Literatura em movimento 1 – Novos autores brasileiros

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

O outono chegou, com aquelas obviedades que lhe são peculiares, mas que eu amo: tempo mais fresco, luminosidade diferente, crepúsculos de tirar o fôlego e a proximidade da segunda melhor estação do ano, o inverno.

Todo ano o outono me representa muita vontade de sentar e escrever. Este ano, eu continuo tendo muita vontade, mas pouco tempo. A “vida real” anda me consumindo muito, e, assim, não me tem sobrado muito tempo para falar aos meus leitores. O que me deixa bastante triste.

O que me deixa feliz, por outro lado, é que neste ano meu querido outono veio também com muito boa literatura (não feita por mim, infelizmente…!). Decidida a pelo menos duplicar minha quantidade de leituras regulares, comecei com tudo: descobri o autor Raphael Montes, um carioca de vinte e seis anos que é a grande promessa da literatura brasileira de sua geração e destes tempos horrorosos que estamos vivendo, no qual as pessoas andam pensando que postagens frívolas e fúteis nas redes sociais são literatura. Dá-me pena.

Raphael está sendo muito lido no Brasil e agora também tendo suas obras traduzidas no exterior. Bravo! Recebeu aval até de Scott Turow, conhecido autor de best-sellers nos Estados Unidos há décadas. A prosa de Raphael Montes é enquadrada como policial/mistério. Eu a vejo muito além disso, ou seja, de meras tramas sobre crimes e suas soluções. O autor foi capaz de traçar um perfil psicológico do protagonista de seu “Dias Perfeitos” com imensa e peculiar maestria, compondo uma estrutura narrativa de dar inveja aos grandes autores da literatura universal. Sempre atento a detalhes estilísticos e referências culturais perspicazes, e mergulhando fundo na alma de seus personagens, é capaz de magnetizar leitores de todas as faixas etárias. Em minha família, o lemos eu, meu marido, meu filho e meus irmãos. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente na feira do livro do Colégio Miguel de Cervantes em São Paulo, em final de abril deste ano. Acompanhada de meu irmão Cassiano, que comigo edita o PáginaDois, com Raphael trocamos algumas ideias sobre literatura e o mercado editorial no Brasil. Foi uma excelente experiência! O jovem autor foi extremamente receptivo e simpático. Isso após dar uma palestra aos adolescentes do Ensino Médio da escola, dentre eles meu filho Vito, que adorou o livro, bem como a maioria da plateia composta por seus colegas, que “bombardearam” Raphael, muito entusiasmados e curiosos, com perguntas muito bem colocadas e pertinentes. Bonito e emocionante ver jovens tão interessados assim em um livro, em dias como estes, repito, de tanta valorização de informações inúteis e sem nenhum valor cultural.

Três de meus conterrâneos, os gaúchos Michel Laub, Altair Martins e Luisa Gleiser, também me cativaram nos últimos tempos. Os dois primeiros já conhecia e deles já havia lido algumas obras, mas especialmente “A maçã envenenada”, de Laub, e “Enquanto água”, de Altair me fizeram ter certeza de que valem muito a pena ser lidos. A jovem Luisa Gleiser, foi uma gratíssima surpresa para mim: hoje com apenas 23 anos, recebeu aos 19 o Prêmio SESC de Literatura em 2010, por seu genial “Contos de Mentira”, que me pescou pelo criativo título, e me prendeu pela novidade e exclusividade de sua prosa .

Michel Laub é um autor da minha geração, e sobre ela escreve com domínio e maestria. Fala de situações que vivi e experimentei, e conta bastante também da minha amada Porto Alegre nas décadas de 80 e 90 do século passado, que me traz lembranças mais que especiais. Ler Laub é como assistir um filme da minha infância e da minha adolescência narrado por um velho amigo. Nada pode trazer mais conforto. Já Altair Martins surpreende a cada linha em seus magníficos contos, que têm como elemento unificador a força poética da água. É de tirar o fôlego e umedecer os olhos do início ao fim. Luisa Gleiser, por vez, com toda sua juventude e capacidade inovativa única, deixou-me boquiaberta: usando uma prosa de ritmo rápido, mas leve e sem nenhuma pretensão em ser forçadamente intelectual, consegue falar de modo profundo de sentimentos, sem ser óbvia e aguada. Bravo, guria!

Assim, queridos leitores, mais que recomendo todos esses jovens autores, que além de tudo foram vencedores de prêmios literários no Brasil e em outros países. Vamos tentar ler muito além da “literatura” das redes sociais, começando hoje mesmo, por que não?

Aguardem a próxima parte deste relato de experiências literárias, em breve!

Obrigada pela leitura!

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