Guest Post: O Tapete Vermelho do Oscar

por Brunna Stock

Oi! Meu nome é Brunna e fui convidada pelo Pedro Cunha para falar sobre os looks do Oscar 2015. Bom, é preciso um pouco de contexto: sempre tive interesse sobre moda e design, então falar dos vestidos e ternos da Cerimônia é fácil. Vamos combinar que falar sobre futilidades é bem simples, ainda mais quando é pra criticar gente que tem montes de dinheiro e estilistas renomados ao seu dispor. Pois bem, apesar de eu curtir, sim, moda, me gusta também ir um pouquinho além, o que vem ao encontro de algo lindo que aconteceu no Oscar 2015: a campanha #AskHerMore. Esta campanha, encabeçada pelo The Representation Project, e que teve como representante principal a atriz Reese Whiterspoon (indicada na categoria Melhor Atriz esse ano por Livre), tinha como objetivo evidenciar o sexismo presente no tapete vermelho. Eu entendo que o nome do estilista tem que ser falado, pois eles patrocinam os artistas e tudo mais. Mas a discrepância está em 99,99% das entrevistas onde as mulheres são questionadas apenas sobre o seu vestido, maquiagem, joias, cabelos e afins, com direito a tapete vermelho para as unhas (oi?) nas cerimônias do Grammy e do SAG (Screen Actors Guild Awards). Enquanto isso, as perguntas para os homens são, sim, sobre os ternos, mas vão além, passando pela sua carreira, trabalho, planos futuros e, obviamente, suas acompanhantes (que são questionadas sobre vestido e blábláblá).

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Imagem da campanha #AskHerMore: “Não pergunte apenas sobre o vestido. Pergunte sobre a mulher usando-o.”

“Ai, Brunna, não nóia. Nem é assim!” Então senta que lá vem história: Jennifer Lawrence, na sua entrevista após vencer o Oscar de Melhor Atriz em 2013, teve uma decente pergunta sobre a doença de sua personagem no filme O lado bom da vida, e a cara dela com os questionamentos sobre seu vestido e queda ao receber o prêmio são hilárias!

No SAG de 2014, Cate Blanchett, que era indicada e recebeu o prêmio de Melhor Atriz por Blue Jasmine, já havia interrompido lindamente um cinegrafista que a filmava da cabeça aos pés ao dizer “Você faz isso com homens?”.

Jennifer Garner, em entrevista em outubro do mesmo ano, afirmou que absolutamente todas as pessoas que a entrevistam perguntam como ela concilia família e trabalho, enquanto que ninguém pergunta o mesmo ao seu marido, o ator e diretor Ben Affleck.  Garner questionou “Será que não é hora de mudar essa conversa?”. Sim, prfv!

Voltando a 2015, quando questionada sobre a campanha, Whiterspoon afirmou que “nós (mulheres) somos mais do que apenas um vestido. Estamos muito felizes de estarmos aqui e falar sobre o trabalho que estamos fazendo. É difícil ser uma mulher em Hollywood ou em qualquer indústria.”. A grande questão é que, no caso de Whiterspoon, os jornalistas se prenderam a perguntas sobre o vestido, sobre a campanha e… se acabou! Muitos deixaram de lado perguntas sobre sua carreira, que já tem um Oscar pelo filme Johnny and June (lindo!), e sua atuação em Livre, que estou louca pra ver! Como sempre tem alguém pra fazer um comentário desnecessário, como a jornalista Alexa Chung, que disse: “Eu quero saber mais, mas na verdade eu quero saber apenas o que você está vestindo.” Ou outros preocupadíssimos com as rugas da atriz  e com o que será do Red Carpet com essa história de #AskHerMore (Link da entrevista, mas não perca seu tempo lendo esse lixo: http://www.laineygossip.com/Reese-Witherspoon-at-the-2015-Oscars/37711).

Assim, meu propósito não é (apenas) fazer um olhar crítico quanto os looks no Oscar 2015, mas eleger as musas e os musos levando muito mais em consideração. Começo, então, com a própria Reese Whiterspoon, que, além de estar estonteante nesse visto chiquérrimo, com essa maquiagem linda (que acho que pedia um batom vermelho, mas who cares?!) e com esse cabelo simples e solto Anti-protocolo-do-cabelo-preso, merece o segundo lugar como musa do Oscar 2015 pela sua fala e representatividade. Mandou bem, amiga!

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Reese Whiterspoon arrasando no look e na representatividade.

Poxa, se ela ganhou o segundo lugar com toda essa campanha, quem ficou com o primeiro? Ora, a atriz que botou a boca no trombone: Patricia Arquette! Ela já havia afirmado, em entrevista ao The Telegraph, a dificuldade de sair de personagens com foco em seu corpo e sensualidade para outras mais intensas e complicadas, como a mãe que representa em Boyhood (vejam!!). No Oscar de 2015, além de estar divina em um Black and White incrível (detalhe para o tecido branco caído no ombro, ai que diva!), a vencedora do prêmio de Atriz Coadjuvante aproveitou o seu discurso para dizer que “está na hora de uma vez por todas de termos igualdade salarial e de direitos para as mulheres dos Estados Unidos da América”. Como não amar? ❤

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Diva botando a boca no trombone. Me adota!

Quem aplaudiu entusiasticamente garantindo o terceiro lugar na minha lista de musas foi a Meryl Streep. Além disso, a eterna indicada a prêmios estava o auge da elegância com esse terninho sobre o vestido, que foi pra fechar a boca de quem diz que mulher tem que usar vestido de gala e se encaixar em moldes de feminilidade.

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Meryl Streep: respeita as mina.

Tentei, mas não consegui deixar de fora a musa Lady Gaga, com um vestido Oh!, um cabelo Heim? e luvas WhatTheHell?, levando o troféu Sou-diva-e-venho-com-o-que-quiser-nem-tô.

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Ostentação até com luva de cozinha.

Mas o que me fez ficar de queixo caído foi a sua interpretação no tributo ao clássico A Noviça Rebelde, onde ela usou um vestido Uau!!!.

Bom, e o muso? Visto que os homens quase sempre vão de smoking, sempre há vários iguais ou, no mínimo, parecidos. Adorei a moda do terno azul, como o usado pelo vencedor na categoria Melhor Ator, Eddie Redmayne, e das camisas com botões pretos, como a de Peeta, quer dizer, Josh Hutcherson.

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Redmayne e Hutcherson: “so, tell me about your look.”

Então, o escolhido como muso da noite é o Graham Moore. Quem?? Pois é, esse carinha que ganhou o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado pelo O jogo da Imitação (adorei!) estava com o terno azul & a camisa com botões pretos, chique e estiloso, mas é claro que não foi por isso. O que me pegou de jeito por essa gracinha foi o discurso corajoso, chocante e surpreendente: “Quando eu tinha 16 anos, tentei me matar porque me sentia estranho e diferente, como se simplesmente não pertencesse a lugar nenhum. Queria dedicar esse momento àqueles que sentem que não se encaixam em lugar nenhum. Vocês se encaixam, eu prometo. Continuem estranhos, continuem diferentes. Quando for a sua vez e você estiver neste palco, por favor, passe a mesma mensagem para os próximos que virão.”. Ahazo.

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Graham Moore, vem prak.

Falando em discursos, o meu segundo lugar tem empate com John Legend e Common. Common chegou com um terno bizarro em veludo molhado, mas se redimiu no quesito vestimenta durante sua apresentação com Legend, ambos usando um terno preto super clean com gravata.

87th Annual Academy Awards - Show

Common e Legend com seus Oscar e ternos… nhé.

Tá, esse terno não era nada demais. O motivo do segundo lugar é que os caras ganharam o Oscar de Melhor Canção Original por Selma (chorei chorei chorei) com a música Glory e aproveitaram para falar em seus discursos sobre a luta por liberdade e justiça que ainda é tão real.  Legend lembrou que “existem mais homens negros no sistema prisional hoje do que escravizados em 1850.”. Phoda. Glory é tão incrivelmente linda que eu vou colocar o link de novo, mesmo que o Pedro já tenha colocado o clip em outro post hihi. Observem a galera chorando aloka, inclusive David Oyelowo, protagonista do filme e injustamente esquecido na categoria Melhor Ator, com seu terno vermelho What??!!. Agora, só eu que fiquei com a impressão no final do vídeo que estavam catando todos os negros possíveis para filmar? Não são muitos, né, Hollywood? Hunf.

Fechando a lista, o terceiro lugar vai para Alejandro Iñárritu, que ganhou o Oscar de direção por Birdman (o longa também ganhou melhor filme e é ótimo, recomendo). O terceiro lugar não é por seu básico smoking preto e camisa branca, mas sim por trazer a questão eternamente latente dos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos com a fala: “eu rezo pra que eles sejam tratados com a mesma dignidade e respeito que aqueles que vieram antes e construíram esta incrível nação imigrante”.

Há quem chame essa edição do Oscar de “Oscar do descontentamento” em função de todos os discursos sobre minorias, ou que diga que as atrizes “se rebelaram” contra o machismo na premiação (Ah, meu deus! Insurreição contra o patriarcado não!!).  Só tenho a dizer que adorei a premiação desse ano, porque ela foi marcada por manifestações que vão muito além de apenas imagem e que dão significado ao cinema. Torço pra que essa característica fique cada vez mais forte e que a luta por igualdade e respeito seja um objetivo do cinema e não apenas um meio para encher os bolsos de Hollywood.

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