We Care a Lot – 30 anos do debut do Faith No More

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por Cassiano Rodka

O primeiro disco de uma banda é sempre um passo importante na sua carreira. É o momento em que o grupo se apresenta ao mundo e mostra ao que veio. Ao lançar o álbum “We Care a Lot” em 1985, o Faith No More já deixava claro que sua intenção não era agradar facilmente o público, mas, sim, desafiar os paladares musicais.

Gravado no estúdio do produtor Matt Wallace (que, basicamente, era o porão da casa onde morava com seus pais), o disco trazia uma mistura de punk, rap, funk, metal e industrial. O som era cru, mas com arranjos bem acabados e uma comunicação musical muito forte entre os integrantes – um instrumento complementa muito bem o outro, dá para entender que há uma conexão imprescindível entre eles. As letras eram despretensiosas e debochadas, ora cantadas, ora declamadas em rap. Já na faixa-título, a banda tirava um sarro com uma tendência da época: artistas escrevendo músicas engajadas.

Algumas coisas chamavam atenção logo na primeira ouvida, como a inclusão de teclados climáticos, que davam um toque cinematográfico às músicas do Faith No More. A simples adição de um tecladista em uma banda de rock pesado já era algo fora dos padrões naquela época. Segundo o baixista Bill Gould, isso foi feito para trazer dramaticidade e criar ambiência para as músicas. E o tecladista Roddy Bottum sempre soube fazer isso muito bem, criando pérolas do repertório da banda, como as faixas “Why Do You Bother” e “As the Worm Turns”.

Outro destaque é a conexão entre baixo e bateria. Os ritmos africanos trazidos por Mike Bordin são complementados pelo baixo econômico de Bill Gould e o resultado é surpreendente. O riff de baixo de “We Care a Lot”, por exemplo, foi construído com apenas UMA nota. É o ritmo e o casamento com a batida que fazem ele funcionar tão bem. Muitas das músicas surgiram de jams entre essa duplinha mais o tecladista Roddy Bottum. Curiosamente (para uma banda de rock), a guitarra e o vocal eram as últimas preocupações. O que nos leva a Jim Martin e Chuck Mosley, dois integrantes originais que foram imprescindíveis para a formação do som do Faith No More, mas que foram eventualmente chutados por desavenças musicais e/ou pessoais.

O guitarrista Jim Martin inseriu uma boa dose de heavy metal nas canções, mas ainda não há solos de guitarra nas faixas, algo que mudaria completamente nas próximas gravações. Tenho a impressão de que os outros integrantes seguraram um pouco a onda metal de Jim nesse primeiro álbum. Mas não impediram ele de incluir no disco uma singela balada acústica e instrumental tocada apenas por ele e intitulada simplesmente “Jim.” Um baita guitarrista e uma figuraça (usava óculos gigantescos vermelhos, cabelos e barba compridos – o rosto dele era um mistério…), Martin é nostalgicamente lembrado até hoje pelos fãs, mas sua saída foi inevitável e definitivamente abriu portas para o Faith No More experimentar com novas possibilidades sonoras.

O álbum ainda contava com o vocalista Chuck Mosley, que ainda gravaria mais um disco com a banda e depois seria substituído por Mike Patton. Apesar de não ser um cantor muito versátil (a comparação com a voz de Patton chega a ser desleal), Chuck foi quem introduziu a ideia de mesclar vocais cantados com rap. Segundo ele, a ideia foi mais uma necessidade mesmo, pois ele não conseguia criar melodias para algumas partes mais malucas das canções, então “falar” por cima de certas bases parecia funcionar melhor. Para quem está acostumado com Patton nos vocais, escutar Mosley pela primeira vez pode ser um choque, mas o cara tem definitivamente uma grande importância na criação do som do Faith No More. É só ouvir “Mark Bowen” e ter certeza. E, para os seus críticos mais incisivos, Chuck manda logo um recadinho na faixa “Greed”: “Saia de sua mente, pois ele é pequena demais! E tem muita coisa rolando por aí!”.

O baixista Bill Gould anunciou que, em comemoração aos 30 anos do disco, a banda lançará uma edição especial com faixas extras e fotos inéditas em 2016. É uma merecida atenção especial para um álbum que foi o primeiro e acertado passo de uma das bandas mais interessantes de todos os tempos.

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