Que Horas Ela Volta?

que-horas-ela-volta-01

por Pedro Cunha

Faz uma semana que assisti “Que Horas Ela Volta” (Anna Muylaert, 2015) e só hoje tomei coragem para sentar e escrever sobre o filme. O problema não é com o elogiadíssimo longa brasileiro, que semana passada foi escolhido para ser o representante brasileiro na (longa) corrida pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Os problemas, que fique claro, são comigo mesmo, com a classe média à qual pertenço e com as contradições e idiossincrasias da nação da qual fazemos parte.

“Que Horas Ela Volta” é a afirmação madura de Anna Muylaert. A paulistana que assina o roteiro e a direção do filme já é razoavelmente conhecida pelos seus trabalhos anteriores, como os roteiros de “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias” (2006), “Desmundo” (2002) e “Xingu” (2012), além de ter dirigido (e também roteirizado) o excelente “Durval Discos” (2002). A realizadora tem ainda créditos de direção e roteiro em séries e especiais televisivos como “As Canalhas” e “Um Menino Muito Maluquinho”. A cineasta consegue com esse novo trabalho um feito raro no Brasil: sucesso de crítica e público. “Que Horas Ela Volta” está na sétima semana em cartaz e, feito raro (raríssimo em se tratando de filmes nacionais), ocupa hoje mais salas do que quando de seu lançamento. Em 27 de agosto, quando entrou em cartaz, o filme ocupava 97 salas. Hoje está em cartaz em 158 cinemas, um sinal claro de que o público tem assistido o filme, gostado e indicado: o famoso “boca a boca”. A taxa de ocupação do filme é a segunda no Brasil, hoje, com 500 ingressos vendidos por dia por sala. O campeão é o norte-americano Maze Runner – Prova de Fogo, com 680 ingressos por dia/sala (o longa americano está em cartaz em 961 salas pelo país).

que-horas-ela-volta-02
Val e os outros empregados na cozinha, espaço permitido para eles 

O reconhecimento do público e a vem sendo acompanhado de premiações expressivas em festivais importantes, como Berlin e Sundance, onde Anna Muylaert, Regina Casé, Camila Márdila e o próprio filme vem sendo bem recebidos e lembrados na hora das premiações. A escolha do filme para representar o Brasil na longa corrida pelo Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira veio coroar todas essas premiações. Vencer em tal categoria? Complicado. Até porque depende muito mais da distribuição do filme nos EUA e da safra dos outros países do que do filme em si, enfim.

“Que Horas Ela Volta” conta a história de Val, uma retirante nordestina que trabalha como empregada doméstica em uma casa de família de classe alta em São Paulo. O primeiro ato do filme não tem pressa nenhuma e transcorre com o objetivo de nos apresentar a personagem. Muylaert mostra Val nas suas atividades cotidianas: lavando louça, estendendo roupa, passeando com a cachorra, regando o jardim. Ao mesmo tempo também vamos entendendo a sua interação com a família para a qual ela trabalha. Dona Bárbara (Karine Telles) é a dona da casa. O trabalho com moda toma muito do tempo dela, que é casada com Carlos (Lourenço Mutarelli). Carlos é o herdeiro de uma grande fortuna que nunca conseguiu fazer nada da própria vida. Artista frustrado, ele é acordado todos os dias as 11h por Val e passa os dias, ao que parece, fazendo nada. E aí temos Fabinho (Michel Joelsas), o filho adolescente do casal, que se prepara para o vestibular fumando maconha, tomando banho de piscina e saindo com os amigos. Além deles desfilam pelo filme um rol de jardineiros, eletricistas, arrumadeiras e outros empregados subalternos com quem Val divide as tarefas da casa da família. A diretora opta por nos mostrar tudo sempre do ponto de vista da personagem de Regina Casé, e o resultado disso não poderia ser mais feliz. Conhecemos a cozinha, o pátio e o quartinho de empregada, mas não conseguimos ver dentro dos quartos da família. A sala de jantar é apenas vislumbrada, e sempre emoldurada pela porta da cozinha. Há lugares definidos para todas as pessoas na casa, por mais que Val (e nenhum outro empregado) nunca seja maltratada ou se sinta oprimida. Pelo contrário, todos na família parecem gostar dela, embora o único que demonstre afeto seja Fabinho. Em função da agenda atribulada da mãe ele foi praticamente criado pela empregada e é ao colo dela que ele recorre nos seus momentos de insegurança e carência, já que a mãe, ocupada, nunca tem tempo para o filho e fica desconfortável diante das necessidades emocionais dele.

que-horas-ela-volta-03
Fabinho busca no colo de Val o acolhimento que sua mãe nunca lhe deu 

O segundo ato tem início com a chegada de Jéssica (Camila Márdila), a filha de Val. Sem se encontrarem a mais de dez anos e sem se falarem a mais de três, mãe e filha tem uma relação para resgatar. A chegada de Jéssica muda a dinâmica da relação de Val com a família gerando conflitos e questionamentos bem interessantes. A menina fica claramente incomodada com a divisão que existe entre empregados e patrões e com a hierarquia (nem sempre) tácita colocada nos papeis. As brigas de Jéssica não são com a família, porém. É contra a mãe que ela se insurge num misto de raiva pela ausência que marcou a relação de ambas e frustração por achar que a mãe não enxerga as humilhações que ela a vê sofrer. Val, por outro lado, recrimina Jéssica por ela “não saber o seu lugar”. Como a filha da empregada, ela deveria ficar satisfeita e agradecida de ter um teto e de dormir num colchão no chão do minúsculo e abafado quartinho de empregada, enquanto a casa dispunha de um quarto de hóspedes que ficava vazio. As tensões desse momento do filme são um pouco prejudicadas em função do tom da personagem Dona Bárbara, que se torna um pouco caricata demais nesse momento. Se a personagem fosse um tanto mais sutil talvez os conflitos gerassem um questionamento ainda maior. No momento em que ela se apresenta como vilã fica muito fácil de “assumir um lado” na história.

que-horas-ela-volta-04
Jéssica e Val, percepções e posições diferentes (e um belíssimo plano construido por Muylaert) 

Se o filme dá uma caída no segundo ato, volta a emocionar no terceiro, o ato final. A resolução dos conflitos é bem conduzida pelo roteiro e pela direção e o filme termina nos dando um verdadeiro banho de humanidade.

Still ' The Second Mother ' - ' Que Horas Ela Volta '
Val servindo Bárbara, a patroa: a personagem de Karine Telles, mesmo que por vezes caricato, representa muita gente que conhecemos.

A dinâmica apresentada por Muylaert pode ser lida de diversas maneiras. A relação de Val com a família representa o Brasil tradicional, onde os pobres “sabem o seu lugar” e reproduzem a eterna lógica da sociedade pacífica e do povo ordeiro que convive em harmonia com uma elite benevolente e benfeitora. Jéssica representa, de certa forma, as mudanças pelas quais o Brasil passou nos últimos 20 anos: é uma nova classe média do interior do nordeste que não tem receio de questionar a ordem das coisas e cuja simples presença, em determinados momentos, é uma afronta. A troca de olhares entre a família dos patrões quando Jéssica, a filha da empregada doméstica, diz que está em São Paulo para prestar vestibular na prestigiosa FAU, é um silêncio que diz muita coisa.

Que Horas Ela Volta 06.jpg
A sala de jantar pelo único ângulo permitido a nós: enquadrada pela porta da cozinha. 

Outra leitura possível é enxergar na família dos patrões não personagens, mas arquétipos das relações patrão/empregado que se reproduzem no Brasil, de certa forma, desde o tempo da Casa Grande e da Senzala. Carlos, o pai, tem uma relação paternal de propriedade com os empregados. Seu carinho é verdadeiro, mas junto com ele há também a certeza de que aquelas pessoas são bens e pertencem a ele, para qualquer tipo de usufruto. Fabinho é o menino que mamou na ama de leite, que brincou com os escravos e que os enxerga quase como iguais. Se ele busca o colo de Val para aliviar as suas tensões e inseguranças, a condescendência com que ele trata Jéssica mostra o quão inferior, na verdade, ele a considera, quando na verdade ela tem muito mais maturidade, visão de mundo e vivência do que ele. Dona Bárbara encarna o patrão rígido, o próprio Senhor de Engenho. Os empregados tem uma vida boa com ela, desde que saibam o seu lugar. Se Fabinho sequer percebe e Carlos acha graça quando Jéssica questiona a hierarquia velada da casa, Bárbara é quem se sente ameaçada e é quem se coloca no papel de “pôr as coisas nos seus devidos lugares”. A cena na qual ela manda limpar a piscina depois de um mergulho de Jéssica, usando a desculpa que teria visto um rato, é bastante emblemática. A piscina, aliás, é um símbolo importante da segregação no filme. Tradicionalmente a piscina é, no Brasil, símbolo de status social. No filme não é diferente. Não é a toa que logo que Jéssica chega uma das primeiras coisas que Val quer mostrar para ela é a piscina. Vendo o olhar da menina, ela logo a reprime: “Nem mesmo olhe para essa piscina! Não pense nisso!”. Parte do amadurecimento de Val passa, também, pela piscina, numa das cenas mais emocionantes do cinema nacional.

Falar desse filme sem falar da atuação maravilhosa de Regina Casé seria um crime. A apresentadora do “Esquenta!” nos entrega uma personagem humana e real. O filme todo gira em torno dela e a atriz consegue levar isso com tranquilidade fazendo um trabalho que vai instantaneamente para a galeria dos grandes personagens do cinema brasileiro. Quem não se emociona com a cena de Val na piscina deve procurar ajuda profissional, enfim. Muita gente sai do cinema se lembrando da “sua” própria Val, daquela pessoa que trabalhou junto na sua casa e que foi parte da sua formação pessoal.

Se você está em dúvida, se você tem receio com filmes nacionais, se você tem um só filme para assistir essa semana, vá ver “Que Horas Ela Volta”. Emocione-se com a Val e vamos torcer para que o sucesso nas premiações faça mais gente ver (e pensar a respeito de) esse filme humano, doce e ao mesmo tempo de engajamento social. Quer mais um motivo para assistir? Esse é um filme roteirizado, dirigido e protagonizado por mulheres. Isso não é raro só no cinema nacional, mas no cinema em si. Certamente não por falta de vontade ou talento, mas sim em função das escassas oportunidades oferecidas a elas. Aproveite e prestigie, então!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s