A Nova Disney: o que tem de tão nova?

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por Pedro Cunha

Em 1937 Walt Disney lançou “Branca de Neve e Os Sete Anões” (Snow White and The Seven Dwarves, Hand, Cotrell et alli, 1937) e mudou para sempre a história do cinema. O filme rendeu a Disney um Oscar de Melhor Trilha Sonora Original e um prêmio especial pelo primeiro longa de animação da história do cinema americano (Esse prêmio consistia numa estatueta do Oscar normal acompanhada por sete outras menores). A receita criada pelo próprio Walt seguiria imutável por décadas: um primoroso trabalho de animação, elevado a categoria de arte, e uma escolha sempre muito criteriosa de trilhas sonoras sensacionais. Se deu certo? Até hoje ninguém ganhou mais estatuetas do careca dourado que Walt Disney: são 22 Oscars em 64 indicações. Além dos prêmios, Disney moldou a infância de gerações: nas décadas de 1940, 50 e 60 com desenhos animados como “Pinóquio” (Pinocchio, Bem Sharpsteen, 1940), “Fantasia” (vários, 1940), “Dumbo” (Bem Sharpsteen, 1941), “Bambi” (David Hand, 1942), “Cinderella” (Clyde Geronimi, 1950), “Alice no País das Maravilhas” (Alice in Wonderland, Clyde Geronimi, 1951), “Peter Pan” (Clyde Geronimi, 1953), “A Dama e o Vagabundo” (The Lady and the Tramp, Clyde Geronimi, 1953), “A Bela Adormecida” (Sleeping Beauty, Les Clark, 1959), “Os 101 Dálmatas” (One Hundred and One Dalmatians, Clyde Geronimi, 1961), “A Espada Era a Lei” (The Sword in the Stone, Wolfgang Reitherman, 1963) e “Mogli – O Menino Lobo” (The Jungle Book, Wolfgang Reitherman, 1967). Nessa passagem rápida pelas primeiras décadas dos Estúdios Disney, citando só as grandes animações, temos DOZE filmes que foram paradigmas de várias infâncias (inclusive a minha!) de gerações e gerações nascidas, inclusive, DEPOIS deles.

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A Disney Clássica 

A Disney volta a grandes voos nos anos 90, com “A Bela e a Fera” (Beauty and The Beast”, Gary Trousdale, 1991) e várias outras animações, incluindo a badaladíssima “O Rei Leão” (The Lion King, Roger Allers e Rob Minkoff, 1994). Nos anos 90 também a Disney mergulha de cabeça no futuro das animações ao fechar uma parceria (e posteriormente compra) com a Pixar, produtora de desenhos digitais. A partir daí fenômenos como as séries Toy Story, Monstros SA e Carros passaram a dividir os cinemas com verdadeiras obras-primas da animação como  “Procurando Nemo” (Finding Nemo, Andrew Stanton, 2003), Wall-E (Andrew Stanton, 2008) e “Up! Altas Aventuras” (Up!, Peter Docter, 2009), marcando e definindo várias novas infâncias. (Acredite, fui econômico nesse parágrafo. Se eu fosse ficar citando seria não um artigo, mas um livro falando só das animações Disney/Pixar!)

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A “nova” Disney, nos anos 90 

Por incrível que pareça, em termos econômicos a compra da Pixar foi o SEGUNDO melhor negócio da Disney nesse novo século. O negócio mais absurdamente lucrativo da Casa do Mickey foi mercadológico: a criação da linha “Princesas Disney”, no início dos anos 2000. Juntar as principais “princesas” da casa (mesmo que personagens como Mulan, Pocahontas e Esmeralda, que depois foi retirada da franquia, não sejam exatamente princesas) e lançar lancheiras, fantasias, adesivos, cadernos e qualquer tipo de produto que você consiga imaginar foi o grande acerto em termos de negócio das empresas de Walt no início desse século. Todas as meninas queriam ser princesas. Queriam? Pois é. Isso começou a mudar.

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Assim como a franquia das Princesas tomou conta do mercado, uma série de reflexões e questionamentos a respeito delas também começou a aparecer. Será que o modelo das Princesas Disney, em geral, fazia bem às crianças (e em especial, às meninas, público-alvo da franquia)? Com a exceção de Mulan e, vá lá, talvez de Pocahontas, as princesas da franquia eram todas “donzelas em apuros” cuja felicidade maior se dava ao encontrar um príncipe encantado que as salvasse para que elas pudessem ser “felizes para sempre”. Numa sociedade onde os papeis de gênero vem sendo questionados e redefinidos, onde as mulheres ocupam cada vez mais papeis de destaque e onde o movimento feminista cresce cada vez mais, qual o lugar para uma princesa que cai dormindo até ser acordada ou espera numa torre o príncipe que vai salvá-la? Ariel, a Pequena Sereia, chega a abrir mão da sua voz em nome do amor de um homem que ela tinha visto uma única vez. Seriam, repito, esses os modelos para a nova geração de meninas? (Um questionamento desses modelos foi feito pela principal concorrente da Disney, a Dreamworks, em “Shrek” (Andrew Adamson e Vicky Jenson, 2001). Vale o filme e as risadas).

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Com esses questionamentos vindos de vários lados, a Disney mostra porque é vanguarda a oitenta anos. A partir de 2012 a empresa começou uma forte campanha para redefinir a sua marca. Nesse sentido o lançamento de “Valente” (Brave, Mark Adams e Brenda Chapman, 2012) é pedra fundamental. Não só o filme traz uma diretora como também apresenta uma protagonista que renega todos os estereótipos de princesa: é independente, gosta de se andar a cavalo e atirar com seu arco e tem o cabelo todo desgrenhado. Merida, a princesa de “Valente”, foi introduzida no panteão das Princesas Disney já em 2013. Não sem alguma polêmica, é verdade: houve muita reclamação do público quanto a transformação que a personagem sofreu ao ser apresentada como “Princesa” ( http://www.today.com/popculture/brave-princess-sexy-makeover-not-permanent-disney-says-1C9952299 ).

“Valente” poderia ser uma exceção, um ponto fora da curva, como fora Mulan. Mas 2013 fez questão de nos mostrar que não. Com “Frozen” (Chris Buck, Jennifer Lee, 2013) temos uma total redefinição dos papeis nos filmes Disney. Tanto Anna, a irmã mais nova, quanto Elza, a irmã mais velha, são fortes, decididas e empoderadas. Não deixam nada a dever a nenhum dos personagens masculinos do filme, bem pelo contrário. A trama do filme busca algo que encontramos já nos primeiros longas da Disney, lá nos anos 1930: o “Amor Verdadeiro”. A única coisa que seria capaz de salvar Anna seria um ato de “Amor Verdadeiro”. Ao contrário do que todos imaginam e quebrando o paradigma Disney, o ato de Amor Verdadeiro não tem nenhuma relação nem com Hans, o “príncipe encantado”, nem com Kristoff, o menino desajeitado que ajuda Anna. O “Amor Verdadeiro” é o amor das duas irmãs. O personagem de Hans, inclusive, serve para ridicularizar as antigas tramas Disney que tinham por base um “amor para sempre desde a primeira vista”. O filme todo é sobre o companheirismo e a amizade das duas irmãs. Quando o conflito é resolvido Elza se torna rainha e senhora do seu país, sem a menor necessidade de casamento ou príncipe: ela se basta, e pode governar tranquilamente. Já Anna, não temos certeza: apesar dela ter um envolvimento com Kristoff, o filme não define se os personagens ficam juntos ou não, porque isso não deve ter a menor importância. Prestando atenção nos detalhes, quando Kristoff vai beijar Anna, ele PEDE para ela se eles PODEM se beijar: não é ele que a beija e também não é a força: o beijo é dos dois e é consentido. Nada disso, tenham certeza, é por acaso. A Disney com Frozen coloca não uma, mas DUAS princesas novas na sua franquia e ambas independentes, fortes e proativas. Mulheres, enfim, do século XXI. Se você ainda não está convencido de que Frozen é um dos filmes mais legais dos últimos tempos, além dessa questão do papel das meninas nós podemos também chamar a atenção para o belo destaque que o filme dá ao tratamento com o diferente: os poderes de Elza fizeram, num primeiro momento, com que ela fosse tratada como pária. Com a resolução do conflito, a diferença dela é celebrada e comemorada por todos. Elza não só é aceita como é aceita como a Rainha de Arendelle.

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Se “Frozen”, depois de “Valente”, não foi suficiente para convencer você, chegamos em 2014 e os Estúdios Disney fazem uma releitura de “A Fela Adormecida”, chamada… “Malévola” (Maleficient, Robert Stromberg, 2014). Se “A Bela Adormecida” acaba sendo um dos maiores exemplos daquele papel feminino submisso (convenhamos: a única coisa que a menina faz no filme é ter o dedo espetado por uma roca!!), a revisão da história pelo ponto de vista de uma das bruxas mais icônicas da Disney nos mostra que… enfim, não é bem assim. Não por acaso a Disney foi buscar Angelina Jolie para o papel. A atriz, além de ser uma das mais bem pagas de Hollywood, é conhecida pelo seu protagonismo em inúmeras ações sociais, sendo muito mais do que simplesmente um rostinho bonito. A história da fada que virou bruxa para defender seu povo sensibiliza qualquer um que a assista. O filme tem cenas fortes: o momento no qual Malévola acorda sem as suas asas, arrancadas pelo ambicioso Steffan, é quase brutal e já foi comparado, sem exageros com uma cena de estupro. O ambicioso Steffan traiu Malévola, que fora sua amiga, par tornar-se rei, e a ira de Malévola acabou recaindo sobre Aurora, a filha de Steffan. A virada do filme se dá, mais uma vez, com a busca pelo “Amor Verdadeiro”. No fim das contas o “Amor Verdadeiro” capaz de acordar Aurora não seria o do Príncipe Phillip, mas sim o da própria Malévola, que durante anos acompanhou a menina crescer e acabou afeiçoando-se a ela. “Malévola” é uma história de quebra de confiança, de redenção e, sim, uma história de amor. Mas aqueeeele amor que estávamos acostumados nos filmes Disney? Esqueça. Aquele tempo acabou. E que bom, não?

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