Sociedade dos antissociais

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Nossa organização começou de forma secreta. Parecia algo necessário, então alguém fez acontecer. Não sabemos exatamente de quem foi a iniciativa, mas também ninguém quis perguntar. O certo é que temos agora um grupo organizado e nossa voz será ouvida – caso algum dia quisermos falar.

Cansamos de ser repudiados pela massa comunicativa. Não almejamos ser expansivos ou carismáticos, nem queremos ser convidados para todos os seus eventos sociais. Estaremos presentes em casamentos e enterros, viajaremos no dia do seu chá de fraldas e estaremos doentes na noite de sua formatura. Não leve a mal, é a nossa natureza.

A verdade é que não compreendemos esse desespero pelo contato social constante. Apoiamos imensuravelmente as práticas solitárias, da literatura à masturbação. Se dependesse de nós, as salas de cinema teriam divisórias entre as cadeiras e as tele-entregas seriam feitas por robôs. Disponibilizamos um espaço para que os membros tragam esse tipo de proposta para tonar o mundo um pouco menos invasivo. Temos um local bem estruturado onde fazemos nossos encontros anuais. Dizem que é bem legal. Não sei, nunca fui.

Fazer parte de uma sociedade é algo novo para nós, portanto ainda temos muito a aprender. Raramente fazemos reuniões, pois ninguém aparece mesmo. As decisões são usualmente tomadas por e-mail ou por WhatsApp. Mas, de vez em quando, é necessário entrarmos em contato de forma mais pessoal. Aí usamos o Skype.

Os membros acabam se conhecendo mais por se encontrar por acaso na rua. Nos reconhecemos pela falta total de contato visual ou pelo desdém externado pelos extrovertidos. Às vezes, escuto um dizendo: “Esse aí é um antipático de carteirinha”. Quando olho de soslaio para ver quem é, percebo que é mesmo um sócio – ou antissócio, como preferimos chamar. Aí nos cumprimentamos com nossa saudação secreta: cabeça baixa e olhar isento. Depois seguimos cada um para o seu lado antes que aquilo vire um bate-papo.

Nosso dia há de chegar. Quando marcharmos pela rua, será só em pensamento. Quando levantarmos nossa voz, o mundo escutará um sussurro. Em nosso manifesto taciturno, só almejamos uma coisa: nada. Isso mesmo: NADA!

Apenas ignorem nosso grito e vão plantar batatas.

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