão Amazônica” e Marina Franco manda “Dezesseis”, uma música que Renato Russo não chegou a ter a chance de cantar ao vivo. Seguindo as participações, o músico cearense Jonnata Doll assume os vocais de “1965 (Duas Tribos)”. Para cantar “Monte Castelo”, Dado Villa-Lobos chama ao palco o hermano Rodrigo Amarante, que mandou uma belíssima interpretação da música. Amarante capitaneou ainda mais dois clássicos, “Quase Sem Querer” e “Índios”. A clássica “Pais e Filhos” foi tocada pela banda junto com seus filhos, Nicolau Villa-Lobos na guitarra e João Pedro Bonfá nas baquetas. Emocionante!

O set fecha com a belíssima “Perfeição”, com direito a citação de “Lithium” do Nirvana. Mas claro que ainda há um bis esperando atrás da cortina. O grupo retorna ao palco para cantar um dos grandes êxitos da banda, um épico de 9 minutos, sem refrão, com essencialmente dois acordes e muitas mudanças de andamento. Tinha tudo para dar errado, mas as rádios tiveram que engolir o sucesso de “Faroeste Caboclo” e aqui no Espaço das Américas a música mostra que continua tão forte quanto na época de seu lançamento.

Legiao 01.jpg

Para encerrar a noite, a banda toca o hino “Que País É Este”, entoada por todos num clima de “a coisa continua foda”. É impossível não perceber que as letras políticas de Renato Russo ainda têm relevância e infelizmente continuam refletindo o nosso país. Mudaram as estações. E nada mudou.

Em Porto Alegre, o show vai rolar na sexta-feira do dia 11 de dezembro no Pepsi on Stage. Nós recomendamos!

Legiao 07.JPG

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s