Clube de cinema

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Outro dia lembrei-me de uma coisa interessante: na minha infância, meu pai frequentava um clube de cinema em Porto Alegre. Eu achava aquilo o máximo. E também super misterioso. Eu imaginava algo como uma sociedade secreta, onde os caras sentavam em roda pra discutir coisas misteriosas sobre filmes. Logo descobri que era mais ou menos isso mesmo.

Cresci adorando cinema. Com meu pai, vi muitos filmes. Lembro de assistir Casablanca em VHS com ele (em uma época em que ninguém tinha ainda videocassete), sem legendas, imagem péssima, em uma época em que um sujeito tinha quase que matar para conseguir ver um filme em casa, que não fosse transmitido na televisão. Juntos, assistimos desde hollywodianos antigos e clássicos, passando por vários “woodianos” e culminando em obras-primas como as de Wim Wenders e Carlos Saura.

Segui vendo filmes. Sozinha, ou com meu marido, ou com meus filhos. Na faculdade de Letras, me encontrei: ali, era lição de casa assistir cinema! Eu quase enlouqueci. Uma das minhas professoras preferidas nos apresentou ao que havia de melhor no cinema independente e no cinema europeu. Ali, pude pela primeira vez sentir o gostinho de um verdadeiro “clube de cinema”…! Que prazer. Li até alguns roteiros de filmes, em inglês. Aprendi que cinema e literatura são primos-irmãos. Líamos contos e poemas, e traçávamos paralelos entre os textos cinematográficos e os textos literários. Quantos mistérios escondidos nas cenas de filmes, nas falas e atitudes dos personagens… Quantas interpretações diferentes sobre os enredos, as tramas, os protagonistas complexos e seus dramas psicológicos. Passávamos semanas esmiuçando os segredos daquelas fantásticas narrativas.

No cinema e na literatura, assim como na vida, passamos um tempo enorme tentando desvendar segredos e mistérios. Nossos, e dos outros. Só viver, sem participar ativamente do processo, não tem a menor graça. É monótono. Não nos move. O que nos move é o constante desejo de reinvenção, nem que isso seja um sonho remoto. A cada filme que assisto, e a cada poema, conto ou romance que leio, tenho a nítida sensação de que, a partir das reflexões que faço sobre eles, posso revolucionar minha vida: posso encontrar em mim algum pedacinho de meu ser muito valioso, porém esquecido, adormecido, inabitado, que pode surgir (ou ressurgir) pelas mãos mágicas de uma obra de arte. E é exatamente nestes momentos, caro leitor, que aconteço.

—–

*Assisti recentemente quatro filmes que mexeram comigo, de maneiras diversas, mas ao mesmo tempo muito semelhantes. Neste início de ano, no qual estou muito reflexiva, quero dividir com os caros leitores os títulos dessas películas excepcionais: El secreto en sus ojos, Birdman, Boyhood e Whiplash. O primeiro é de 2009 e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro naquele ano, e os três últimos são de 2014, e foram indicados e ganharam o Oscar 2015 em diversas categorias. Valem muito a pena. Trazem essenciais reflexões sobre a vida e os relacionamentos humanos.

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