O sempre é hoje, e ponto(.)

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

OK, ok, mais um para a Marcella Marx…!

Foi o que eu ouvi da minha grande amiga Marcella Marx, a Maria, sabem, leitores? A Maria poética e “mariavilhosa” aqui do PáginaDois… Daquela cabeça ali, meus queridos, só saem coisinhas muito especiais. Ela não sabe ser “comum”, “normal”, “superficial” e esses adjetivos todos que cabem (infelizmente) a muitos que nos rodeiam ao longo da vida. Eu dei a sorte de ter uma guria como a Maria comigo, há mais de quinze anos já. Privilégio, né? Só quem a conhece sabe do que estou falando.

Mas a mesma mulher assertiva e decidida que me disse “O sempre é hoje, e ponto!” há alguns anos veio me dizer “Friend, você deveria fazer mais poesia, gosto de você poeta…”. Maria darling, eu concordo contigo, acho que é legal fazer poesia e tal, e que eu sei que consigo fazê-la e disso me orgulho (porque tenho aquele lado exibido que conheces bem!), naqueles momentos de super transe em que, com ou sem vodca, café ou pão de queijo, me baixa um santo bravo do Pessoa, do Quintana, da Sylvia Plath (ou do Manoel de Barros, ah, grande Manoel…!), e aí eu me ponho a rascunhar versos, e depois paro, e os deixo de molho alguns dias, e volto, e volto, e volto, e leio, e releio, umas mil vezes, até achar que posso mandar para o Cassi editar, ilustrar e publicar. E ainda assim, mesmo depois de enviados, eu refaço outras mil vezes e mando outras quinhentas erratas para o coitado do meu irmão, meu paciente co-editor…!

A poesia me vem nesses transes, e eu os adoro, porém – sim, aqui vem o porém, leitores – o que eu amo fazer mesmo, confesso, são as crônicas! Eu, menina e adolescente tímida que fui, sempre observei muito mais do que falei, e creio que isso me fez ver o mundo daquele jeito que só cronista vê, e faz o pequeno virar grande, como se mágica fosse. Hoje eu sei que foi o Rubem Braga (com sua crônica sobre a menininha negra que comemora o aniversário com um mini bolo e velinha num restaurante simples com seus pais) que me fez virar cronista. Lembro-me de ler o texto pela primeira vez com minha mãe, Beatriz, excelente professora de português, que me ensinou a escrever bem, e um dia me levou para ouvir meu mestre José Saramago. No tocante texto de Rubem, a singela festa de aniversário da menina vira um profundo festival de delicadeza, carinho, gestos amorosos e permanência.

“Poxa, mas por que você escreve crônica”? Um dia eu ouvi essa linda frase, seguida de um “crônica não é atemporal!”. Não? Sério? Esse cara não sabia do que ele estava falando, obviamente! E o Verissimo? E o próprio Rubem Braga? E o louco do Nélson Rodrigues? E a minha misteriosa xará, a Lispector? E a Cecília Meirelles, que, pouca gente sabe, mas também era cronista? Ora, faça-me o favor, meu querido! A crônica é um dos instrumentos mais poderosos da literatura: não só registra um momento, sob a ótica delicada do observador cuidadoso, como torna aquele momento imortal, atemporal, mas isso para mim é tão óbvio, que toda vez que lembro desse comentário imbecil, tenho vontade de voltar no tempo e jogar um livro do Rubem Braga na cara deste indivíduo! O cara que faz boa crônica tem uma capacidade tão gigantesca de tocar o leitor, e com ele interagir, que é difícil traduzir em palavras (mesmo para o melhor dos cronistas!). Eu escrevo há doze anos para sites literários, e sempre recebi comentários muito emocionados de leitores, que se diziam identificados com as situações que eu relatava, aquelas situações aparentemente pequeninas, que têm significados gigantões. Com a crônica eu aprendi a ver melhor, aprendi a tirar de mim angústias, aprendi a homenagear com palavras pessoas conhecidas e desconhecidas. Com a crônica eu aprendi a ser escritora. Aprendi que a vida tem um zilhão de “pequenas felicidades certas” (como um dia escreveu Cecília Meirelles em uma de suas crônicas) que não sabemos apreciar. Assim, cabe ao cronista vir e nos sacudir dizendo, “Meu amigo, dá uma olhadinha ao teu redor, pode ser interessante também!”.

Minha primeira crônica (publicada em dois diferentes veículos on-line em 2003) se intitulava “A valsa das aleluias”, e ali eu contava um pouco sobre um grupo muito querido de quatro estudantes, as minhas primeiras alunas de língua inglesa. A prova de que a crônica é imortal é que até hoje, passados 12 anos da época que escrevi o texto, minhas alunas, hoje mulheres feitas, lembram-se dessa bela homenagem que a elas ofereci.

Assim, minha querida Mary, peço-te licença (tu, a poeta mais perfeita que conheço!) para usar a tua frase para resumir a essência de uma boa crônica: “o sempre é hoje, e ponto”.

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