O Bom, o Mau, o Feio e o Esquizofrênico

por Pedro Cunha

Continuando a série sobre os filmes do Oscar, hoje vamos falar um pouco sobre mais quatro filmes: “O Jogo da Imitação” (The Imitation Game, Morten Tyldun, 2014), “Whiplash – Em Busca da Perfeição” (Whiplash, Damian Chezelle, 2014), “A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything, James Marsh, 2014) e “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (Birdman, Alejandro Iñárritu, 2014). Como já escrevi sobre “Boyhood” (Richard Linklater, 2014) e “O Grande Hotel Budapeste” (The Grand Budapest Hotel, Wes Anderson, 2014), ficam faltando “Sniper Americano” (American Sniper, Clint Eastwood, 2014) e “Selma” (Ava DuVernay, 2014), que eu prometo que antes do final da semana estarão por aqui!

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Alan Turing é uma das grandes personalidades do século XX. O mundo como o conhecemos hoje, pode-se dizer, é fruto do trabalho de Turing. Durante a Segunda Guerra Mundial Turing capitaneou um time de matemáticos e estatísticos britânicos  que se dedicaram à “guerra dentro da guerra”: encontrar uma maneira de “quebrar” a Enigma, a máquina encriptadora alemã que criava códigos indecifráveis. Enquanto a maioria das pessoas, naquele momento, achava extremamente razoável tentar decifrar o código manualmente, Turing foi contra a maré e decidiu que para decifrar todo o código de uma vez ele precisava de uma máquina que analisasse as possibilidades mais rápido que qualquer ser humano poderia fazer. Está lançada a semente do que viria a ser a computação e o processamento de dados. A invenção de Turing foi fundamental para acelerar a vitória dos Aliados na Segunda Guerra mas ainda assim apenas agora ele é alçado a condição de herói de guerra e cientista visionário que merece, por um detalhe: Turing era homossexual, o que na Grã-Bretanha dos anos 1950 era crime. Depois de passar por uma série de terapias hormonais para “reverter” sua “situação” Turing decidiu acabar com a própria vida e suicidou-se em 1951, com apenas 41 anos.

“O Jogo da Imitação” faz parte da campanha de reabilitação da imagem de Turing que vem sendo promovida faz alguns anos, com participação expressiva da comunidade LGBT e dos trabalhadores em tecnologia da informação britânicos. Nesse sentido, o filme conta a história de Turing focando principalmente no período da Guerra e no esforço obsessivo dele para “quebrar” a Enigma e decifrar os códigos alemães. O diretor norueguês Morten Tyldun, na sua primeira produção em língua inglesa, fez um filme para não errar. Tendo uma boa história, um personagem interessante e um excelente protagonista, optou por centrar o filme na figura de Turing e conduzir o filme sem sobressaltos ou grandes reviravoltas. O resultado, embora longe de ruim, fica um tanto quanto insosso. Na internet há muita gente comparando Tyldun com Tom Hooper em “O Discurso do Rei” (The King´s Speech, 2010), considerado por muita gente como um dos mais retos e previsíveis filmes a levarem o Oscar. Acho um certo exagero na crítica a Hooper, mas concordo que Tyldun optou pelo caminho com menos risco e esforço para fazer o seu filme.

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Alan Turing: O Bom 

O melhor do filme é a atuação do sempre elogiado Benedict Cumberbatch, como Alan Turing. O “Sherlock” do seriado é um dos mais badalados atores do momento e talvez tenha feito em “O Jogo de Imitação” a atuação de sua carreira, até agora. Cumberbatch faz um protagonista que beira ao autismo e com sérios problemas de transtorno obsessivo-compulsivo e consegue fazer isso sem ter uma atuação caricata ou exagerada. São os pequenos maneirismos, os tiques discretos, o olhar sempre distante (muitas vezes voltado para o chão), a fala beirando a gagueira e vários outros pequenos detalhes que nos ajudam a construir Turing junto com ele como alguém complexamente… humano. Não fosse um bom filme (e é), “O Jogo da Imitação” valeria a pena só pelo belo trabalho de Benedict Cumberbatch, que não é o favorito para a premiação de Melhor Ator, mas que deve levar essa estatueta nos próximos anos, certamente.

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“Whiplash – Em Busca da Perfeição” é uma história sobre perfeição e obsessão. Damien Chazelle, o jovem diretor de 29 anos, conta a história de um jovem baterista de jazz (Miles Teller) e de seu professor/mentor, vivido pelo veterano J.K. Simmons (conhecido por inúmeras participações em seriados e animações e por ser o J.J. Jameson na trilogia do Homem-Aranha de Sam Raimi.). Simmons faz o tipo professor perfeccionista e que exige do aluno sempre um pouco mais do que ele pode dar, enquanto Teller é o aluno obcecado que sempre tenta alcançar aquilo que o professor quer, por mais impossível que pareça. A tensão entre eles é sempre presente e bem construída. As cenas dos ensaios em que Simmons interrompe Teller incessantemente, sempre no primeiro compasso, nos fazem odiar aquele professor ao mesmo tempo em que inconscientemente, como o personagem de Teller, queremos a sua aprovação, queremos provar que conseguimos, nem que para isso tenhamos que abrir mão de tudo que possa minimamente atrapalhar esse caminho.

Tecnicamente o filme é muito bem feito e nos brinda com uma fotografia de interiores muito bacana. A indicação para o prêmio de Melhor Edição é justa e o filme poderia também ter reconhecidas a Mixagem de Som e a Edição de Som. A trilha sonora, repleta de clássicos do jazz, é deliciosa. Simmons vem (com justiça) papando todos os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante: venceu o Globo de Ouro e o SAG (Screen Actors Guild) e pinta como favoritaço ao Oscar.

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Fletcher (JK Simmons): O Mau 

“Whiplash” é um filme bem feito e que ganha pontos ao nos envolver com os personagens, odiá-los e torcer por eles ao mesmo tempo. É um filme sobre o nosso desejo pela perfeição e sobre o quanto estamos dispostos (ou não) a sacrificar para atingi-la. Musicalmente eu tenho meus problemas sobre a maneira como Chazelle define a perfeição, como algo técnico e veloz, matematicamente mensurável, calculável e organizável, mas entendo a mensagem que ele quer passar. É um grande filme, apesar, para mim, desse porém.

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“A Teoria de Tudo” (The Theory of Everything, James Marsh, 2014) segue a cartilha dos filmes biográficos, acompanhando linearmente a vida do físico Stephen Hawking, um dos responsáveis, junto com Carl Sagan, pelo “boom” de popularização da física nos anos 1980. Sagan foi o responsável pela série “Cosmos”, enquanto Hawking escreveu “Uma Breve História do Tempo”, um improvável best-seller sobre física teórica, origem do universo e buracos negros. Se você pretende assistir “A Teoria de Tudo” para entender melhor o brilhantismo de Hawking como físico, esqueça. Como alguém escreveu outro dia, você encontra mais da teoria de Hawking sobre buracos negros e tempo em “Interestellar” (Chris Nolan, 2014) do que em “A Teoria de Tudo”. O foco do filme é a vida do físico, o desenvolvimento de sua doença limitadora de movimentos e sua relação com Jane Hawking, sua primeira esposa.

O filme traça um perfil bastante humano de Hawking, apresentando no mesmo plano sua obstinação em enfrentar a doença e um comportamento que muitas vezes pode ser chamado até de egoísta. O contraponto é feito por Jane (Felicity Jones, indicada a Melhor Atriz pelo papel), que é retratada no filme como uma santa praticamente sem defeitos, o que até era de se esperar visto que o roteiro para o filme foi adaptado da biografia de Jane Hawking, escrita por ela mesma.

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Stephen Hawking (Eddie Redmayne)

“A Teoria de Tudo” é um filme de superação e sacrifício, em todos os sentidos, mas sem cair no dramalhão, o que poderia se esperar de um filme que tem um protagonista sofrendo de uma doença degenerativa incurável gravíssima. Um dos fatores que ajuda o filme a manter o clima positivo é Eddie Redmayne. O ator que já havia aparecido em “Les Miserables” (Tom Hooper, 2012) como um dos galãs aqui interpreta Hawking desde a sua adolescência nos anos 1960 até a consagração no final do século XX. Interpretar um personagem que vai gradativamente perdendo os movimentos poderia ser complicado, mas Redmayne fez um excelente trabalho que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator do SAG e a indicação ao Oscar, onde aparece como talvez o principal oponente de Michael Keaton. A Academia gosta de interpretações fortes de casos de doença, e Redmayne nos entrega isso com maestria no filme.

 

Alejandro Gonzáles Iñárritu é um diretor mexicano já consagrado. Desde a explosão de “Amores Brutos” (Amores Perros, 2000) já fez sucesso com “21 Gramas” (21 Grams, 2003), concorreu aos principais prêmios por “Babel” (2006) e ao Oscar de Filme em Língua Estrangeira por “Biutiful” (2011). O seu “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” é o casamento do que há de melhor do cinema autoral do qual Iñárritu nunca abriu mão, mesmo trabalhando para os grandes estúdios, e o cinema comercial que Hollywood faz tão bem. “Birdman” conta a história de um ator cuja glória ficou no cinema das décadas anteriores (Michael Keaton, num papel quase auto-biográfico) que tenta reencontrar-se consigo mesmo investindo no teatro, tentando mostrar que é de fato um ator com talento e ganhando o respeito da crítica especializada e dele mesmo, no processo. O personagem de Keaton tem que lidar com egos de outros atores, uma filha recém-saída da rehab pedindo por atenção e o pior, com seus próprios demônios internos, que o assombram cada vez mais na medida em que a estreia vem se aproximando.

Iñarritu faz uma narrativa claustrofóbica. Os planos-sequência intermináveis do diretor sobem e descem perambulando por dentro do teatro, por entre coxias, camarins, palcos e banheiros, fazendo com que nos sintamos mais um personagem que perambula a esmo por dentro do teatro e pelas ruas de Nova Iorque, acompanhando as angústias de Riggan e torcendo por ele, mesmo que ele não mereça. Michael Keaton, como Riggan, é um show a parte. As conversas de Riggan com ele mesmo (ou com “Birdman”, seu sucesso do passado) e a naturalidade com que ele as trata nos faz frequentemente duvidar do que é real e do que é imaginário ali, com o que Iñárritu e Keaton conseguem nos arrastar para o meio do delírio do personagem, questionando a realidade e acreditando no impossível. Aliás, sobre a duplicidade Riggan/Birdman, impossível não enxergar ali pelo menos um pouco do próprio Keaton, que em 89 e 92 viveu Batman nos filmes de Tim Burton e deixou lá nos anos 80 os melhores anos de sua carreira. Iñárritu se aproveita dessa relação da mesma forma que Aronofsky fez com Mickey Rourke em “O Lutador” (The Wrestler, 2008) e tira de Keaton a mais brilhante atuação de sua carreira. Tão brilhante que, se nada der errado, deve sair da festa no próximo dia 22 com o careca dourado nas mãos. Pode não ser o único do filme, aliás. Edward Norton, no papel do ator talentoso e consagrado no teatro faz um belo contraponto a Riggan, uma vez que tem o reconhecimento do talento que o outro não teve mas tem inveja da aclamação popular de que Riggan desfruta e ele desconhece. Norton foi indicado a Melhor Ator Coadjuvante, assim como Emma Stone, que faz a filha em recuperação de Riggan, foi indicada a melhor Atriz Coadjuvante.

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Riggan (Michael Keaton): O Esquizofrênico 

Num ano de muitos filmes contando histórias de sucessos e glórias, “Birdman” é quase uma ode ao fracasso. É uma história nos causa mal-estar, que vai crescendo durante o filme e tomando conta até quase nos sufocar. E até por isso, talvez, seja um dos meus preferidos. Em tempos onde é proibido fracassar, em que todos têm que ter sucesso, o fracasso merece, sim, estar na primeira página, fazendo sucesso. Pelo menos uma vez.

 

(“O Jogo da Imitação” tem oito indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Morten Tyldun), Melhor Ator (Benedict Cumberbatch), Melhor Atriz Coadjuvante (Keira Knightley), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição, Melhor Design de Produção e Melhor Trilha Sonora; “Whiplash – Em Busca da Perfeição” tem cinco indicações: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (JK Simmons), Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som; “A Teoria de Tudo” tem cinco indicações: Melhor Filme, Melhor Ator (Eddie Redmayne), Melhor Atriz (Felicity Jones), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Trilha Sonora Original (Johan Johannsson; Birdman tem nove indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Melhor Ator (Michael Keaton), Melhor Ator Coadjuvante (Edward Norton), Melhor Atriz Coadjuvante (Emma Stone), Melhor Roteiro Original, Melhor Fotografia, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som).

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