De anjos e memórias de avó

 

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

Este é para a minha avó, Margot,
que se foi quase centenária.

– Pronto, já mandamos a bisa pros anjos.

Foi o que eu disse à Angelina, minha filha caçula, de 9 anos, ao voltar do funeral da minha avó Margot Cunha De Camillis, nascida em 1915, filha de um português com uma alemã, protestante que se converteu ao catolicismo ao casar-se com meu avô, neto de italianos. Teve três filhos, sabia cozinhar, costurar e fazer tricô com perfeição, e participava de projetos de caridade no Rotary Clube de Porto Alegre. Fazia os melhores ovos moles com merengue que já comi na vida. Era ótima em carinhos nas costas, na hora dos netos dormirem na casa dela. Me chamava de “Neguinha”. Nunca entendi por que, mas achava bonitinho. Me deu um anel de brilhantes dela, que uso diariamente. Era caladona, mas nos conquistava com todas as coisas que descrevi. Ela faleceu há algumas semanas, aos 99 anos, oito meses de completar 100. Apostávamos que ela chegaria lá. Os anjos não quiseram, porém.

Depois que eu disse essa frase à Angelina, fiquei imaginando os anjos recebendo minha avó no Céu. “Entra, Margot, vem tomar um café com leite e bolo com a gente”. Ela fazia uns bolos, pães e doces deliciosos. Como qualquer vó, provavelmente. Em geral, as pessoas têm memórias gastronômicas de avós. E avôs, às vezes. Fico com pena dos meus netos, que não terão nenhuma memória de gostosuras feitas por mim. Terão apenas meus escritos. Já é alguma coisa.

A frase dos anjos me veio sem pensar. Minha filha queria detalhes do funeral. Achei melhor amenizar, dizendo que, quando enterramos a pessoa querida que se foi, é como se a enviássemos aos anjos. Eu gosto da ideia de anjos. Mas não sei se acredito neles.

Cheguei à conclusão, há pouco tempo, que sou agnóstica (a existência de Deus me é indiferente – com exceção dos momentos em que passo por turbulências em voos, quando rogo a todos os deuses de todas religiões do universo e faço promessas e macumbas indizíveis…!). O agnosticismo te proporciona uma certa liberdade. É estranho. Tira dos ombros aquela “obrigação” de ter fé, que nos é imposta desde que nascemos. Eu me senti bem livre depois que cheguei a tal conclusão. A morte de mais uma avó (minha última) me deu ainda mais certeza de que minha opção pelo agnosticismo é a mais correta, pelo menos até o momento.

O bom da fé é que ela é flexível. Creio que a vida molda nossa fé, e a maneira com a qual a encaramos ao longo do tempo. Os fatos vividos e as experiências de cada um conduzem a acreditar em algo. Ou não. Ver um corpo morto é devastador. Um corpo morto de alguém querido, pior ainda. É um tapa tão forte na alma, que nem dá para descrever. Para mim, a consciência mega explícita, ao acariciar a mão gélida da minha avó morta, de que temos todos um frágil botão de “liga/desliga” foi uma das ideias mais perturbadoras que já cruzou meu pensamento. Toda vez que vejo um morto, penso, “off”. E concluo, assim, por consequência: ah, mas que vontade gigantesca de estar “on”, muuuuito “on”, pelo maior tempo possível…! Que vontade de sair correndo, dançar na chuva, cantar bem alto, beber um monte de margaritas, beijar e abraçar quem eu amo, comer uns três pratos de massa carbonara, viajar e viajar e viajar, curtir todos os momentos em família, ir a várias festas, compartilhar ideias e conselhos com amigos, estudar, trabalhar e ser útil para a humanidade, ler mil livros, ouvir mil músicas, ver mil filmes, escrever um milhão de poemas; viver, enfim, como se não houvesse amanhã, porém desejando ardentemente que existam infinitos amanhãs.

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