Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo (Foxcatcher, Bennett Miller, 2014)

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por Pedro Cunha

“Foxcatcher” foi uma das grandes confusões da temporada do Oscar. O filme recebeu cinco indicações, todas em categorias importantes: Melhor Ator (Steve Carell), Melhor Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Melhor Roteiro Original (E. Max Frye e Dan Futterman), Melhor Maquiagem e Cabelo (Bill Corso e Dennis Liddiard) e Melhor Direção (Bennett Miller). Estranhamente o filme foi indicado nas categorias de atuação, roteiro e direção e não viu a indicação para Melhor Filme (ao contrário de “Selma” (Ava DuVernay, 2014), que foi indicado “apenas” a Melhor Filme e Melhor Canção com “Glory”). Tendo indicado apenas oito longas a Melhor Filme (quando as regras permitem a indicação de até 10), por que não indicar “Foxcatcher”? Fica sendo um daqueles mistérios da Academia, enfim.

“Foxcatcher” poderia alterar seu subtítulo para “Uma História que Chocou os EUA”, na verdade, já que fora da gringolândia acho que nenhum de nós tinha ouvido falar da história até o lançamento do filme. O filme narra o drama vivido por dois lutadores medalhistas olímpicos dos EUA, Mark Schultz (Channing Tatum) e David Schultz (Mark Ruffalo) e seu envolvimento com o multimilionário herdeiro da indústria química DuPont, John DuPont (Steve Carell), que resolve patrocinar os atletas buscando com isso superar uma série de traumas e recalques pessoais.

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Mark Schultz, o atormentado e inseguro lutador 

Channing Tatum tem aqui o melhor trabalho de sua carreira, que é cheia de caça-níqueis de bilheteria. No papel de Mark Schultz, o irmão mais novo, desde o início do filme ele nos deixa desconfortáveis com a sua inadequação social. O trabalho de Tatum consegue expressar emoções de um personagem que é silencioso e monossilábico a maior parte do tempo. Seu olhar e sua linguagem corporal, os ombros sempre arqueados numa eterna posição defensiva, nos passam a ideia de alguém que está profundamente desesperado, só não sabemos o porquê. O roteiro nos ajuda a entender os desconfortos de Mark nas suas primeiras cenas, onde ele, medalhista olímpico, dá uma palestra numa escola para crianças desinteressadas por 20 dólares e depois come um sanduíche sozinho no carro. A impressão sempre é que ele está prestes a explodir.

A vida de Mark muda quando o bilionário John DuPont procura por ele, disposto a patrociná-lo para a próxima Olimpíada. A construção de John DuPont por Steve Carell é maravilhosa. Quem diria que o ator de “O Virgem de 40 Anos” (The 40 Years Old Virgin, Judd Apatow, 2005) ou “A Volta do Todo Poderoso” (Evan Almighty, Tom Shadyac, 2007) poderia fazer um bom papel dramático? E não só ele fez como foi, com muita justiça, indicado ao Oscar por ele. Por baixo de uma maquiagem primorosa que o deixou quase irreconhecível Carell nos entrega um milionário manipulador e egoísta. Ele o faz tão bem que sentimos pena, muita pena de DuPont. Sua fragilidade física, seus gestos demorados, sua fala entrecortada por longas pausas nas quais parece que está tomando fôlego… tudo ajuda a construir um personagem frágil e com sérios problemas de insegurança, buscando eternamente a aprovação da rígida mãe (a veterana Vanessa Redgrave), que dá mais carinho e atenção aos seus cavalos do que ao seu filho. O personagem beira ao patético quando vence um torneio de luta patrocinado por ele mesmo, claramente comprado, ou quando tenta aparecer para a mãe posando como líder e mentor da equipe de lutadores que reuniu para treinar na sua fazenda. É tão débil que não há como não sentir pena dele, além de um desconforto sempre presente. Quando DuPont diz para Schultz para chama-lo de “Águia Dourada”, argumentando que seus amigos o chamavam assim, fica muito claro que na verdade ele gostaria que seus amigos o chamassem assim, se eventualmente ele tivesse amigos. No fim das contas John DuPont não passa de uma versão mais velha e com muito mais dinheiro do próprio Mark Schultz, alguém desesperado por aprovação e desencaixado do mundo. E não dá para ver Carell fazendo um bilionário fisicamente frágil com aquele narigão e não lembrar do Senhor Burns de “Os Simpsons”, para mim uma das inspirações do personagem. O desespero do personagem fica claro várias vezes, mas torna-se evidente na sua sequência final, onde ele busca libertação, como na cena em que ele liberta os cavalos que sua mãe criava.

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John DuPont, o atormentado e inseguro bilionário 

O respiro de humanidade em um filme meio sufocante nos é dado pelo David Schultz de Mark Ruffalo, muito bem escolhido para o papel. Ruffalo é um ator que exala bondade e o seu personagem faz o contraponto para Mark e DuPont. Ele é um medalhista olímpico respeitado por todos como professor e orientador e ainda tem uma família bem construída, com esposa e filhos que são claramente a prioridade dele. David Schultz parece ser o único personagem são do filme. Ele desempenha com naturalidade o papel de orientador de outros lutadores mesmo quando não o quer, fazendo com que haja uma crescente tensão entre ele e DuPont, que gostaria de desempenhar esse papel e não consegue.

O diretor Bennett Miller (“Capote”, “O Homem que Mudou o Jogo”) tem um papel importante em tornar coesas essas três atuações muito fortes, e foi muito feliz nisso. Seria fácil cada ator ir para um lado e o filme ser apenas uma colagem de boas atuações, mas “Foxcatcher” é composto justamente pela complementação e pelas intersecções de três sólidas (e diferentes) atuações. O ritmo ditado pelo diretor, bastante lento, ajuda a aumentar a crescente sensação de desconforto (quantas vezes eu escrevi essa palavra já?). Ele tem escolhas muito felizes nesse sentido como, por exemplo, fazer todas as cenas de treino de luta sem trilha sonora, só com os ruídos do próprio treino, o que nos dá uma sensação maior de proximidade mas também serve para fazer crescer a tensão. A fotografia em geral usa tons frios, com exceção de quando aparece a família de David. A fazenda Foxcatcher, sem sombra de dúvida um dos personagens do filme, consegue ser gigantesca e claustrofóbica ao mesmo tempo, encantadora sem se tornar nunca acolhedora.

“Foxcatcher” tem sido tratado por muitos como mais um “retrato” dos EUA e das suas idiossincrasias. Eu não sei se podemos afirmar isso categoricamente, mas Miller nos conta uma história triste e chocante que vai nos envolvendo aos poucos até o seu desfecho. “Foxcathcer” é um daqueles filmes que nos pede algum tempo para nos recuperarmos depois, daqueles que terminam no cinema e que ninguém levanta (e nem diz nada) durante os créditos. Enfim, mais um bom filme que passou bem discretamente pelos cinemas brasileiros, espremido entre animações dubladas e Cinquenta tons de qualquer coisa.

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