American Gods (ou “Sniper Americano” e “Selma”)

por Pedro Cunha

No dia da cerimônia eu enfim coloco meus textos em dia para escrever sobre “Sniper Americano” (American Sniper, Clint Eastwood, 2014) e “Selma” (Idem, Ava DuVernay, 2014). Interessante terem ficado logo esses dois por último, já que eles fazem parte de um debate quente nos EUA atualmente, como muita gente discutindo quem seria o “verdadeiro” herói norte-americano: o sniper Chris Kyle ou o reverendo Martin Luther King.

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Começando pelo mais difícil, “Sniper Americano” é um filme complicado de analisar. Seria muito mais simples de fazê-lo se o filme fosse ruim. Simplificaria a minha vida. Mas não é. O filme é bom. Eastwood é sólido como diretor e sabe contar uma história. Não há como assistir o filme sem se pegar torcendo pelo protagonista, mesmo ele sendo… um assassino. O filme está sendo acusado de banalizar a guerra dos EUA com o Iraque, de promover ao status de herói um psicopata e é muito difícil desvencilha-lo dessas acusações. A estrutura do filme não questiona as motivações da guerra em nenhum momento, fazendo uma ligação direta (que é bastante problemática) entre os atentados da Al Qaeda e a invasão americana. Se lembrarmos dos fatos, a invasão do Iraque pouco teve a ver com o 11/9, mas sim com a suspeita (nunca confirmada) de que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Os iraquianos apresentados no filme não tem voz. Nenhum deles fala. O sniper sírio que faz o antagonista de Kyle passa o filme inteiro sem dizer uma palavra sequer. Há uma proposital desumanização do “inimigo”.

Li muita gente que gosta do Eastwood (eu gosto, e bastante) dizendo que justamente o que ele fez foi um libelo anti-guerra e que todos estariam entendendo tudo errado. Me desculpem, mas não foi. Lembro de uma entrevista do José Padilha, falando sobre a repercussão de “Tropa de Elite” (2007), quando o Capitão Nascimento foi alçado a condição de herói nacional e Padilha foi chamado de fascista. Padilha disse que não era aquela mensagem que ele queria passar, bem pelo contrário, mas se todos tinham entendido daquela forma quem estava errado era ele. Para provar seu ponto ele fez o segundo “Tropa de Elite” (2010), dessa vez deixando tudo muito claro e tendo voz no discurso final de Nascimento, onde Padilha expos de maneira bastante clara a opinião dele sobre aquilo tudo. Eastwood é um excelente diretor e disse exatamente o que queria dizer, e esse é o problema.

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Chris Kyle (Bradley Cooper) procurando o próximo alvo 

“Sniper Americano” vai entrar, para mim, na mesma galeria de “ Triunfo da Vontade” (Triumph des Willens, Leni Riefenstahl, 1935) ou “Sindicado de Ladrões” (On the Waterfront, Elia Kazan, 1954): grandes produções estéticas com mensagem extremamente controversas. Se “Triunfo da Vontade” é a propaganda maior do Nazismo e “Sindicato de Ladrões” é justificativa para o Macarthismo, “Sniper Americano” abraça e corrobora o discurso da “Guerra ao Terror”, colocando os EUA como “pastores do mundo” e “guardiões da democracia” contra os “selvagens”, termo usado várias vezes por Kyle para se referir aos iraquianos.

Tecnicamente, repito, o filme é muito bem feito. A edição é primorosa e a narração de Clint encontra, talvez, seu melhor trabalho. Bradley Cooper, quase irreconhecível, entrega uma atuação de luxo. Na parte técnica o filme justificou as indicações em “Edição”, “Edição de Som” e “Mixagem de Som”. A controvérsia em cima do filme só fica maior em função da sua bilheteria, maior do que a SOMA dos sete outros indicados a melhor filme até agora.

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Falando de heróis americanos, “Selma” é um belíssimo filme que nos mostra um pouco mais sobre um dos mais cultuados norte-americanos, Martin Luther King. Ava DuVernay conduz o filme com excelência e merecia, sem sombra de dúvida, uma indicação a Melhor Direção. A história contada por ela nos leva à cidadezinha de Selma, no interior do Alabama, onde o grupo político comandado por King mobilizava a população negra do local para protestos pacíficos em busca do direito ao voto, que apesar de legalmente estar garantido era barrado aos negros por burocratas tecnicistas que sempre achavam uma maneira de negar o registro. King, já um ativista consagrado e vencedor do prêmio Nobel da Paz, utiliza-se de sua notoriedade em favor de sua causa. Suas discussões com seus colegas e suas sessões de “esgrima” com o presidente Lyndon Johnson mostram-no como um político pragmático, que sabia da força de suas ações e do peso de seu próprio nome e estava disposto a usar todo o prestígio que possuía para atingir objetivos bem claros. No caso, o direito de voto aos negros. O roteiro e a diretora são muito felizes em ilustrar o contexto sem tornar o filme uma aula cansativa sobre a vida de King e os anos 60. A cena da senhora tentando se alistar como eleitora e a explicação de King a Lyndon Johnson do MOTIVO pelo qual o voto era importante, não só pelo voto em si, mas também por todas as consequências disso, ajudam a mostrar a importância do pleito daquele movimento naquele momento sem tornar-se excessivamente didático ou tratar o espectador como um estúpido.

Além de uma história bem contada “Selma” nos brinda com uma excelente atuação de David Oyelowo, inexplicavelmente não lembrado nas indicações para Melhor Ator (poderia estar no lugar de Bradley Cooper ou Benedict Cumberbatch). O seu Martin Luther King é absolutamente crível e o trabalho do ator britânico para reproduzir o tradicional sotaque caipira do sul dos EUA é assombroso. Os históricos discursos de King, inflamados por toda a oratória que só um pastor das igrejas da Georgia tinha, estão lá com todo o seu poder e intensidade. Os coadjuvantes todos trabalham bem e Oyelowo e DuVernay merecem os parabéns por nos apresentarem um Martin Luther King humano, com dúvidas e falhas, fugindo do estilo hagiografia-exaltação no qual alguns dos outros indicados a Melhor Filme exageraram esse ano. “Selma” deveria ter sido mais lembrado para a premiação de hoje a noite. Recebeu indicações apenas para Melhor Filme e Melhor Canção (prêmio que deve levar com “Glory”).

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