Com quantas memórias se tece uma vida?

Com quantas memórias se tece uma vida_P2.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para a Clarice adolescente, que de certa forma ainda em mim habita.

Há quem pense que o passado tem lugar exatamente lá: no passado. Deve ali restar, e nunca mais ser tocado. Ser lembrado, assim, meio que por alto, quando se vê alguém que não se via há muito, quando se sente um cheiro ou se prove qualquer coisa que te recorde algo longínquo; quando se vê fotos, ou se lê um livro, ou um poema, ou se ouve uma canção que um dia abalou suas estruturas.

Eu era assim. Era uma dessas pessoas. “Ah, passou. Deixa lá”. Sou conhecida por ter uma memória péssima. Na minha família todos brincam comigo, dizem que sou desmemoriada. De fato, não lembro nunca de detalhes minuciosos de fatos. Tenho, porém, uma memória impressionante para aquelas coisas que enumerei no primeiro parágrafo deste texto. Um aroma, uma poesia ou uma música podem me jogar no tempo de tal modo a me abalar, por exemplo. Creio que posso dizer que tenho uma memória sensorial fora dos padrões. E talvez seja por isso que me sinto bem escrevendo. O escritor sem os sentidos muito apurados: ah, quanto desperdício…

Leitores queridos, pois essa pequena introdução serviu para contar-lhes que a Clarice que conhecem, uma cética quanto ao valor dos fatos passados, é hoje outra. Há alguns meses, tive o imenso prazer de ter contato, após mais de vinte e cinco anos, com meus diários de adolescência. Estavam na casa onde cresci, em Porto Alegre, assim como grande parte das minhas melhores memórias de vida. Trouxe-os para a minha casa em São Paulo.

De início, tive um certo medo de começar a lê-los. O que eu iria exatamente encontrar? Eram quatro cadernos de capa dura, com fatos relatados de meus doze aos dezoito anos. Os dois primeiros me mostraram uma Clarice pré-adolescente, que eu até apresentei à minha filha Angelina, que disse, “Mamãe, você poderia ter sido uma amiga minha!”. Ali, histórias bem contadas, com toques de humor e muita inocência. Um mundo “pré-conflitos internos”. Confortável, maravilhoso…!

Quando mergulhei nos diários da adolescência propriamente dita (dos quinze aos dezessete), pude ver claramente a menina começando a perceber o mundo de forma diferente, sob os olhos da mulher em formação. Nos primeiros trechos, tive a sensação de que aquela era uma “outra eu”. Tive a nítida sensação de estar lendo os segredos de outra pessoa…! Isto fez com que eu parasse um pouco a leitura por alguns dias. Aquele gatilho de memória acionado não estava me deixando confortável: aquela Clarice adolescente assustou-me pela maturidade precoce, pelas reflexões detalhadas e muitas vezes angustiadas, pelas peculiares visões de mundo formando-se, pouco a pouco, decorrentes de minhas intensas leituras, de meus escritos, de meus relacionamentos com familiares e amigos, e de minhas experiências juvenis.

Após alguns dias refletindo sobre o passado, me permiti voltar à leitura. Devagar, com muita paciência, fui deixando-me envolver em doses homeopáticas pelas aventuras da jovem Clarice, por minhas dores e meus amores, minhas felicidades e minhas decepções. Pude ver nascer e morrer o primeiro amor, e pude também ver que nenhuma dor é tão profunda que não se cure pela expectativa das novas experiências. Pude experimentar de novo pela primeira vez uma boa cerveja (inesquecível!), e pude reler com olhos juvenis Mario Quintana, Mario de Andrade e Rubem Fonseca, e curtir com ouvidos virgens as bandas de música que eu amava. Pude ir de novo a festinhas do colégio, e conversar com meus amigos, cantar e dançar ao som da banda de garagem dos meus parceiros da adolescência. Pude ouvir os segredos e angústias das minhas amigas, e dividir com elas os meus. Tive medos e várias incertezas de novo. Ri alto de muitas das histórias que ali contei, com riqueza de detalhes. Conheci pessoas que não conhecia, lembrei-me de fatos que não lembrava, amei de novo com intensidade minha família, ouvi as histórias do meu pai e senti o apoio da minha mãe. Senti o cheiro da ceia de Natal na casa dos meus avós maternos, tive por mais uma vez as bençãos da minha avó paterna. Revivi churrascos gostosos em família, viagens com os amigos e verões inesquecíveis. Passei pela ansiedade da expectativa do Vestibular e toda sua preparação. Tive de novo as dúvidas emocionais e vocacionais da época. As resolvi, em parte. Questionei muitíssimo a vida, as pessoas, os relacionamentos, os comportamentos, as atitudes de todos e do mundo que me cercava. Naquele complexo microcosmos da Clarice adolescente, encontrei muitas das respostas que eu ainda não tinha sobre mim. Desde aquela época até hoje, mudei em vários aspectos, claro. Tenho a certeza, porém, que a minha essência ali está, guardadinha naquelas linhas (e entrelinhas), e quando eu precisar, posso recorrer ao meu “eu jovem” para amparar, de algum modo, meu “eu atual”.

Pudéramos todos termos colocado por escrito nossas impressões sobre a vida em algum momento. Acreditem, leitores, minha viagem foi excepcional. Nunca imaginei que essa leitura pudesse causar um impacto tão grande sobre mim e minha vida atual, mas, bom, de fato causou. Dali ainda poderei extrair muito boas crônicas, poemas, e até contos. Para uma escritora, esses diários são um verdadeiro tesouro da memória: alimento riquíssimo para a criatividade.

Posso seguramente dizer que experimentei, enfim, em toda sua plenitude, por alguns maravilhosos dias, as dores e delícias de ser quem eu era antes de tornar-me quem hoje sou.

E, posso dizer também, sem dúvidas, que sou extremamente apaixonada por quem me tornei.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s