Pequena sinfonia em amor maior

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

“O meu erro foi entregar a minha vida a este mundo que não encosta com o meu”.
(Mia Couto em Vozes Anoitecidas)

O que foi feito do mundo?

Essa é a pergunta que está em mim há vários dias. Ela pediu hoje para sair de mim e vir deitar-se no papel. Está cansada. Desiludida. Abalada. Cansada de permanecer sem resposta. Desiludida porque ninguém se importa em respondê-la. E abalada, porque teme que, se respondida, venham respostas cheias de ódio, preconceito e intolerância.

Levamos tanto tempo para construir os conceitos de tolerância e aceitação da diversidade (de raças, de credos, de sexos, de pensamentos), para destrui-los; sim, aniquilá-los tão rapidamente. Faça o teste, leitor: tente iniciar um assunto polêmico com seus conhecidos, ou amigos, ou por vezes até família. Ninguém mais quer debater pelo amor ao argumento consistente, pelo prazer de uma discussão bem elaborada. Não. Todos querem brigar. Xingar. Espernear. Gritar, por vezes. Meu pai me ensinou a nunca esperar nada de ninguém. Para nunca me decepcionar. A tarefa é árdua. O conselho, porém, é perfeito. O problema da humanidade atualmente é que talvez todos esperem atitudes e pensamentos específicos dos que os cercam, e se aqueles não correspondem às suas expectativas, ficam as criaturas furiosas, tais quais crianças mimadas.

Não sou especialista em sociologia, e nem em psicologia, mas doze anos como professora ensinaram-me a observar as pessoas, entender suas atitudes, seus comportamentos, suas dúvidas, suas angústias, seus bons e maus momentos. Entender que somos todos iguais por fora, mas muito diversos por dentro. Não viemos das mesmas famílias e nem dos mesmos lugares, não tivemos as mesmas experiências, não acreditamos nas mesmas coisas, não tivemos o mesmo tipo de educação, não gostamos das mesmas músicas, ou filmes, ou poemas. Ou, pode ser que sim. Em minha jornada como professora, encontrei algumas pessoas muito parecidas comigo, e várias outras bem diferentes de mim. Sempre procurei vibrar com as semelhanças e também com as diferenças, pois penso que aprendemos demais com o que é de nós diverso. Foi assim que me construí como mestra: ouvindo e respeitando; compartilhando e evoluindo. O meu microcosmos das aulas, creio eu, reflete o grande cosmos das relações sociais. Assim como os microcosmos de qualquer pessoa.

Hoje, no grande cosmos desta multicultural sociedade em que vivemos, podemos nos manifestar mais livremente do que nunca, o que é fantástico, principalmente em um país como o Brasil, que viveu sob a égide de uma ditadura tirana e inaceitável por longos vinte anos. Porém, o que está ocorrendo, em minha modesta opinião, é um extravasamento demasiado da parte ruim que há dentro de cada um de nós. Ninguém é perfeito. Houve um tempo em que costumávamos guardar nossos piores pensamentos e/ou julgamentos para nós mesmo. E aqui vou utilizar-me de um clichê, mas ele é inevitável: nossa vida digital intensa está nos transformando em pequenos (ou grandes) monstros de preconceito, ódio e intolerância. E esses comportamentos estão sendo inevitavelmente transferidos aos nossos filhos, sobrinhos, netos, alunos. Aos jovens. Não estou generalizando, entretanto temo que uma grande maioria de nós esteja sendo sugada (talvez sem retorno) por uma espiral louca e desenfreada de informações desencontradas, inventadas e sem origem, que surgem principalmente nas famigeradas redes sociais. Elas vieram para o bem, e acho que ainda podem fazer “o bem”, mas seus manipuladores não sabem mais como conduzi-las. Ali, vomitam-se ideias sem sentido a todo o momento. Ali, os seres humanos estão mostrando seus piores instintos. Aqueles que deveriam ficar guardados para sempre. Aqueles que em nada contribuem, a nós, adultos, jovens e crianças supostamente pensantes.

Mais amor? Não, não seria do meu feitio esse pensamento, no melhor estilo John Lennon: love and peace, my friends! Adoro os Beatles, mas sempre fui mais o Paul McCartney: carisma, criatividade e inteligência. Acho que querer que as pessoas se amem um pouco mais é pedir muito, e seria um pedido muito inocente. Talvez mais tolerância, mais aceitação, menos ódio. Acho que isso eu posso pedir. Não esperar. Mas pedir, acho que ainda é possível.

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