Christopher Lee (1922 – 2015)

por Pedro Cunha

Na última quinta-feira Alice respirou aliviada. Poderia tomar seu chá mais tranquila. A família Harker sentiu um arrepio no pescoço, mas dormiu em paz, como não conseguia há muito tempo. James Bond sentou sozinho num bar e pediu um Martini (batido, não mexido) para brindar sozinho e em silêncio. Willie Wonka talvez tenha ficado triste, mas não deixou transparecer. Obi-wan Kenobi e Anakin Skywalker sentiram uma perturbação na Força e Gandalf, fumando seu cachimbo, sentia-se verdadeiramente triste pela partida para o outro lado do mar daquele que, durante muito tempo, fora seu mentor e amigo.

O que todos esses personagens têm em comum? Todos eles, em algum momento, foram inimigos de Christopher Lee. O ator londrino morreu quinta-feira, dia 11 de junho, aos 93 anos de parada cardiorrespiratória. Sir Christopher Lee foi um ator fantástico e com uma quantidade enorme de serviços prestados às artes dramáticas. Seu currículo no IMDB conta com nada mais do que 278 trabalhos creditados entre filmes, telefilmes, séries, animações e videogames. Lee, que estava muito bem de saúde, trabalhou muito na última década e acabou tornando-se um ícone da cultura pop, em especial em função de suas atuações como o Conde Dookan na trilogia mais recente de “Star Wars” e como o mago Saruman nas trilogias “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”.

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Lee como Drácula 

A carreira de Lee começa na Inglaterra no final dos anos 1940 e ele vai encontrar destaque interpretando os monstros clássicos em filmes do diretor Terence Fisher. Ele foi o monstro de Frankenstein em “A Maldição de Frankenstein” (The Creature, 1957) e notabilizou-se como o Conde Drácula em “O Vampiro da Noite” (Dracula, 1958), tendo ainda vivido uma Múmia em “A Múmia” (The Mummy, 1959). O sucesso desses filmes, em especial de “O Vampiro da Noite”, fez com que Lee voltasse ao papel do conde sugador de sangue da Transilvânia muitas vezes nos anos seguintes.

Talvez tenha sido em função dos monstros do fim dos anos 1950 que Christopher Lee iniciou uma longa linhagem de vilões por ele vividos. “A Face de Fu Manchu” (The Fu Manchu Face, Don Sharp, 1965) deu origem a uma série de cinco filmes onde Lee interpretava o personagem-título, um soturno e enigmático supervilão oriental. Em 1973 ele participa de “Os Três Mosqueteiros” (The Three Musketeers, Richard Lester), mas é claro que não foi como um dos quatro mocinhos do filme mas sim como Rochefort, o mortal espadachim que é o arqui-inimigo de D´Artagnan. O filme também teve sequências e Lee voltou ao papel.

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Francisco Scaramanga, o Homem da Pistola de Ouro 

Em 1974 Lee viveu um dos seus vilões mais icônicos durante muito tempo. Ele foi Francisco Scaramanga, a segunda parte do título em “007 Contra o Homem da Pistola de Ouro” (The Man With the Golden Gun, Guy Hamilton). O vilão era o assassino mais mortal do mundo e deu muito trabalho para Roger Moore, sendo até hoje um dos vilões mais lembrados da série 007.

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Dr Catheter, o cientista que queria dissecar Gizmo! 

Nos anos 1980 e 1990 Lee passou pelo processo de “desimportância” pelo qual passam a maioria dos atores mais velhos, já que os papeis para eles são poucos e em geral secundários. O ator manteve o ritmo de muitos trabalhos, fazendo várias pontas, participações em seriados e em telefilmes, em geral como o vilão. Repetiu várias vezes o papel de Drácula e fez o papel do próprio Diabo em alguns filmes. Vale destacar o cientista louco que ele faz em “Gremlins 2: A Nova Geração” (Gremlins 2: The New Batch, Joe Dante, 1990).

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Saruman, O Branco: a mudança na carreira 

A virada do século trouxe uma virada também para o ator britânico. Em 2001 ele foi a escolha de Peter Jackson para viver o mago Saruman, um dos personagens mais importantes de “O Senhor dos Aneis: A Sociedade do Anel” (The Lord of the Rings: The Fellowship of The Ring, Peter Jackson, 2001), papel que repetiu com sucesso nas duas sequências, “O Senhor dos Aneis: As Duas Torres” (The Fellowship of The Ring: The Two Towers, 2002) e “O Senhor dos Aneis: O Retorno do Rei” (The Lord of The Rings: The Return of The King, 2003). Os filmes de Jackson transformaram o mundo de Tolkien em um elemento da cultura pop e Christopher Lee passou a ser figurinha carimbada em encontros e convenções. Como se não bastasse, em 2002 o ator entra para outra mitologia geek/nerd ao viver o Conde Dookan/Darth Tyrannus em “Star Wars: Episódio II – Ataque dos Clones” (Star Wars: Episode II – The Attack of The Clones, George Lucas, 2002) e “Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith” (Star Wars: Episode III – The Revenge of The Sith, George Lucas, 2005). Na carona dos filmes Lee ainda fez as vozes tanto de Saruman quanto de Dookan em inúmeros videogame, animações e outras versões dos mesmos personagens, tendo voltado a usar o cajado de Saruman para a trilogia “O Hobbit”, protagonizando uma das cenas de batalha mais legais de “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” (The Hobbit: The Battle of The Five Armies, Peter Jackson, 2014).

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Conde Dookan, o aprendiz do Imperador 

A aura de cult de Christopher Lee ainda aumentaria em função dos vários trabalhos dele com o badalado diretor Tim Burton. Lee fez o burgomestre em “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça” (Sleepy Hollow, Tim Burton, 1999) e o pai de Willie Wonka na refilmagem de Burton de “A Fantástica Fábrica de Chocolates” (Charlie and The Chocolate Factory, 2005). Sim, ele é aquele dentista tenebroso, provando que ainda sabe fazer o papel de vilão ou monstro. Ainda com Burton ele fez vozes em “A Noiva Cadáver” (Corpse Bride, 2005) e do dragão Jaguadarte, o inimigo de Alice na versão de Burton do clássico de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, 2010).

Sir Christopher Lee (sim, ele recebeu o título de nobreza no Reino Unido) além de ator também se interessava por música, em especial pelo Heavy Metal. O site Whiplash disponibilizou toda a produção musical de Lee aqui.

Por essas e por outras que eu não consigo ficar triste com a morte de Christopher Lee. O cara morreu aos 93 anos, bem de saúde. Viveu uma vida plena, trabalhando até o final. Teve sucesso em sua profissão e ficou conhecido e respeitado fazendo aquilo que gostava. Não, eu não vou ficar triste. Afinal, como eu li na internet dia desses, Christopher Lee não morreu. Ele viveu. E como!

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