Oscar 2015 – A Cerimônia

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por Pedro Cunha

A cerimônia anual da entrega do Oscar começou com muitas expectativas. Pelo lado das premiações fazia MUITO tempo que não havia tanta disputa e indefinição nas principais categorias: Filme, Diretor, Ator, Roteiro(s), Fotografia, Montagem e Edição claramente não tinham um favorito, o que tornou a noite muito mais saborosa. Por outro lado, poucas vezes se esperou tanto uma cerimônia. Por quê? Dois motivos. O primeiro deles foi a enxurrada de críticas que se seguiu às indicações. Desde janeiro a Academia foi criticada pela falta de diversidade nas indicações, ou por promover o que foi chamado de “A Festa do Homem Branco”. Entre os oito filmes indicados a Melhor Filme, oito contam a história de um homem (sete deles brancos). Os cinco indicados a Melhor Diretor foram homens brancos. Os cinco indicados a Melhor Ator foram brancos. Os QUINZE indicados a Melhor Roteiro (Original e Adaptado) foram homens brancos. E não é que não houvesse indicações possíveis. Muita gente não entendeu “Garota Exemplar” (Gone Girl, David Fincher, 2014) fora das principais indicações, o filme protagonizado por uma mulher. Ou as ausências de Ava DuVernay na categoria Melhor Diretor e David Oyelowo na de Melhor Ator, ambos sensacionais em “Selma” (idem, Ava DuVernay, 2014), indicado em Melhor Filme e esnobado em quase todas as outras categorias, recebendo apenas uma indicação para Melhor Canção com “Glory”. Esperava-se, então, a reação da Academia a essas críticas.

O segundo motivo de expectativa era a apresentação. Isso em função da performance SENSACIONAL de Elle DeGeneres no Oscar 2014. O pedido de pizza, os comentários no Twitter durante a cerimônia e a seminal “selfie” das estrelas vão ser lembradas por muito tempo. O encarregado da missão foi um dos atores mais queridos dos EUA, Neil Patrick Harris, o eterno Barney Stinson do seriado “How I Met Your Mother”. NPH começou a noite deixando bem claro que as críticas à falta de diversidade tinham sim sido escutadas pela Academia, já que sua primeira piada foi exatamente sobre isso. Em seguida emendou um número musical (que é mais ou menos o que se espera dele, já que ele ADORA fazer isso) saudando a história do cinema e as tradições de Hollywood, bem ao estilo clássico como a Academia adora, em dueto com Anna Kendrick e misturando-se a clássicos que foram desde “Cantando na Chuva” até “Guerra nas Estrelas”. A melhor parte do número, no entanto, foi a participação de Jack Black, que “intrometeu-se” e disparou uma série de críticas à Hollywood de hoje, falando das franquias intermináveis, da falta de ideia, da avalanche de filmes de super-heróis e adaptações de games, livros e da preocupação constante dos executivos das empresas com estreias com bilheterias “cheias de zeros”. O recado da Academia foi claro: nós ouvimos as críticas de vocês.

Infelizmente, daí para a frente, NPH foi murchando. Digo infelizmente porque eu, como a grande maioria, gosto muito dele e realmente torci para que fizesse um ótimo trabalho. Mas não deu. Não deu mesmo. Ele foi encolhendo durante a cerimônia e não houve ninguém que não suspirasse pensando na Ellen. O único momento em que ele conseguiu arrancar risadas legítimas do público foi quando apareceu de cueca no palco emulando uma das melhores cenas de “Birdman” e misturando o filme com “Whiplash”. Mas nem isso salvou a noite dele, que vai ser lembrada, isso sim, pela inapropriada piada sobre o vestido de Dana Perry, produtora de “Crisis Hotline: Veterans Press 1”, vencedora na categoria de Melhor Curta – Documentário”. Perry, uma mulher produtora de um filme dirigido por uma mulher, algo raríssimo em uma indústria extremamente machista, fez um discurso emocionante mencionando o suicídio do próprio filho. E foi cortada por Harris para que ele fizesse uma piada sobre o vestido dela. Não pegou bem. Mesmo.

A Academia entendeu as críticas, isso ficou claro. Se a diversidade não esteve presente nas indicações houve um cuidado muito grande para que estivesse presente no palco. Os apresentadores dos prêmios foram escolhidos entre o que Hollywood tem de mais diverso e os discursos dos vitoriosos foram, de forma geral, bem acima da média do lugar-comum nesse tipo de premiação. Começando com o veterano JK Simmons, que fez um  discurso lindo para a sua própria família (esposa e filhos) e terminou com um apelo comovente a todos: “liguem para os seus pais. Não mandem mensagens, não escrevam e-mails, liguem. Falem com eles e escutem eles falarem com vocês pelo tempo que eles quiserem”. Lindo.

Na medida em que a noite avançava, o tom dos discursos foi ficando cada vez mais político e a orquestra, que tradicionalmente corta os discursos, foi ficando comedida e permitindo que os vencedores da noite discursassem. Graham Moore, o (improvável) vencedor de Melhor Roteiro Adaptado por “O Jogo da Imitação”, filme que tem problemas de… roteiro (!!), fez com que toda a indignação por sua vitória terminasse com o seu discurso, onde pede aceitação ao diferente. Moore ficou conhecido em Hollywood por ter batido de porta em porta durante muito tempo com a história de Alan Turing, seu projeto pessoal, que foi renegado várias vezes por diversos estúdios com a desculpa de que “não era uma história interessante”.

Se “Selma” foi esnobado, o cast do filme conseguiu fazer com que o filme saísse da premiação grande, muito maior do que entrou. A catarse que foi a apesentação de “Glory” por John Legend e Common seguida por seu discurso arrasador trouxeram a tona a luta contra o racismo nos EUA, que como nos mostrou Ferguson recentemente, está longe de acabar. “Selma é agora”, disseram os músicos, lembrando que em 2015 há mais negros encarcerados nos EUA do que havia escravizados em 1850.

 

Uma das poucas categorias com favorita na noite era Melhor Atriz Coadjuvante. Dificilmente o prêmio não ficaria nas mãos de Patricia Arquette, mesmo que ela tivesse concorrentes do calibre de Meryl Streep, por exemplo. O prêmio de Arquette foi a única premiação de “Boyhood”, que ao contrário de “Selma” sai do Oscar um pouco menor do que entrou. Arquette repetiu o que já tinha feito no Golden Globe e fez um discurso lindo sobre feminismo e desigualdade em Hollywood. Os aplausos em pé no teatro foram puxados por uma das “derrotadas” na categoria, Meryl Streep, visivelmente emocionada com o lindo discurso de Arquette.

 

Se Graham Moore falou sobre homossexualidade, John Legend e Common sobre o movimento negro e Patricia Arquette sobre o feminismo, faltava pouco para todas as minorias dos EUA terem o seu momento. Deixou de faltar quando Alejandro Gonzáles Iñárritu, o grande vencedor da noite, usou seu momento mais nobre, o de vencedor na categoria Melhor Filme, para falar dos imigrantes nos EUA, em especial dos latinos e destilando uma certa ironia.

 

Falando sobre Iñárritu e seu “Birdman”, eles foram inquestionavelmente os grandes vencedores da noite. Imaginava-se que “Birdman” e “Boyhood” dividiriam os grandes prêmios da noite, mas o simpático Richard Linklater voltou para casa de mãos abanando. “Birdman” não só levou Melhor Filme, mas fez o combo com Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia, o que não acontecia há MUITO tempo (“Beleza Americana” (American Beauty, Sam Mendes, 1999) fez o mesmo combo em 2000). O excelente filme de Iñárritu mostra, mais uma vez, o quanto a Academia gosta de se autorreferenciar, premiando filmes que falam sobre o cinema, o teatro e o entretenimento em si. A ironia foi a não premiação de Michael Keaton, a alma do filme, como Melhor Ator. A categoria tinha excelentes indicações e o vencedor, Eddie Redmayne, fez em “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything, James Marsh, 2014) um tipo de papel que a Academia ADORA, aquele que exige muito fisicamente do ator. Redmayne ainda venceu o prêmio mais sério da temporada, o SAG Awards, mas Keaton havia ganhado o Golden Globe e havia uma expectativa muito grande pela sua vitória pelo “comeback” que o filme representou na sua carreira. Parece que a Academia julga que, nesses casos, uma indicação já é prêmio suficiente, como descobriram Mickey Rourke em 2009 (Estava sensacional em “O Lutador” (The Wrestler, Darren Aronofsky, 2008) e Bill Murray em 2003 (o que dizer sobre “Encontros e Desencontros” (Lost in Translation, Sofia Coppola, 2002)?). Uma das cenas mais tristes da noite foi flagrada: Keaton aplaude a vitória de Redmayne enquanto discretamente guarda seu discurso no bolso do paletó.

 

O vencedor improvável da noite foi “Grande Hotel Tennenbauns”, quer dizer, “Grande Hotel Budapeste” (The Grand Hotel Budapest, Wes Anderson, 2014). O filme tornou-se quase que um cult movie instantâneo, adorado por todo mundo mas tido como muito autoral e por demais “wesandersoniano”, o que quer que isso queria dizer. Os prêmios de Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora foram justíssimos para o filme esteticamente mais caprichado da temporada. Ninguém apostava em “Grande Hotel Budapeste” entre os grandes vencedores, mas ele junta-se ao seleto clube de filmes com quatro Oscars na prateleira. Não é pouca coisa.

 

Triste mesmo foi o que aconteceu com “Boyhood”. O filme de Linklater chegou com seis indicações e premiações importantes no Golden Globe, em Berlim e outros festivais. Um filme lindo, sensível e emocionante feito por um diretor muito querido por seus pares. Uma produção ousada e diferente, feita durante doze anos. O trabalho não de uma, mas de várias vidas. E seu único prêmio foi o (merecido) de Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette. “Boyhood” junta-se a outros filmes como “Avatar”, “O Segredo de Brokeback Mountain” e “2001: Uma Odisseia no Espaço”, que foram esnobados pelo Oscar mas acabaram imortalizando-se como marcos da história do cinema. Mas enfim, o que seria da noite do Oscar se não houvesse injustiças? Elas também fazem parte da história da Academia e não poderiam ter faltado nessa noite. Agora é recarregar as baterias e nos preparar para o Oscar 2016, sempre igual, sempre diferente.

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