Boyhood

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por Pedro Cunha

Richard Linklater conseguiu fazer um filme diferente. É muito difícil você encontrar alguém indiferente a “Boyhood – Da Infância à Juventude” (Boyhood, Richard Linklater, 2014). Teve gente que não conseguiu assistir até o final e outros definindo o filme como obra-prima. Confesso para vocês que estou bem mais próximo do segundo time. Quando o filme acabou, eu sequer tinha percebido que aquele tempo todo tinha passado. Por mim ficaria mais duas, três, quatro horas no cinema acompanhando aquela história. Por mais que, como alguns tem dito, o filme não tenha propriamente uma história.

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Patricia Arquette e Ethan Hawke, com o passar dos anos

“Boyhood” é um filme sobre a passagem do tempo. Filmado no decorrer de doze anos, ele nos mostra a vida através dos olhos de Mason (Ellar Coltrane) desde a sua primeira infância até o início de sua vida adulta. Junto dele acompanhamos as histórias de sua mãe (Patricia Arquette), seu pai (Ethan Hawke) e sua irmã (Lorelei Linklater – sim, é a filha do diretor). A história de Mason não tem nada de extraordinária. É uma história comum de uma criança de classe média norte-americana. Os conflitos pelos quais ele passa são aqueles pelos quais qualquer um de nós poderia passar. E aí, talvez, resida o brilhantismo da ideia de Linklater. O projeto que pode, por um lado, ser chamado de megalomaníaco (filmar um longa durante doze anos) resulta em um filme que prima pela simplicidade. Nos enxergamos em Mason, e muitas vezes também na sua mãe, no seu pai ou na sua irmã. “Boyhood” é um filme que fala sobre a passagem do tempo e sobre a relação entre as pessoas. O diretor já tinha abordado com sucesso esses mesmos temas na sua trilogia “Antes”: “Antes do Amanhecer” (Before Sunrise, 1995), “Antes do Pôr do Sol” (Before Sunset, 2004) e “Antes da Meia-Noite” (Before Midnight, 2013). Os três filmes, que não foram pensados como uma trilogia e tem um espaço de praticamente 10 anos entre um e outro, mostram as idas e vindas de um casal durante 20 anos, desde o momento em que se conhecem na pós-adolescência até o momento em que estão se questionando o que fazer com os filhos já começando a crescer. Esse recorte em três tempos da vida de Jesse e Celine (Ethan Hawke e Julie Delpy) que conversa conosco e com as nossas vidas é o antípoda, o complementar de “Boyhood”. De um lado três filmes sobre as mesmas pessoas feitos de maneira independente e com 10 anos de intervalo entre um e outro. Do outro, um filme só, planejado, produzido durante 12 anos. Ambos contando a mesma (não) história: a passagem do tempo e a mudança das pessoas.

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Ellar Coltrane, que foi escalado para o filme aos seis anos de idade

“Boyhood” tem fortes atuações, mas é lindo perceber principalmente os trabalhos de Ethan Hawke e Patricia Arquette. Ela, em especial, eleva o filme a outro nível com a sua atuação como a mãe de Mason. Uma menina que engravida no final da adolescência e tem que lidar com divórcio, relacionamentos abusivos, trabalho e estudos enquanto cria duas crianças. Os medos e incertezas de Mason, da infância à adolescência, espelham-se nos de sua mãe, que acompanhamos da adolescência até a maturidade. Arquette faz o papel de coração e é complicado, em diversos momentos, de não enxergarmos nossas próprias mães.

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Linklater e seu elenco: Arquette, Coltrane, Linklater e Hawke 

“Boyhood” é um projeto grandioso. Pode até ser chamado de megalomaníaco. O resultado, porém, é simples. Não simplório, mas simples porque é delicado e sutil. Linklater, no fim das contas, talvez tenha sim elaborado sua grande obra-prima, ao discorrer mais uma vez sobre as pessoas e a passagem do tempo. O filme chegou forte na temporada de premiações. O filme levou os Globos de Ouro de Melor Filme (Drama), Melhor Diretor (Linklater) e Melhor Atriz Coadjuvante (Arquette). Patrícia Arquette também levou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pelo SAG e desponta como favoritaça para levar o Oscar. O filme, aliás, foi indicado em seis categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor (Linklater), Melhor Ator Coadjuvante (Ethan Hawke), Melhor Atriz Coadjuvante (Patricia Arquette), Melhor Roteiro Original (Linklater) e Melhor Edição.

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