Crônicas de Viagem – Nova Zelândia: The Sounds

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imagem: Ana Nitzan

por Marcella Marx

“O futuro só será, se for compartilhado”

Foi essa a frase que eu ouvi do Marcelo, meu companheiro de viagens, quando chegamos a Milford Sound. Chegamos trazendo chuva, muita chuva. Tanta que até pra nós, campistas de muitas viagens, ficou impossível suportar. Fomos até a recepção do Lodge e perguntamos se haveria algum quarto disponível.

– Duas camas juntas num quarto para hoje, mas para amanhã, só camas em quartos separados.

– Tem certeza que não há outra opção? perguntei.

– Temos também as suítes externas com lareira, banheiro privativo e arrumadeira.

Minha vontade era dizer sim imediatamente. É isso mesmo que eu quero depois de quase vinte dias acampando, mas me controlei, parei e olhei para o Marcelo que disse:

– Você acha que vale a pena gastar tudo isso? O que viemos ver aqui não está no quarto, nem no banheiro, mas você que sabe.

Eu sabia que ele tinha razão.

– Vamos ficar com as camas juntas e com as separadas também, obrigada.

Depois que nos estabelecermos no quarto com as outras pessoas, tomamos banho no banheiro comunitário, terminamos o dia na cozinha, junto com vários outros viajantes da França, Israel e Alemanha. Dividimos os utensílios, as panelas, o sal e o azeite e sentamos lado a lado nas mesas para comer. Foi então que começamos a conversar sobre nossas escolhas e foi também quando ouvi a frase que abre esse relato de viagem.

Temos que aprender a dividir o que é público, seja lá o que for: uma panela, o banheiro, uma cama, tratando-o com a mesma responsabilidade, como se fosse algo privado. Temos que ensinar às crianças que essa atitude é, ou deveria ser, “normal” e muito prazerosa. Porque, no final das contas, o que vai restar de nós é o que viveu dentro.

A chuva não cessou. Uma tempestade que os próprios moradores do Lodge que viviam lá há mais de dez anos nunca tinham visto.

Nas paredes das montanhas que nos cercavam haviam se formado milhares de cachoeiras. As rajadas de vento faziam com que as menores se desprendessem das encostas e alçassem voo. As montanhas inteiras chorando em festa, brindando as sabias escolhas.

O último lugar onde nós desejaríamos estar naquele momento era dentro de um quarto.

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