dEUS no SESC Pompeia, São Paulo

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Assistir o show de uma de suas bandas preferidas é uma experiência à parte. Não é apenas um concerto com boas músicas, é uma viagem sonora ao seu próprio passado.

Acompanho a carreira do dEUS desde que a banda lançou seu primeiro disco, “Worst Case Scenario”, em 1994. Desde que assisti o clipe de “Suds & Soda” no saudoso Lado B da Mtv, o grupo belga se instalou nas minhas prateleiras de discos e passou a ser parte da trilha sonora da minha vida.

20 anos se passaram, 7 álbuns foram lançados e a banda resolveu celebrar com uma coletânea dos seus melhores momentos e uma turnê. Qual não foi a minha surpresa ao saber que o Brasil havia sido incluído com uma data em São Paulo e outra em Recife (de volta ao Abril Pro Rock). Comprei ingresso assim que apareceu à venda e fiz minhas malinhas.

No dia do show, cheguei cedo ao SESC Pompeia para aproveitar as atrações do local e acabei topando com o pessoal da banda. Conversamos bastante e eles me liberaram para assistir a passagem de som. Fiquei curtindo sozinho na plateia enquanto a banda acertava os últimos detalhes das canções. “Como é o refrão mesmo de ‘Morticiachair’?”, pergunta o guitarrista Mauro Pawlowski. O vocalista Tom Barman responde com o trava-línguas: “She knows where she rolls when she goes for the doorknob” e todos os integrantes repetem mantricamente o refrão para ficar certinho pro show. Foi muito bacana espiar esse momento de ensaio, com os integrantes trocando ideias e treinando partes mais difíceis das músicas. De quebra, pude curtir duas músicas que não foram posteriormente incluídas no show: “Via” e “Serpentine”. Para completar, o baixista Alan Gevaert me lançou a oportunidade de escolher uma música pro setlist que não havia sido fechado ainda. Escolhi “Nothing Really Ends” e ele respondeu prontamente: “Vamos tocá-la e vai ser pra ti!”. Dizer que a noite começou bem é pouco.

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imagem: Cassiano Rodka

Chegada a hora do show, o grupo entrou pontualmente no palco com “Slow”, single do disco “Vantage Point”, com suas guitarras hipnóticas e vocais grandiosos de toda a banda. Do mesmo álbum, veio “The Architect”, um excelente animador de pista com seus ares de clássico do The Clash. “Constant Now” seguiu o clima dançante com seu riff funk e a galera foi se entregando ao som contagiante da banda. “Oh Your God” trouxe um pouco do peso do dEUS com Tom Barman declamando energicamente a letra até chegar no melodioso refrão. O vocalista e guitarrista, aliás, é um ótimo frontman, animando com facilidade o público e mandando simpaticamente um português bem falado (com sotaque de Portugal, onde eles costumam tocar).

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imagem: Cassiano Rodka

A belíssima “Instant Street” surgiu em seguida, um clássico do dEUS, uma canção que certamente faz parte de quem eu sou. Pode soar dramático, mas para mim é como se eu estivesse escutando o David Bowie tocando “Ziggy Stardust” ou o Lou Reed mandando “Perfect Day”. O final apoteótico da música ao vivo é uma experiência de uma intensidade única. Nada como uma banda com uma boa conexão musical.

Um dos singles mais peculiares do dEUS, “Fell Off the Floor, Man”, surge em seguida com sua mistura de rock progressivo com disco e verdadeiros espasmos punk. Um perfeito exemplo do tipo de música doida que a banda consegue lançar nas rádios belgas e, ainda assim, conseguir rotação. Viva a Bélgica! Com o guitarrista Mauro Pawlowski assumindo o vocal principal, a banda retorna ao experimentalismo rocker do primeiro disco na energética “Morticiachair”. Todos lembram do refrão direitinho, viva a passagem de som! “She knows where she rolls when she goes for the doorknob”.

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imagem: Cassiano Rodka

A acústica “Little Arithmetics” acalma os ânimos para logo depois abrir as portas do caos para o rock frenético de “If You Don’t Get What You Want” e o single mais recente, “Quatre Mains”, primeira faixa gravada em francês pela banda. A clássica “Hotellounge (Be the Death of Me)” é a primeira a ser cantada em coro pela maioria dos presentes. Segundo single do primeiro álbum da banda, a música ganhou um vídeo que também tornou-se um clássico na programação do falecido Lado B.

“Sun Ra” traz novamente o lado mais roqueiro da banda, com riffs pesados e muitos backings gritados, além de samples do jazzista que dá nome à música. Foi só eu escutar as primeiras notas de teclado de “Nothing Really Ends” para derramar umas lágrimas. Naquela noite, ela era para mim.

O set fecha com “Bad Timing”, um épico acústico que vai crescendo a cada minuto, ganhando guitarras, teclados e muitos vocais até chegar numa explosão musical que só o dEUS sabe fazer.

No bis, a banda retorna com mais um de seus singles esquisitos, a excelente “Theme from Turnpike”, com samples repetitivos e guitarras hipnóticas. Ao vivo, a banda criou um final instrumental que é acompanhado pelos gritos do guitarrista. Aliás, é um bom momento para dizer: ninguém grita tão belamente quanto Mauro Pawlowski. Logo em seguida, veio “Roses”, um punk lento de basicamente 3 acordes que mostra bem o quanto a banda consegue aliar com maestria melodia e barulho. O violinista Klaas Janzoons deixa claro aqui que, diferente do que se pode esperar, ele muitas vezes não é o responsável pela parte bonita da música, mas sim pela barulheira. Quando o caos melódico de “Roses” chega ao fim, Klaas já engata a linha de violino mais conhecida dos anos 90, “Suds & Soda”, o hit indie do grupo. Vendo que a galera já está completamente enlouquecida, Tom Barman começa a mexer seus braços no ar convidando todos a subirem. E de repente eu me vejo no palco cantando a música que, essencialmente, me levou até lá. Como se ela houvesse me seduzido para aquele exato momento, 20 anos depois, celebrando lado a lado com a banda e as pessoas que também compreendem aquilo que eu encontro no som do dEUS.

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