Para Sempre Alice (Still Alice, Richard Glatzer e Wash Westmoreland, 2014)

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por Pedro Cunha

Imagine que você tem a vida ideal. Alice Howland tinha. Ela era um exemplo de vitória do sonho americano. Esposa exemplar de um médico bem sucedido tem uma filha formada em direito e um filho estudando medicina. A terceira filha é a “rebelde”, que quer ser atriz e a quem a mãe tenta convencer a cursar uma faculdade para buscar uma carreira segura. Não bastasse a família bem estruturada, Alice também é extremamente bem sucedida na vida profissional. Cientista e pesquisadora, ela leciona linguística na tradicional universidade de Columbia, em Nova Iorque.

E se de uma hora para a outra você ficasse sabendo que iria perder tudo o que lhe era mais precioso?

“Simplesmente Alice” conta a história de uma linguista de 50 anos diagnosticada com Alzheimer precoce e a sua luta conta o imparável avanço da doença. Assistimos a degradação da mente de Alice, aquilo que ela sempre mais prezou, e como isso afeta, corrói e destrói mesmo os seus relacionamentos mais próximos, como os que ela tinha com o marido e os filhos.

Richard Glatzer e Wash Westmoreland contam uma história triste adaptada por eles mesmos do livro homônimo de Lisa Genova. A opção dos diretores/roteiristas é apresentar a história pelo ponto de vista da própria Alice e eles são muito felizes nesse intento. Alguns detalhes sutis chamam a atenção, como a utilização constante do primeiro plano direto em Alice, deixando tudo mais o que está em cena desfocado, para transmitir a sensação de desconforto e desacomodação da personagem. Da mesma forma temos a presença constante de espelhos, que Alice busca constantemente e podemos entender como uma metáfora pelo fato dela estar perdendo a si própria e precisar constantemente se reencontrar e se identificar. O roteiro tem algumas dificuldades de manter a linearidade e algumas passagens de tempo mal explicadas, mas preferi entendê-las como propositais, mais uma tentativa de nos colocar no ponto de vista de uma personagem sofrendo do Mal de Alzheimer. Os diretores certamente quiseram passar todo o peso de quem sofre de uma doença degenerativa, assunto que eles entendem, uma vez que Glatzer faleceu no último dia 10 de março de Esclerose Lateral Amiotrófica, uma pesada doença degenerativa, e que Westmoreland era seu marido, tendo acompanhado-o até o final. A doença de Glatzer (a mesma do físico Stephen Hawking) pode ser entendida como o inverso da doença de Alice, uma vez que as funções cerebrais permanecem intactas enquanto o corpo passa por uma degeneração severa, ao passo que no Alzheimer o que ocorre é o inverso.

O filme é centrado em Alice e a escalação de Julianne Moore para vivê-la não poderia ter sido mais feliz. A atriz de 55 anos vive talvez o momento mais brilhante de sua sólida carreira e “Para Sempre Alice” rendeu sua quarta indicação ao Oscar, dessa vez com direito a levar a estatueta para casa pela primeira vez. Moore havia sido indicada pela primeira vez em 1998 como Melhor Atriz Coadjuvante por “Boogie Nights” (Idem, Paul Thomas Anderson, 1997) e em seguida em 2000 como Melhor Atriz por “Fim de Caso” (End of Affair, Neil Jordan, 1999). Em 2003 ela conseguiu ser indicada tanto como Melhor Atriz por “Longe do Paraíso” (Far From Heaven, Todd Haynes, 2002) quanto como Melhor Atriz Coadjuvante por “As Horas” (The Hours, Stephen Daldry, 2002). Julianne Moore está com 55 anos e encontrou em Alice Howland uma personagem em busca de uma grande atriz. Uma atuação caprichada e rica em detalhes consegue sutilmente nos mostrar a decadência de Alice, que é mental, mas se reflete claramente no físico. A postura e as expressões de Alice vão mudando durante o filme. De uma professora respeitada da Universidade de Columbia a uma pessoa que mal consegue balbuciar palavras soltas em menos de um ano, a espiral decadente torna-se pior pelo fato de Alice ser uma intelectual esclarecida o suficiente para saber como era o caminho que seguiria e o quão irreversível esse caminho era.

As relações familiares vistas pelo paciente são a outra tônica do filme, a começar pela relação de Alice com seu marido, cuja carreira está consolidada e que tem uma dificuldade muito grande de acompanhar o que está acontecendo com a esposa, que ele tanto admirava. A impressão que fica no filme é que o personagem de Alec Baldwin é bastante insensível e até duro com a esposa. A minha leitura, mais uma vez, é a de que esse é o ponto de vista da própria Alice, que não lembra de muitas coisas, que se confunde no tempo e que não consegue ter a dimensão do quanto o seu problema afeta todos ao seu redor. É interessante analisar a mudança na relação de Alice com suas duas filhas. Entendemos que ela sempre teve uma ligação mais forte e mais tranquila com a filha mais velha, enquanto a relação com a caçula era tumultuada pela insegurança da mãe de querer uma carreira “mais segura” para a filha enquanto essa preferia seguir seus próprios caminhos. A partir do diagnóstico podemos perceber um gradual afastamento da primogênita, uma vez que a relação das duas era calcada pela intelectualidade. A moça, advogada, mantinha um contato constante com a mãe através de um jogo de palavras cruzadas pelo telefone celular. Na medida em que o intelecto de Alice se deteriora, a filha e a mãe acabam se afastando. Ao mesmo tempo a filha mais nova fica cada vez mais importante, e é interessante perceber que ela consegue se aproximar mais da mãe na medida em que Alice vai se despindo do seu intelecto e ficando cada vez mais emocional. A relação das duas torna-se mais próxima do que jamais fora. Kristen Stewart, a eterna Bella da Saga Crepúsculo, é uma grata surpresa no papel de Lydia Howland, a filha mais nova.

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O trabalho de fotografia e edição em tornar borrado e sem definição o mundo de Alice foi sensacional 

“Para Sempre Alice” é um filme triste e bastante incômodo, já que o Mal de Alzheimer é um problema que pode acometer a qualquer um de nós ou de nossos parentes, mas ao mesmo tempo é uma lembrança do quão sólidas ou fugazes podem ser as pontes que construímos com outras pessoas durante nossas vidas.

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