Microgramática Concisa de Poemês

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Vai ver que foi porque meus pais me deram um nome de escritora. Será? Nasci predestinada a escrever? Ninguém escolhe ser escritor. O ofício de escrever é que nos elege. Esta sina é fogo. Parece leve. Parece uma tarefa simples. Não é. É dolorosa, na maior parte das vezes. Mais doída ainda quando é poesia. De tanto escrever, formulei umas regras básicas do poemês, umas “normas”, ou simplesmente constatações sobre o ofício de “poemar”. Aqui, seguem elas:

Falo em poemês várias coisas que sufoco. Acho que é isto. Tanto que me sinto aliviada toda vez que escrevo. O poemês é língua que cura os males da alma. Ah, que poético…

Constatação minha: no poemês, digo o que não consigo e o que não posso dizer. Funciona como nos sonhos: sonhamos com o que queremos, mas que não podemos fazer, muitas vezes.

O poemês só é compreendido por quem conhece bem o poeta. Sei disso, porque compreendo o poemês de alguns poetas com quem me relaciono. E as pessoas que me conhecem bem me contam que me imaginam falando o poema em voz alta, e sabem exatamente o que estou querendo dizer. Será?

Não adianta tentar traduzir poemês. Tarefa inútil. Poemês não tem tradução. Língua estranha. Ou o sujeito entende, ou não. Me irrita quem pede explicação para meus poemas. Ato de amor é dizer que adorou a poesia, e pronto.

O poemês não tem regras gramaticais rígidas. Esta é a parte boa, diriam os que não gostam de gramática. Esta é a parte especial, diriam os poetas. As regras do poemês vão sendo criadas à medida em que nascem os poemas.

É possível ensinar poemês. Ou melhor: é possível conduzir um aprendiz de poemês, com uma mão bem levinha. E muito carinho. Nada de pressão. Nada de imposição. Já guiei alguns aprendizes dessa bela linguagem. E já fui conduzida também. Prazeres indescritíveis. O verdadeiro poeta nasce sabendo poemês. A vida só aprimora o que a natureza lhe dá de presente.

Mesmo que eu tente, sei que meu poemês nunca ficará enferrujado. Posso até parar por um tempo, posso tentar fugir dos meus versos, mas não há solução: eles me perseguem, constantemente, em todos os momentos, em todos os lugares. A voz interna do poeta é o alimento do poemês. Para sempre.

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