A artista e a arte

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Sempre que tem uma exposição pronta, a artista sente-se totalmente despreparada. De seu mundo de tintas e cores, ela aterrisa em um território cinzento e alienígena. Mas o que ela pode fazer? Ela pinta um sorriso na cara e vai.

Fechar com uma galeria é sempre estranho, pois ela se sente cafetina e puta em um só coração. Alguns pedem que ela explique o trabalho, mas ela é artista e não tradutora. Ela não quer dizer nada com os seus quadros, ela quer que você o diga.

Durante a organização do evento, o que mais ocorre é desorganização. Ela roi as unhas, sofre por antecipação, quer que tudo dê certo – mas nada tudo certo dá.

No dia da estreia, ela passeia em meio às obras, tão inovadoras para os outros, tão velhas ideias para ela. Não que não se orgulhe de todas, mas sua cabeça já está pintando com outras tintas. Para a artista, o que é de hoje já expirou.

Enquanto seus quadros estão pendurados na parede, encontra-se ela também exposta. Sua visão emoldurada passa a ser analisada por outros olhos, que, por sua vez, terão sua própria visão. E quando encaram um quadro é como se estivessem olhando diretamente nos olhos dela. Mas cada um enxerga alguém diferente no rosto da artista. Ela é um gênio da arte, mas é também uma velha pretensiosa. É uma artista sem igual, mas parece que mal sabe desenhar. É um colosso e um lixo. As opiniões diferem tanto que se anulam. Para a artista, ela apenas é.

A beleza de sua arte surge na criação. O que é feito da obra depois já não é sua responsabilidade. E não importa que venham 800 pessoas ou 16 (a galeria discorda), ela mostra o que sente que tem que mostrar. Ela mesma assume que não entende essa vontade de abrir a cabeça e deixar as ideias derramarem-se pelo chão, de pendurá-las de uma maneira específica pelas paredes, de esperar que as pessoas encontrem algo entre um salgadinho e outro, entre uma tacinha de champanhe e dois beijinhos. Talvez seja essa a maneira dela dançar, de se despir na frente dos outros, de abrir os braços e deixar que joguem-lhe ovos ou encham-lhe de beijos. Toda obra é uma forma de nudez.

Quando o evento acaba, ela sente-se um tanto aliviada. Veste sua timidez, recolhe sua voz e retorna para o seu mundo.

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