Olhe ao redor

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imagem: Cassiano Rodka

por Clarice Casado

E então me vi sem meu telefone celular. Por mais de uma hora. Em uma segunda-feira qualquer. Ok, o leitor vai pensar, “Ué, eu fico até mais tempo sem o meu!”. Fica mesmo, sério? Acredite em mim, você pode até ficar, se tiver alguma outra distração: trabalho, estudo, um livro, um filme, um passeio no parque ou na praia, um papo ao telefone (fixo!) com um amigo, uma hora na academia, umas comprinhas, um jantar com a família. Experimente, porém, ficar parado por uma hora, só olhando a vida passar, sem seu celular na mão. Estou falando sério, experimente. Vá lá quando acabar de ler esta crônica. Nada fácil. Nos primeiros cinco minutos, senti até uma certa dormência louca nos dedos, que queriam desesperadamente fazer aquele movimento de desbloqueio da tela de início do celular.

Pedi um café, e foi só aí que comecei a relaxar – cafeína tem este efeito sobre mim, acreditem se quiserem. Olhei nos olhos da garçonete ao fazer o pedido (coisa que não se faz mais hoje em dia). Observei com atenção o casal ao meu lado, dois velhinhos, de mãos dadas. E também as moças em outra mesa, envolvidas em algo que parecia uma reunião de trabalho. E o adolescente com fones de ouvido, estudando química. Fiquei curiosa para saber o que ele estava ouvindo! Um senhor sozinho rascunhava num caderninho (seriam poemas?). Senti o cheiro inigualável do meu café, como nunca sentira. E também o aroma irresistível dos bolos e pãezinhos. Acompanhei o andar e os semblantes dos passantes. Pessoas preocupadas, felizinhas, sérias, correndo. Tinha de tudo. Prestei atenção na música ambiente. Bossa nova. “Samba do avião”, de Tom Jobim. Perfeita. “Minha alma canta/Vejo o Rio de Janeiro/Estou morrendo de saudades…”. Lembrei então do meu pai (que ama Bossa Nova), na casa onde cresci em Porto Alegre, escolhendo qual seria a música da noite. E da minha mãe lendo na sala, e do cheiro do jantar em andamento. Do meu pai preparando bebidinhas para ele e para os convidados. Dos meus familiares chegando para começar a festa. Vozes. Cheiros. Sons. Da família inteira reunida ao redor da mesa, num clássico jantar com muitas histórias, memórias, risadas, abraços e brindes. Sorri, emocionada. Pedi outro café. Peguei na minha bolsa uma caneta e um folheto verde de propaganda de uma livraria, que estava ali mofando há semanas. Comecei, então, a escrever esta crônica. Quando dei por mim, não estava mais sozinha. Olhando ao meu redor, consegui também olhar dentro de mim.

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