Mad Max: A Estrada da Fúria

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por Pedro Cunha

É difícil começar a escrever sobre “Mad Max: Estrada da Fúria” (Mad Max: Fury Road, George Miller, 2015) sem usar superlativos, exclamações ou qualquer um dos vários bordões do filme. Por sinal, não consegui. Aliás, nem resisti, e decidi começar pelo título mesmo para me livrar logo e poder entregar meu texto, brilhante e cromado (ops!).

George Miller é um diretor australiano de 67 anos que apareceu no final dos anos 70 com “Mad Max” (1979). O filme lançou um jovem Mel Gibson ao estrelato e deu início a uma das franquias de ação mais importantes dos anos 80, que seguiu com “Mad Max 2: A Caçada Continua” (Mad Max 2: The Road Warrior, 1981) e “Mad Max Além da Cúpula do Trovão” (Mad Max Beyond Thunderdome, 1985). A trilogia Mad Max nos apresenta um dos ícones dos anos 80, o anti-heroi Max Rockatansky, o policial rodoviário que se torna o anti-herói das estradas após perder o parceiro, a mulher, o filho, o cachorro e tudo mais que tinha para os bárbaros da estrada num mundo pós-apocalíptico onde uma guerra nuclear destruiu as estruturas políticas, sociais e governamentais e criou um mundo onde os mais fortes sobrevivem matando e saqueando em busca de gasolina.

Mad Max foi mais do que “mais uma” franquia de ação nos anos 80. O visual pós-apocalíptico da franquia de George Miller definiu em grande parte o que hoje vemos como a identidade visual dos anos 80. Os cabelos, ombreiras, couro e adereços dos filmes podem ser vistos como uma versão “alta costura” de tudo que hoje consideramos como característico dos anos 80.

George Miller ainda dirigiu dois bons filmes, o divertido “As Bruxas de Eastwick” (The Witches of Eastwick, 1987) e o tristíssimo “O Óleo de Lorenzo” (Lorenzo´s Oil, 1992). Depois disso a carreira do cineasta ficou marcada pelas suas incursões no mundo animal: Miller produziu o premiado “Babe, Um Porquinho Atrapalhado” (Babe, Chris Noonan, 1995) e produziu e dirigiu a nem tão badalada sequência “Babe – O Porquinho Atrapalhado na Cidade” (Babe – Pig in Town, 1998). Também foram dirigidas por Miller as animações “Happy Feet: O Pinguim” (Happy Feet, 2006) e “Happy Feet 2: O Pinguim” (2011) (Sim, ambos os filmes tem o mesmo subtítulo em português.).

Um quarto filme da franquia Mad Max é esperado há bastante tempo. Desde 2003 há debates nos fóruns do IMDB sobre Mad Max 4 e há registros já de 2007 onde o título “Mad Max: Fury Road” aparece. Colin Gibson, o designer responsável por todos os sensacionais carros do filme, já afirmou em entrevistas que Miller apareceu para ele com os primeiros storyboards ainda em 2000… Talvez essa segunda década do século XXI, onde reboots, franquias e refilmagens tem sido tão lucrativos, tenha despertado o interesse dos estúdios em investir nesse projeto, do qual Miller já cuidava há bastante tempo. O interessante é que a franquia, o personagem e todos os copyrights de Mad Max não pertencem a estúdio nenhum, e sim ao próprio George Miller, que em função disso tem liberdade total para cuidar dos personagens como ele, o criador, acha que devem ser cuidados e não se sujeitar a caprichos dos estúdios. Duas decisões importantes foram tomadas já no período de produção do filme: a primeira situa “Fury Road” não como uma seqüência nem como um reboot de Mad Max. Nas palavras do próprio diretor, ele decidiu revisitar aquele universo, o que podemos comprovar pelas inúmeras referências aos filmes anteriores. A segunda dizia respeito ao casting do papel-título. Desapontando fanboys e causando a ira dos haters, Mel Gibson não voltou a encarnar Max Rockatansky. O astro australiano, amigo de Miller, teria dito a ele que não tinha o menor interesse em voltar a vestir o casaco de couro de uma manga de Max e que queria dedicar-se às suas próprias produções. Essas duas decisões (não ser nem sequência nem reboot e estar “livre” de Mel Gibson) contribuíram para que George Miller conseguisse fazer o filme como queria. E que filme.

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Tom Hardy é o novo Max: dia difícil 

O roteiro de “Mad Max: Fury Road” talvez possa ser escrito em quatro ou cinco páginas. E isso, no caso, não é ruim. O filme promete, desde o primeiro trailer, ação. E o que ele entrega é ação desenfreada, adrenalina no limite o tempo todo. São pouquíssimos os diálogos e cada personagem fala o mínimo possível. O mais incrível é que isso não torna o filme raso ou incompreensível (aprenda Michael Bay, APRENDA!!). Somos guiados pelo mundo louco pós-apocalíptico do outback australiano sem explicações, e ainda assim compreendemos tudo. Roteiro e direção foram extremamente felizes nesse sentido. Não precisamos de longos diálogos descritivos auxiliares para entender, por exemplo, o culto a Immortan Joe e a insana religião que ele lidera. O que nos interessa disso é mostrado, não descrito, como o bom cinema sabe fazer. A diferença é que é mostrado num ritmo frenético. Miller desafia o cânone do cinema de ação do século XXI, onde as cenas são desaceleradas para que os mínimos detalhes e gotas de sangue possam ser vistos. Não há built cam em “Mad Max: Estrada da Fúria”. Bem pelo contrário: Miller acelera algumas cenas, coisa que ele já fazia nos filmes anteriores da série, para colocar ainda mais velocidade na ação do filme. O diretor também optou por utilizar o mínimo possível de computação gráfica na produção. As perseguições de carro são, em sua grande maioria, reais e não filmadas com modelos. Com exceção da cena da tempestade de areia, não se enxerga os efeitos especiais como protagonistas, só adicionados como pós-produção nas explosões e outras coisas do gênero. O diretor e o seu parceiro, o designer de produção Colin Gibson, afirmaram em entrevistas que já tinham conseguido tudo o que podiam com a computação gráfica com porcos falantes que mexiam os lábios e pinguins que sapateavam. Agora era a hora de inovar voltando ao básico.

O design de produção do filme é muito caprichado. Cada um dos carros é uma obra de arte. Mais uma vez podemos perceber aqui o esmero de Miller. Já existem imagens desses veículos desde 2012 circulando por aí. Nenhum deles foi feito as pressas e todos eles são 100% funcionais. Carcaças misturadas, carros em cima de chassis de carros maiores, peças reutilizadas com funções diferentes… tudo que está em cena é justificado, no cenário pós-apocalíptico de Mad Max. O próprio Gibson justifica o porquê dos carros retrôs: não há eletrônica nesse mundo, e tudo que dependesse eletrônica tornou-se inútil. A mecânica precisa ser simples: um carro precisa poder ser arrumado com uma chave inglesa e algumas tiras de borracha, nas palavras do designer. O clássico Interceptor V-8 de Max dá as caras já no início do filme e simbolicamente, durante o filme, tem também seu ritual de passagem. Cada carro tem uma história e um nome, e eles são fantásticos, como “Gigahorse”, “Peacemaker”, “Prince Valiant” ou o insano “Doof Wagon”, o caminhão-motivador que conta com tambores e um homem cego e desfigurado que toca uma guitarra que lança chamas suspenso por cabos (sim, você leu direito. E isso é tão absurdamente legal quanto parece.). Tudo é sujo e enferrujado e nada é inteiro. Por incrível que pareça, podemos perceber um capricho enorme nessa pilha de sucata enferrujada.

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Charlize Theron sem um braço dirige e atira melhor do que eu, você e o Tom Hardy 

Tudo isso poderia dar errado se os protagonistas não conseguissem encantar. E isso, felizmente, não acontece. Tom Hardy e Charlize Theron, dois atores reconhecidamente talentosos, mandam bem demais como Max Rockatansky e Imperator Furiosa. Ainda há quem reclame que o Max de Tom Hardy fala pouco e quase que só grunhe o filme inteiro. Para quem acha que isso é ruim eu recomendo assistir novamente os primeiros filmes da série, em especial o segundo, para perceberem que é o personagem que fala pouco. O Max de Hardy é, na verdade, a escada para Furiosa. Ela é a personagem principal do filme e, sinceramente, não vejo problema algum nisso. Theron, que já ganhou Oscar (pelo sensacional “Monster: Desejo Assassino” (Monster, Patty Jenkins, 2003) e não precisa provar nada para ninguém assume o papel de uma mulher durona, uma das poucas pessoas com a honra de poder dirigir a “War Rig”, o caminhão de guerra da tribo de Immortan Joe. O filme trata, basicamente, da busca de Furiosa por redenção, tentando libertar as “esposas parideiras” com as quais Immortan Joe buscava por uma “descendência pura”. As mulheres, ali, ou eram tratadas como gado, divididas entre as “reprodutoras” e as “fornecedoras de leite”. Numa sociedade que brutalmente oprimia as mulheres, Furiosa teve que se masculinizar ao extremo para ser respeitada. Furiosa tem os cabelos curtos e usa calças e coturnos, como os homens. A única “maquiagem” que ela usa é uma mancha de graxa no rosto. O próprio título que ela usa, “Imperator”, é um título masculino que não sabemos como ela conquistou. Num mundo de homens Furiosa tem que ser melhor, mais rápida, mais agressiva e mais inteligente do que eles para buscar a redenção sabe-se lá por quais pecados, libertando as esposas de Immortan Joe. Max aparece no meio do caminho e poderia ter sido um inimigo. A contingência os torna aliados enquanto os objetivos de ambos convergirem, e a tensão e desconfiança constante entre eles está lá a todo momento. O terceiro personagem que se junta nessa improvável cruzada é Nux, vivido pelo irreconhecível Nicholas Hoult (O Fera nos dois últimos filmes da franquia dos X-Men). Nux é um meia-vida, um kamicrazy, um dos guerreiros de Immortan Joe cujo objetivo é morrer gloriosamente para chegar ao Valhalla brilhante e cromado e desfrutar de uma McRefeição com Acqua-Cola. Para aqueles como Nux, morrer na estrada a serviço de Immortan Joe não só é o destino como é a glória maior que poderia ocorrer. Nux falha três vezes, sendo a última delas aos olhos do próprio Immortan Joe, que chama-o de “medíocre”. Tendo fracassado no intento de imolar-se pelo chefe, a vida de Nux ressignifica ao encontrar um acolhimento quase que materno entre as noivas em fuga de Immortan Joe. Ajudar àquelas que lhe deram carinho e colo como ele nunca havia recebido torna-se então o novo objetivo do kamicrazy fracassado, e ele se empenha na nova missão.

Hoult, Hardy e Theron seguram o filme tranquilamente enquanto os inimigos são caricatos. O próprio Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne, que viveu o antagonista Toecutter no primeiro Mad Max) é a suprema caricatura do vilão, assim como seu filho “perfeito”, Rictus Erectus, e os seus parceiros/irmãos, “People Eater”, o governante de Gas Town, e “Bullet Farmer”, o dono da Bullet Farm. A falta de profundidade dos vilões do filme acaba não tendo importância em função da velocidade, da ação constante e de tudo aquilo que fica subentendido.

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Immortan Joe e seu filho, Rictus Erectus: acredite, ele arranca a tampa de um motor com os braços! 

“Mad Max: Estrada da Fúria” será, com certeza, esnobado na temporada de premiações. Filmes de ação tem poucas chances, mas o filme merecia indicações em Efeitos Visuais, Cabelo/Maquiagem, Design de Produção e sim, nas categorias de Diretor e Filme também. Dificilmente o filme seja lembrado em qualquer uma das categorias não-técnicas, infelizmente. É difícil não se apaixonar por um filme que mistura cultura pop, mitologia nórdica e referências aos anos 80 enquanto carros explodem em cenas belíssimas no meio do deserto. Se você ainda não viu, corra. E cuidado para não se empolgar e acabar levando multa de trânsito na volta para casa!

PS: O filme me empolgou tanto que vou escrever um segundo texto, me embranhando um pouco mais na trama, em alguns significados e em toda a discussão sobre “feminismo” que sucedeu o lançamento do filme. Aguarde!

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