Correspondências parte 11

Correspondências parte 11_P2.jpg
imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

João,

“Viver – não é? – é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender a viver é que é o viver, mesmo.”

Acredito que, como Riobaldo, nosso ofício requer estarmos dispostos a vender nossa alma a ele, ou ao menos, a fazer com ele o pacto.
Seu amigo vai indo bem, se equilibrando como pode (uma vez que minha sombrinha
caiu precipício abaixo). A vida sem Ana não é. Todas as vezes em que me
sento em frente à máquina, meus dedos correm pelas teclas e vejo meu
indicador parar na letra “A”. Lá ele se demora, até eu me levantar
esgotado e ir até a janela fumar um charuto. É um alívio ver que a vida
continua apesar de minha inércia. Os homens andam apressados carregando
suas pastas pretas, as mulheres correm da chuva erguendo a baia das
saias, os cachorros reviram as latas de lixo, tudo caminha lá fora de
mim. Aqui dentro meu EU preenche-me de tal maneira que não consigo
escutar os OUTROS. Quero viver o perigo que me espera e por ele anseio a
cada dia.

Escrever-te estas cartas é o que resta de minha literatura por hora.

Aguardo teus comentários a respeito do capítulo final como aguardo ao sol ceder à lua depois de mais um dia escaldante.

Nos encontramos…

Vinícius.

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