Manual poético de instruções para Maria

Manual Poético_P2.jpg
imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para minha amiga Marcella Marx, que corre sempre contra o vento.

Minha caríssima Maria,

Ouvi dizer que não gostas de ler regras, nem instruções. Saibas que assim eu imaginava, conhecendo-te como conheço. Lá se vão trinta e cinco anos. Espíritos poéticos não gostam de normas. Apreciam muito menos lê-las.

Tive assim a ideia de escrever-te um manual diferente. Carregado de poesia. O meu manual para ti, que abaixo segue, resolvi chamar de
COMO CORRER CONTRA O VENTO E AINDA ASSIM FAZÊ-LO SOPRAR A SEU FAVOR

1. Tem consciência plena da vastidão do mundo, que, como o oceano, é (in)constante e (in)seguro.

2. Entende que somos nele (mundo-oceano) apenas pequenos detalhes, mas podemos provocar em nós e também nos outros imensas mudanças.

3. Procura conhecer tudo que puderes. Todos os cantinhos. Todas as marés. Todas as terras. Todas as gentes. Todas as línguas. Todos os hábitos. Tenta fazer a vastidão a ti pertencer, e em ti habitar, ao longo da jornada.

4. Cuida do coração: ama, de todas as formas. Escreve sobre o amor. Esquece o que te disseram sobre ser o amor um clichê literário. Por certo quem assim afirma nunca soube o que é amar.

5. Lê tudo que te faz chorar. Ou te faz questionar-se. Ou te faz ficar cheia de certezas. Ou que te agride de tal jeito que te faz desejar mudar o curso das águas. Ou que te faz sentir tão honrada que te cale ao ponto de paralisar.

6. Aposta: no que de fato achas que pode dar certo, e também naquelas coisinhas incertas (são elas, em realidade, que te darão as melhores surpresas).

7. Nunca elimina as tuas reais fontes de inspiração: proibidas, ou não, são elas teu alimento poético diário. São o que te move. Aceita que elas são os teus elementos de revolução e mudança.

8. Tenta entender tua essência de viver em total caos mental, e reconhecer que é este caos, quando colocado em palavras, que te proporciona o conforto que precisas.

9. Sai pelo mundo: é este mesmo o teu destino. Não és tu que decides. É o mundo que te chama, e quer te acariciar, te embalar, e depois te engolir para tornar-se parte tua.

10. Aceita tua condição de ser Maria: tão delicada e também tão forte; tão simples e tão cheia de teias; tão indecisa e tão completamente certa de tudo; tão jovem e tão madura nas ideias; tão paciente e tão repleta de inquietudes da alma; tão única e ao mesmo tão plural. Maria com várias Marias, sempre cheia de histórias para contar.
Vai, então, Maria, doce Maria, pois o mundo-oceano te espera. Manda-me teus passos, tuas impressões, teus relatos. Inclui-me nos teus sonhos, e conta comigo, sempre, para ainda mais poéticas instruções.

Muito carinho da tua amiga,
Vida

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