A política dos ois

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imagem: Cassiano Rodka

por Cassiano Rodka

Dentre as diversas regras não escritas da sociedade, uma das mais difíceis de compreender é a política dos ois. Basta sair de casa para perceber que ninguém sabe bem quem, quando ou como cumprimentar. É um sorriso amarelo aqui, uma olhada para o lado acolá, um aceno hesitante do outro lado da rua e várias implicâncias brotando das mais vexaminosas tentativas de esquiva do campo de visão alheio.

Se você não gosta de regras, mas quer sair de casa, existem duas opções: a primeira é andar sempre de óculos escuros, aí dá para escolher quem você enxerga. “Passei por você ontem? Nem vi!” A segunda alternativa é dar oi para todo mundo que vê pela frente. Aí não tem erro. Você pode passar por louco, mas, mal educado, jamais.

Agora, se você quer entrar no jogo de verdade, o negócio é bem mais complicado. Cada um acaba tendo as suas próprias regras, é verdade, mas algumas atitudes são básicas e, se você não respeitá-las… Bem, cada oi mal calculado pode levar a anos de mal entendidos. Depois não diga que não avisei.

Em visita à família ou na casa dos amigos, a regra é simples: cumprimente todos, mesmo os que você não gosta. Eles estão lá e estarão até o final da vida (sua ou deles, um de vocês vai primeiro), então acostume-se. A intensidade do oi pode variar, mas sem dar muito na cara, senão fica chato. A partir do momento que você acabou de dar oi a todos os presentes, terminou a sua obrigação. Agora você só responde a quem chegar e vier cumprimentar você. Fácil assim!

O desafio mesmo são os locais públicos, onde há uma diversidade de relações pessoais. Cada lugar oferece um quebra-cabeças diferente e aí entra o seu bom senso e a sua malemolência social. Há aqueles que necessitam de um oi com paradinha para conversar, os que quase fogem logo depois de um oi balbuciado e até uns que chegam a passar trabalho evitando contato visual durante horas a fio, tudo para não dizer oi. Tem uns também que às vezes cumprimentam, às vezes viram a cara, assim sem razão concreta – são os mais chatos, pois a gente nunca está preparado para o que vai acontecer.

No caso da ausência de oi, algumas regras são elementares: se você conhece a pessoa e, ao passar por ela, a criatura não proferir um oizinho que seja, você automaticamente ganha o direito de não cumprimentá-la na próxima vez em que se encontrarem. Se você perceber que a pessoa lhe reconheceu e se fez de louca, o direito torna-se vitalício. Você pode nunca mais cumprimentá-la na vida, sem peso algum na consciência. Não há nada pior do que aquele oi pro vazio quando o cumprimentado vira a cara bem na hora, sabe? Aí já era, o sujeito que batalhe para recuperar o seu privilégio de ser saudado novamente. E ele que se cuide, pois futuramente existirão leis específicas para isso. E lá vai o indivíduo para o banco dos réus, suspeito de sonegação de ois.

“Veredito, Vossa Excelência?”

“Culpado! Condenado a cinco anos de trabalho na recepção da Disney World!”

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