Ornette Coleman (1930 – 2015)

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por Cassiano Rodka

Lembro perfeitamente da primeira vez em que escutei o som muito peculiar do Ornette Coleman. Eu era adolescente e estava descobrindo o jazz através dos discos do meu pai. Um belo dia, resolvi ouvir um álbum do tal do músico. Na época, eu curtia Chet Baker, Ella Fitzgerald e John Coltrane, um jazz mais melódico e tradicional. Quando pus o disco para rodar, eu fui pego completamente de surpresa: um saxofone barulhento berrava as linhas melódicas, o ritmo da música variava muito e os músicos pareciam se desencontrar propositalmente, cada um tocando algo muito seu para depois se reencontrarem numa linha melódica final. O saxofone de Coleman conversava com o ouvinte, não era exatamente algo harmônico, era mais como se ele estivesse contando uma história. As notas, muitas vezes, eram dissonantes. Tinha uma certa atitude roqueira naquele som. E eu curti demais.

Desde então, mergulhei na rica discografia do músico e me deparei com alguns álbuns que considero clássicos subversivos do jazz. Com a recente perda do músico, resolvi sentar e fazer uma lista dos discos dele que considero essenciais.

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O álbum mais representativo do som do saxofonista é o seu terceiro, “The Shape of Jazz to Come”, de 1959. Nele, percebemos várias características que seriam recorrentes na obra de Coleman, como a falta de um pianista, a quebra de ritmos, a dissonância e as melodias “faladas”. O músico deixava claro que estava à procura de um novo som.

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O novo som que o saxofonista buscava ganhou nome com o lançamento de “Free Jazz” em 1961. Um novo subgênero do jazz estava criado. Em um improviso de quase 40 minutos, o músico mostra as diversas nuances de uma nova forma de fazer música, um improviso coletivo, livre de ritmos, livre de escalas. O álbum foi controverso na época, mas hoje é considerado um marco do jazz.

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Um experimento interessante veio com o disco “Science Fiction”, de 1972, que mesclava o free jazz com sons espaciais. Nele, Coleman criava uma versão futurista de seu som, resultando em canções com tom cinematográfico e com o pé no avant-garde. Uma novidade foi a inclusão dos vocais da cantora indiana Asha Puthli em duas faixas, fato até então inédito no catálogo do músico. A faixa-título também ganhou voz através de um texto declamado pelo poeta nova-iorquino David Henderson enquanto o choro de um bebê (e de vários saxofones) soa ao fundo.

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A partir do final dos anos 70, o saxofonista montou uma banda chamada Prime Time com quem compôs vários discos de jazz-funk. O grupo incluía guitarras e baixo elétrico, aproximando o jazz de Coleman do rock. A estreia do grupo em disco foi no ótimo “Dancing in Your Head”, onde os músicos tocavam dentro de uma nova teoria criada por Ornette Coleman que ele chamava de harmolodics. A ideia era cada integrante da banda trazer suas influências musicais e acrescentar aos improvisos sem preocupação com os ritmos e melodias que os outros estavam tocando. O resultado é surpreendentemente coeso e Coleman creditava isso a uma consciência coletiva do grupo.

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Nos anos 80, o músico fez várias parcerias e focou num som um pouco mais acessível. Dessa época, eu gosto muito do disco “Virgin Beauty”, de 1988, gravado com o Prime Time e com participação do guitarrista do Grateful Dead, Jerry Garcia. As músicas possuem baterias eletrônicas, deixando o som mais reto, e os arranjos exploram bastante a sonoridade do funk, resultando em músicas mais dançantes.

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O último lançamento oficial de Coleman foi o disco ao vivo “Sound Grammar”, de 2006. Gravado com seu novo quarteto, que incluía seu filho Denardo na bateria e dois baixistas, Greg Cohen e Tony Falanga, o disco apresentou material inédito do músico após dez anos sem novidades. O álbum garantiu a Ornette Coleman o Pulitzer Prize de música em 2007, sendo ele o segundo de apenas dois jazzistas a ganharem o prêmio (o primeiro sendo Wynton Marsalis em 1997).

Ornette Coleman foi um inovador e sempre acreditou que a união entre os músicos é o que fazia a magia acontecer. Como declarou em uma entrevista: “Eu não quero que eles me sigam. Quero que sigam a si próprios, mas que estejam comigo.”

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