Benção

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Para minha tia Maria Augusta, que soube reconhecer o sinal.

Por seu corpo correu um calafrio quando encarou o mar de fim de tarde. Aquela sensação de estar recebendo um espírito (não era médium, assim, a percepção era apenas um reflexo de histórias ouvidas). Foi jogada no tempo, aquele gatilho ativando a memória: os verões de sua infância, naquela mesma praia, e os banhos de mar vespertinos. A mãe lhe fazia ir ao mar, todas as santas tardes, mas aquilo não lhe agradava muito. Não via razão de ir à beira da praia duas vezes por dia, e ainda ser obrigada a entrar na água gelada dos mares do Rio Grande do Sul em um horário em que o sol já começava a se despedir, e o vento já se mostrava mais ativo do que nunca; aquele tipo de vento de arrancar chapéus, e derrubar guarda-sóis, típico daquele litoral. Resolvia tentar aproveitar o banho de mar, então. O problema, porém, era quando tinha que voltar para o apartamento, tirar o maiô molhado e ficar alguns minutos esperando o chuveiro esquentar, ali, mal enrolada em uma toalha, sentindo o chão frio de azulejos nos pezinhos murchos e salgados. E então sentir o chuveiro quente no corpinho gelado, uma espécie de choque, de novo o calafrio. E uma sensação de tristeza azul-acinzentada, da cor do seu mar.

Foi arrancada dos devaneios pela voz do marido, “Vamos entrar?”. Ela estava querendo e precisando sentir o mar. Para lavar os males do ano que ora chegava ao fim. Uma água salgada e geladinha seria o ideal para aplacar os resquícios das coisas idas, limpando tudo, e preparando a alma para o futuro. “Podes ir na frente, entro logo”. Foi quando o marido pediu-lhe para guardar sua correntinha de ouro com crucifixo. Ela segurou a correntinha firme nas mãos. Ainda assim, o minúsculo crucifixo escorregou e caiu na areia. Foi tomada por um pânico similar ao calafrio que sentiu ao ver o mar de fim de tarde. Desesperada, ajoelhou-se na areia, espanando-a delicadamente, porém com muita aflição. O marido disse-lhe que não se preocupasse, essas coisas acontecem, talvez fosse a hora, e entrou no mar.

Ela continuou ali, ajoelhada, procurando o crucifixo por uma hora, olhando de vez em quando o mar imenso, de vez em quando o céu infinito, como se a pedir auxílio de ambos. Orou a Santo Antônio, padroeiro das causas perdidas. A fé aumenta em momentos de desamparo, isso é estatisticamente comprovado. Pareceu ouvir uma voz, “Está aí, olha só mais um pouquinho. Não perde a razão, segue tua intuição. A resposta está sempre em ti, é só se acalmar e tentar enxergar”. Olhou para os lados. Nada. A voz vinha de dentro.

Quando já estava a perder as esperanças, viu o brilho dourado da cruzinha, no meio daquele montão de areia revirada. Gritou bem alto para o marido, que estava saindo do mar. Vibrou, comemorou, até chorou. Foi aí que resolveu entrar no mar. Enfrentar o grande gigante, que deveria lavar-lhe o espírito. Em meio às ondas, que lhe abraçavam como uma velha amiga, deu-se conta de que aquilo tinha sido um aviso. Um sinal de que era tempo de parar, olhar ao redor, medir as atitudes, respirar. E aproveitar o mar, com suas infinitas possibilidades.

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